Capítulo 6 Sombras

Pesadelo

E mais longe, escondido pelas sombras de uma viela, o meu carro escuro de vidros blindados acompanhava os passos dela com uma lentidão predatória. Lá dentro, o brilho do meu cigarro aceso iluminava brevemente os meus olhos frios.

Eu não estava irritado. Estava fascinado. O "não" de Melissa era uma música nova para os meus ouvidos, e eu sempre fui um homem que apreciava uma caçada difícil.

Apaguei o cigarro com força no cinzeiro e dei a ordem curta pelo rádio:

— Deixa ela ir. Mas não perde de vista. Quero saber até onde vai a marra dela.

(....)

Melissa

O banho foi a única coisa que me trouxe de volta à realidade. Deixei a água quente castigar os meus ombros, tentando — sem sucesso — apagar a sensação das mãos grandes de Pesadelo e dos toques suaves e certeiros de Escorpião.

Passei os dedos pelos bicos ainda inchados e sensíveis, e senti um calafrio forte percorrer todo o meu corpo. Eu não me reconhecia mais.

Ao sair do banho, vesti um shortinho jeans curto e uma regata de algodão fresquinha. A fome finalmente venceu o enjoo da ressaca, e o cheiro de churrasquinho vindo da esquina pareceu um chamado impossível de ignorar.

Meu celular não parava de vibrar.

Geovanna: Piranha, me atende!

Geovanna: Tô no espetinho do Baiano. Se tu não vier agora contar o que aconteceu, eu subo aí e te arrasto pelos cabelos.

Suspirei fundo e decidi ir. Precisava de uma dose de normalidade, nem que fosse por alguns minutos.

No Espetinho do Baiano, o clima era o puro suco da comunidade: pagode tocando baixo, o chiado da gordura na brasa e refrigerante de garrafa de vidro trincando de gelado. Geovanna já estava lá, devorando um pão com alho.

— Finalmente! Desembucha, Melissa! — Geo disparou assim que me sentei. — Tu sumiu no baile, acordou na casa do "homem" e desceu no carro oficial. Tu virou primeira-dama e não me avisou?

— Para de falar alto, Geovanna! — sussurrei, abrindo a Coca-Cola. — Não teve nada de primeira-dama. Eu bebi demais e... eles me levaram. Foi só isso.

— "Eles"? No plural? — Geovanna arqueou a sobrancelha, os olhos brilhando de surpresa. — Todo mundo sabe que onde o Pesadelo pisa, o Escorpião planta a flor. Eles são carne e unha, Mel. Mas ninguém entra no meio dos dois. Tu entrou?

Senti o rosto queimar de uma vez. Lembrei da obsessão possessiva de Pesadelo e da forma como Escorpião parecia orquestrar cada momento, cada toque dos três.

— Eu não lembro de tudo, Geo. Só flashes. Mas eles são... estranhos. O Pesadelo é um bruto, mas o Escorpião... ele parece que lê a gente por dentro.

— Cuidado, amiga — Geo disse, ficando séria de repente. — Esse tipo de homem não divide nada. Se eles te escolheram pra dividir, tu agora é posse. E posse de bandido não tem alça, não tem saída.

Tentei desconversar, focando no churrasquinho, mas aquela paz durou pouco. Me despedi da amiga e comecei a caminhar para a minha casinha, sentindo o corpo pesado de cansaço — e uma pontinha de alívio por ainda estar livre.

(...)

Eu já avistava o meu portão quando o ronco grave de uma moto potente rasgou o silêncio da noite. O som ecoou pelas paredes do beco e encostou na minha espinha como um arrepio gelado. Não precisei virar para saber quem era; aquele perfume que misturava sândalo, tabaco e algo doce demais era a assinatura dele.

— Fugindo de novo, pequena? — a voz de Escorpião veio leve, quase cantada. — Desse jeito tu vai acabar perdendo o fôlego antes da hora.

Parei no mesmo lugar e respirei fundo, tentando invocar uma coragem que eu não tinha. Ele estava sem capacete. Sob a luz amarelada do poste, ele parecia uma pintura perigosa: o sorriso fácil, os olhos cheios de uma inteligência maliciosa que sempre me deixava sem ar.

— Eu já disse pro Foguete que não vou subir — falei, tentando sustentar o olhar, apesar de sentir o coração disparar. — O Pesadelo não manda em mim, Escorpião. Eu tenho vida, tenho trabalho.

Ele desceu da moto com uma elegância fluida. Não caminhava como um soldado; caminhava como um predador que sabe perfeitamente que a presa já está cercada.

— Deixa de ser teimosa, Mel — disse ele, parando a poucos centímetros de mim. O cheiro dele me inundou de uma vez, trazendo todas as memórias da madrugada. — O homem tá lá em cima possesso porque tu deu um perdido no Foguete. Ele não tá acostumado a ouvir "não".

Inclinou a cabeça, observando a pulsação acelerada no meu pescoço.

— Mas entre nós... — baixou o tom, cúmplice — ...ele tá mais preocupado do que brabo. Tu bagunçou o juízo dele, garota. Ele passou o dia inteiro encarando aquele teu sutiã de renda que ficou no quarto como se fosse um troféu de guerra.

— Para com isso... — desviei o olhar, a vergonha subindo forte ao rosto, misturada com uma sensação que eu não queria admitir.

— É sério. Ele ficou viciado naquele teu "jeitinho". O homem não consegue esquecer o gosto do teu peito — Escorpião riu baixo, uma risada que vibrou no meu peito e me deixou ainda mais fraca. — Ele é bruto, Mel. O mundo dele é feito de fuzil e ordem. Ele não sabe lidar com o que sente. Alguém tem que traduzir o bicho pro mundo... e esse alguém sou eu.

Tocou o meu queixo com a ponta dos dedos, uma carícia leve que me deu um choque elétrico.

— Eu cuido de você. E você... bem, você cuida da gente. Tu relaxou tanto nos meus braços ontem enquanto ele te devorava. Vai dizer que não gostou da atenção dupla?

— Eu não lembro... — menti, a voz falhando, odiando o fato de que o meu corpo lembrava cada segundo melhor do que a minha mente.

— O corpo lembra — rebateu ele, sem crueldade, mas com a certeza de quem viu cada reação minha. — Se tu não subir agora, ele vai descer o morro inteiro com a tropa atrás de você. E aí vai ser feio. Vai ter vizinho olhando, fofoca correndo... e o Pesadelo irritado não é uma visão bonita de se ver.

Abriu um sorriso tranquilo e estendeu a mão.

— Sobe comigo. Só conversa. Eu te trago de volta antes da novela acabar. Palavra de honra.

Olhei para a mão grande e tatuada dele. Sabia que aceitar era entrar em um labirinto sem volta, mas recusar era declarar guerra contra o dono de tudo ali.

— Você promete que ele não vai ser ignorante? — perguntei, vencida.

Ele piscou, o olhar brilhando com uma vitória silenciosa que me deixou ainda mais nervosa.

— Prometo pela minha vida. E tu sabe... a minha vida é a única coisa que o Pesadelo ama mais do que o poder.

Suspirei fundo e subi na garupa, segurando firme na cintura dele. Enquanto a ladeira ficava para trás, eu não sabia dizer se estava indo por medo... ou se já estava presa a algo muito mais perigoso e envolvent

e.

A mansão os esperava no topo. E com ela, o segredo mais explosivo do morro.

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