Capítulo 7 Domínio

Escorpião

O vento batia forte no rosto dela enquanto eu subia a ladeira com a moto, cortando cada curva com uma precisão quase arrogante. Eu pilotava como quem dominava não só a máquina, mas cada palmo, cada sombra desse morro. As luzes piscavam ao redor, e o grave distante do baile ainda ecoava baixo no ar — eu sentia ela apertar mais forte a minha cintura, os dedos dela cravando na minha camiseta, como se eu fosse a única coisa firme ali.

Ela cheirava a baunilha e gim, misturado ao cheiro de medo que eu conheço bem. Mas não era só isso. Eu sentia o jeito que ela se encostava em mim sem perceber, o modo como respirava fundo perto do meu pescoço. Ela estava assustada, claro — mas também curiosa. E atraída. Coitada, achava que escondia bem.

Conforme subíamos, o morro mudava de tom. O barulho dos bares, das caixas de som estouradas e das conversas altas ia ficando para trás, engolido pela altura. Ali em cima, o silêncio não era falta de vida: era vigilância. Um silêncio que observava, que media, que sabia exatamente quem passava por ali.

Os nossos homens apareciam nas esquinas como se fossem parte da parede. Alguns encostados nos muros, outros sentados em caixas de energia, fuzis apoiados no peito, rádios presos ao ombro. Não falavam alto. Não precisavam. Quando a minha moto apareceu, cabeças se viraram. Acenos discretos, gestos quase invisíveis. Alguém levou a mão ao rádio e murmurou algo rápido — e o caminho se abriu sozinho.

Eu vi ela engolir em seco. O estômago dela afundando, percebendo que ali não era só respeito. Era domínio absoluto. Ela olhava para todos os lados, os olhos grandes e atentos, assustada com tanta força... mas também fascinada. Eu via no brilho dos olhos dela.

Parei diante do portão de ferro negro, alto e imponente. Duas câmeras nos seguiram quando desliguei o motor, e o portão começou a se abrir devagar, obediente. Desci num salto elegante, como se estivesse chegando a uma festa exclusiva.

— Pronto, princesa — falei, sorrindo de lado, com aquele tom que eu sei que deixa ela ainda mais nervosa. — Chegamos de volta ao paraíso particular do nosso chefe.

Estendi a mão. Ela hesitou um segundo, olhou para todos os lados, sentindo o peso de todos aqueles olhos invisíveis sobre ela, mas acabou aceitando. As pernas dela estavam bambas demais para sustentar qualquer orgulho.

Antes de atravessarmos, me inclinei bem perto do ouvido dela, a voz baixa e quase divertida:

— Aqui em cima, cada passo é visto. Cada respiração é sabida.

Dei um meio sorriso.

— O leão tá na toca. Entra mansa... mas não entra quebrada. Ele gosta de fibra.

O portão bateu atrás de nós com um som metálico pesado. E eu vi ela entender, tarde demais, que dali pra frente não havia mais rua. Só território.

(...)

Ao entrarmos, a penumbra a envolveu de vez. Luzes indiretas desenhavam sombras longas nas paredes, e o cheiro de madeira velha, bebida cara e algo mais masculino, bruto, tomou conta de tudo.

Então ele apareceu.

Pesadelo estava na varanda, de costas, parado diante da imensa janela de vidro que dava vista para todo o formigueiro de luzes da favela. Ele era grande. Imóvel. A própria definição de controle.

Eu vi Melissa parar de andar de repente. A boca dela se abriu um pouco, e ela deu um passo para trás quase sem querer — mas logo se segurou, endurecendo a expressão. Eu conheço esse olhar: o coração dela disparou tão forte que dava para ouvir de onde eu estava. Ela estava apavorada... mas também parecia que não conseguia desviar o olhar. O jeito bruto, calmo e absoluto dele axia mais do que qualquer coisa. Mas ela fechou a cara, tentando disfarçar.

— Eu falei que ela vinha — falei, quebrando o silêncio com uma naturalidade que eu sei que o irrita. Fui até o bar e me servi de uma dose, como se estivesse na minha própria casa. Porque, pra mim, era. — A Mel só precisava de um empurrãozinho... emocional.

A resposta não veio de imediato. Quando a voz de Pesadelo surgiu, veio grave como um trovão contido, preenchendo cada canto da sala antes mesmo de tocar os ouvidos dela.

— Tu tem muita audácia, Melissa. Mandar um vapor meu voltar com a moto vazia... — houve uma pausa carregada, pesada — ...ninguém nunca fez isso.

Ele se virou devagar. Sem camisa, vestindo apenas a calça de moletom preta. As tatuagens e as cicatrizes pareciam ainda mais sombrias e imponentes sob a luz baixa. Eu vi ela segurar a respiração, os olhos passando devagar por todo o corpo dele, rápido o suficiente para ele não perceber... mas devagar o bastante para eu ver. Ela corou de repente, e logo cruzou os braços sobre o peito, como se pudesse se proteger do que sentia.

Ele a mediu de cima a baixo, sem pressa nenhuma, como quem avalia algo raro e perigoso. O olhar dele desceu pelo cabelo longo dela, pelo rosto, pelas bochechas queimadas de vergonha e calor, parou no short e na regata que revelavam mais do que escondiam. Na mesa atrás dele, o sutiã de renda dela estava estendido — um contraste delicado e ousado em meio a todo aquele poder.

— Eu não sou um dos seus soldados, Pesadelo — respondeu ela, a voz saindo trêmula, mas firme o suficiente para tentar parecer forte. — Eu tenho uma vida lá embaixo.

Ergueu o queixo, mas eu vi como as mãos dela tremiam. Pensou na noite anterior, no quanto ele a tinha marcado, no quanto ela tinha sentido cada toque.

Ele deu um passo à frente. Depois outro. O espaço entre eles desapareceu quase de vez. Ele parou tão perto que ela teve que inclinar a cabeça para trás para continuar olhando nos olhos dele. Eu vi ela estremecer quando sentiu o calor da pele dele, quando percebeu que ele ocupava todo o ar ao redor dela.

— Tua vida agora tem um detalhe novo — disse ele, a voz baixa, carregada de posse.

Estendeu a mão e tocou devagar, com o polegar áspero, a marca que ele mesmo havia deixado no pescoço dela. Eu vi ela fechar os olhos por um milésimo de segundo, se entregando ao toque... e logo abrindo de novo, forçando uma expressão de desafio.

— Tu deixou um rastro em mim — continuou ele. — Tu acha mesmo que eu consegui pensar em outra coisa hoje que não fosse o jeito que tu se encaixou aqui?

O toque foi breve. Mas bagunçou ela toda. Eu vi no modo como ela mordeu o lábio, tentando segurar qualquer reação.

Eu observava tudo do sofá, de pernas cruzadas, com um sorriso divertido nos lábios. Era inevitável. Os dois estavam perdidos um para o outro — mesmo que ela ainda fingisse muito bem.

— Calma, chefe. Não assusta a menina — falei, sorrindo de lado. — Ela já tá aqui, não tá? Agora... por que você não mostra pra ela que, apesar dessa marra toda, você sabe ser um bom anfitrião?

Pesadelo não desviou os olhos dela nem por um segundo. E isso foi o que mais a fez tremer.

— Some daqui, Escorpião.

O sorriso dele se alargou ainda mais. Levantei devagar, passando perto deles, roçando de leve o ombro no dela — um aviso silencioso.

— Viu só? — falei para ela, baixinho. — Ele fica insuportável quando tá preocupado.

Fui até a porta, mas parei antes de sair.

— Eu vou estar ali do lado — completei, piscando para ela. — Qualquer coisa... grita. Ou chama meu nome. Os dois funcionam.

Saí deixando a porta meio aberta. Eu sabia que ia dar certo. Ela tinha medo, s

im. Mas o desejo que ela tentava esconder ia falar mais alto. Sempre fala.

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