Capítulo 10 Capítulo 10
Ruby
O salão inteiro parecia ter parado de respirar. Seis canos apontados para o peito de Ethan. Um cano apontado para a cabeça de Andrew. E eu no meio, com o coração batendo tão alto que parecia que todos podiam ouvir.
Andrew não se mexeu um centímetro. A mão dele ainda na minha cintura, firme, como se aquilo fosse só mais uma reunião de negócios.
— Parece que tem mais armas apontadas pra você do que pra mim — ele disse, voz calma, quase divertida. — Vai mesmo continuar com isso?
Ethan não piscou. O dedo ainda no gatilho.
— Como eu disse, só preciso de um tiro — respondeu, gelado. — E morremos nós dois. Nenhum de nós fica com ela. Morro feliz.
O ar sumiu dos meus pulmões. Eu vi o dedo dele apertar de leve. Vi o ódio puro nos olhos dele. Vi o futuro inteiro manchado de sangue.
Não tinha saída. Alguém ia morrer ali. E eu não ia permitir que fosse nenhum dos dois. Fechei os olhos. Respirei fundo. Deixei o corpo amolecer.
Caí.
Fiquei esperando o som do meu corpo batendo no chão de mármore como um tiro. Pessoas gritando, alguém dizendo que precisavam chamar a ambulância. Passos correndo.
Senti braços fortes me segurarem antes de tocar o chão. Andrew. Ele me ergueu no colo como se eu não pesasse nada, o rosto pálido mostrava a preocupação.
— Ruby!
Ouvi Ethan gritar meu nome, a voz quebrada, desesperada. Abri os olhos só uma fresta. Ele tinha baixado a arma, tentando avançar, os olhos arregalados de pânico.
— Ruby! Me deixa ver ela!
Quatro seguranças o agarraram pelos braços. Ele lutou, mas não conseguiu passar. Andrew me segurou mais forte, o olhar cravado em Ethan.
— Vai embora, Storm. Hoje você não ganha nada.
Ethan parou de lutar. Olhou pra mim, ainda “desmaiada” nos braços do outro que ele parece odiar mortalmente.
— Por ela, Sinclair — disse, voz rouca. — Estou saindo por ela.
Ele deu meia-volta. Caminhou até a porta, flashes explodindo ao redor, gente gritando, filmando.
Antes de atravessar, parou. Virou o rosto.
— Eu não vou desistir dela. Nunca — gritou, a voz cortando o salão inteiro. — Então se prepare, porque eu sou o diabo e farei da sua vida um inferno até você entender que ela pertence a mim!
Andrew respondeu sem hesitar, me segurando contra o peito.
— E eu não vou desistir da mulher que será minha esposa. Além disso, sou cético. Não acredito em inferno, nem em diabo. Acredito que pagamos tudo aqui, na Terra.
Tudo ficou quieto por alguns segundos. Depois o som da porta batendo. Eu abri os olhos devagar. O salão ainda estava em choque. Pessoas falando alto, seguranças correndo, jornalistas gritando perguntas.
Andrew me carregou até uma sala lateral, longe dos olhares. Fechou a porta com o pé, me colocou no sofá com cuidado.
— Você tá bem? — perguntou, ajoelhando na minha frente, voz baixa, preocupada.
Eu assenti, as mãos tremendo.
— Eu… eu precisava parar aquilo.
Ele segurou meu rosto, limpou uma lágrima que eu nem tinha percebido.
— Você foi esperta. E foi genial.
Eu ri nervosa, o corpo ainda tremendo.
— Ele ia atirar, Andrew. Ia mesmo.
— Eu sei — ele respondeu, sério. — E eu ia deixar ele atirar se isso significasse te proteger.
Eu olhei pra ele. Olhei de verdade. E vi que ele falava sério. A porta se abriu. Dois seguranças entraram.
— Senhor, o Storm já saiu. A polícia está lá fora. A imprensa está enlouquecida.
Andrew se levantou.
— Lidem com tudo. Eu levo ela pra casa.
Eu me levantei, pernas ainda moles.
— Eu ouvi tudo — falei, voz baixa. — As ameaças. As promessas.
Ele me olhou.
— E eu também ouvi. Os dois.
Eu respirei fundo.
— Minha vida nunca mais vai ser calma, né?
Ele segurou minha mão.
— Não. Mas vai ser sua. E eu estarei do seu lado em cada segundo disso.
Eu assenti. E então desde que tudo começou, eu acreditei. Porque ali, entre o caos, os tiros que não foram disparados e as promessas de amor quebrado, eu entendi uma coisa. Eu não era mais a mulher que esperava. Eu era a mulher que decidia.
E que Deus ajudasse quem tentasse me tirar isso.
O carro blindado cortou Londres sem alarde. Andrew dirigia ele mesmo, sem motorista, o rosto fechado.
— Você fica na mansão até o casamento na igreja — disse, sem tirar os olhos da estrada. — Não vou arriscar ele te sequestrar no meio da noite.
Eu só assenti. Nem força pra discutir eu tinha. Chegamos. Ele me levou direto pro quarto principal, o dele, trancou a porta por dentro e me entregou uma camiseta dele pra trocar de roupa.
— Toma banho, descansa. Eu tenho umas ligações pra fazer. Ninguém entra aqui sem minha ordem.
Beijou minha testa e saiu. Fiquei sozinha.
O quarto cheirava a ele. A cama enorme, as janelas à prova de bala, o silêncio pesado. Sentei no chão, encostada na parede, e deixei tudo desabar.
A imagem de Ethan entrando no salão não saía da cabeça. O olhar cravado em mim. A voz dizendo as coisas que eu implorei pra ouvir durante dois anos inteiros.
— “Você é a única mulher capaz de me fazer feliz.”
Eu queria correr pros braços dele ali mesmo. Queria acreditar. Queria esquecer tudo e deixar ele me levar embora dali. Chorei até doer a garganta. O celular vibrou na bolsa. Número dele. Ignorei as outras dez vezes. Dessa vez atendi.
— Por quê, Ethan? — minha voz saiu rouca. — Por que agora? Por que quando eu finalmente consegui respirar você resolve aparecer dizendo tudo que eu queria ouvir quando era sua esposa?
Ele ficou calado do outro lado. Depois a voz dele, baixa, destruída.
— “Porque eu só descobri que te amo quando te vi com outro. Quando vi ele te beijando naquela maldita festa na minha frente. Quando percebi que podia perder você de verdade.”
Eu ri, amarga.
— Você acabou comigo. Acabou com meu coração. Não sobrou nada, Ethan. Só um lugar árido e inóspito onde antes tinha amor.
— “Eu vou te ter de volta, Ruby” — ele disse, firme. — “Nem que eu tenha que dizimar essa cidade inteira.”
Desliguei. Joguei o celular longe. Me joguei na cama e chorei até o travesseiro ficar encharcado. Dói. Dói demais. Mas eu já tomei minhas decisões.
Vou me casar com Andrew na igreja. Vou consumar esse casamento na lua de mel. Vou seguir em frente. Porqu
e foi você, Ethan, que me empurrou pra esse caminho.
Você que me ensinou que quem eu amo não me ama de volta. Agora aguenta.
