Capítulo 5 Ninguém diz não

Melissa

Lá embaixo, eu tentava ligar o secador, mas minhas mãos não paravam de tremer. Eu sentia que algo tinha mudado para sempre. Eu não era mais apenas a Melissa do salão. Eu era a mulher que tinha sobrevivido à noite com os donos do morro — e, pior ainda, a mulher cujo corpo eles ainda desejavam com uma fome perigosa.

(...)

O dia no salão foi um exercício de tortura em câmera lenta. O ventilador apenas remexia o ar quente, impregnado com o cheiro de amônia e esmalte. Eu trabalhava no automático, mas meus sentidos estavam em outro lugar. Cada vez que uma moto passava na rua, meu corpo travava, esperando o barulho do rádio ou o chamado que mudaria o meu destino.

— Hoje tu tá em outro planeta, hein, Melissa? — comentou uma cliente, encarando-me pelo espelho. — Tá cortando esse cabelo como se tivesse fugindo da polícia.

— É o cansaço, dona Cida. Noite mal dormida — respondi, forçando um sorriso que desmoronou assim que ela desviou o olhar.

Na hora do almoço, o refúgio nos fundos do salão não me trouxe paz. Geovanna, que me conhecia desde que eu cheguei no morro, trancou a porta e cruzou os braços, ignorando a própria quentinha.

— Corta o teatro, Mel. O salão inteiro viu tu descendo daquele Corolla. Tu tá andando com a cúpula agora?

— Eu não tô andando com ninguém, Geo! — sussurrei, a voz carregada de desespero. — Eu bebi, me perdi... quando acordei, tava naquele casarão. Eu só quero esquecer que essa noite existiu.

— Esquecer? — Geovanna riu, mas havia muita preocupação em seus olhos. — Amiga, eu também tava tri louca de gim, mas eu lembro de tu rindo com o Escorpião no camarote. Ninguém te levou arrastada. Mas eu só soube que o negócio era sério quando vi o carro do Pesadelo te deixando aqui. Tu tem noção do perigo que isso significa?

— Tenho! Por isso eu preciso focar aqui — apontei para o salão, as lágrimas ameaçando cair. — Eu tenho que mandar o dinheiro da vozinha no interior semana que vem. Ela depende de mim. Eu sou uma menina de família, Geo. Se o pessoal lá da minha cidade souber que eu me envolvi com... com gente desse tipo...

— Calma, respira... — Geovanna segurou a minha mão com força. — Mas fica esperta. Homem daquela laia não aceita ser "um erro de uma noite".

(...)

Quando o sol começou a se esconder atrás do morro, tingindo o céu de um laranja sangrento, eu baixei a porta de aço do salão. O estalo do cadeado soou como o fim de um turno de guerra. Eu só queria o chuveiro da minha casa e um pouco de silêncio.

Mas, ao dobrar a primeira esquina, o ar pareceu esfriar de repente.

Um rapaz jovem, magro, com o olhar de quem já viu muita coisa, bloqueou a minha passagem. O rádio comunicador na cintura e o volume da pistola sob a camiseta larga deixavam claro quem ele era: Léo, mais conhecido como Foguete, um dos soldados de confiança da contenção.

— Ei, Melissa. Segura o passo aí — disse ele, num tom calmo, mas que não admitia recusa nenhuma.

— Foguete... agora não. Eu tô morta de cansaço, preciso ir pra casa.

Ele não se moveu. Apenas apontou com o queixo para a moto de alta cilindrada estacionada logo atrás de si.

— O chefe mandou te buscar. Ele tá lá em cima te esperando. Disse que o assunto é sério e não quer esperar.

Meu estômago deu um nó apertado. A lembrança da manhã voltou como um soco no rosto: as marcas no meu corpo, a obsessão silenciosa de Pesadelo.

— Eu não vou.

— Não — repeti, a voz saindo do fundo da garganta, trêmula mas firme.

Foguete franziu a testa, o choque estampado claramente no rosto. Naquele morro, a palavra do Pesadelo era a própria lei da gravidade; ninguém a desafiava.

— Melissa... tu bebeu de novo? Ninguém diz "não" pro homem. Tu vai arrumar problema pra mim e pra tu mesma.

— Pois diz pra ele que eu disse! — a raiva finalmente venceu o medo que eu sentia. — Diz que eu tô doente, que eu já fui embora, inventa qualquer coisa! Eu não sou mercadoria dele, Léo. Eu não devo nada a ele.

Sem dar tempo para o rapaz processar o que eu tinha dito, girei nos calcanhares e comecei a andar rápido. Meu coração parecia uma escola de samba batendo fora de ritmo. O suor frio escorria entre os meus seios, onde a pele ainda latejava pelas carícias da noite anterior.

O que ele quer de mim agora?

Eu não olhei para trás. Se tivesse olhado, teria visto que Foguete continuava parado no mesmo lugar, com a mão já no rádio, sem saber co

mo reportar aquele "não" que ninguém esperava ouvir.

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