Capítulo 100 Capítulo 100

Ruby

A empresa começa, finalmente, a me respeitar.

Não é algo que acontece de um dia para o outro, mas eu sinto. Nos olhares que já não desviam. Nos cochichos que cessam quando entro na sala. Nos e-mails que agora começam com “Prezada senhora Sinclair” e não mais com dúvidas disfarçadas de formalidade.

Os investidores voltaram. As ações se estabilizam. As manchetes mudam de tom.

— “A viúva que assumiu o império.”

— “Força feminina à frente da Sinclair Corporation.”

Eles não sabem metade da verdade. Não sabem que, por trás de cada reunião bem-sucedida, existe um homem que nunca aparece nas fotos. Um homem que caminha sempre meio passo atrás de mim, mas enxerga tudo antes que eu veja.

Ethan.

Durante a reunião com a equipe jurídica, eu o observo de canto de olho. Ele está sentado ao meu lado, postura relaxada, mas atenção absoluta. Não fala muito. Não precisa. Quando um advogado tenta contornar uma cláusula, Ethan apenas ergue o olhar.

O silêncio que se forma diz tudo.

— Alguma objeção, senhor Storm? — pergunta um dos sócios, cauteloso.

— Nenhuma. — Ethan responde. — Desde que o contrato seja cumprido exatamente como está sendo apresentado.

— Claro. — o homem engole seco.

Eu seguro a caneta com mais força. Não gosto de depender de ninguém. Nunca gostei. Andrew sabia disso. Mas ele também sabia que eu precisava de alguém que enxergasse o perigo antes de mim.

Ethan faz isso como ninguém. Quando a reunião termina, recolho meus papéis devagar. Stella se aproxima.

— Foi impecável, senhora Sinclair. — ela diz, sincera.

— Obrigada. — respondo.

Ethan se levanta ao mesmo tempo que eu. Não diz nada, apenas me acompanha até o elevador. O corredor está vazio.

— Você intimida as pessoas. — digo, tentando soar casual.

— Não. — ele responde. — Elas se intimidam sozinhas quando sabem que estão erradas.

As portas do elevador se fecham. O silêncio fica denso demais.

— Você não precisava ter vindo hoje. — digo.

— Precisava sim. — ele rebate. — Hoje era importante.

— Por mim ou pela empresa?

Ele me encara.

— Por você.

O coração bate mais rápido. Odeio isso. No estacionamento, o motorista abre a porta do carro, mas Ethan faz um gesto discreto para que ele espere.

— Está com medo de mim ainda? — Ethan pergunta, apoiando a mão na porta aberta.

Respiro fundo.

— De você, não. — respondo com honestidade. — Do que eu sinto quando você chega perto, sim.

Ele não sorri. Não provoca. Apenas se aproxima um pouco mais.

— Ruby… — diz baixo. — Eu não sou o homem que você deixou.

— Eu sei. — respondo, olhando para o chão. — Você mudou.

— Mudei porque perdi tudo.

Ergo o olhar.

— Não diga isso.

— É a verdade. — ele insiste. — Perdi você. Perdi a chance de ser alguém melhor antes. Perdi o controle. E quando achei que não tinha mais nada a perder…

O nome dele ainda dói.

— Ele confiou em você. — digo.

— Mais do que eu confiava em mim mesmo. — Ethan responde. — E isso me assombra todos os dias.

O silêncio se instala de novo.

— Você é o único que ficou. — digo, quase sem perceber.

Ele fecha os olhos por um segundo.

— Não porque eu sou melhor. — diz. — Mas porque eu sou incapaz de ir embora.

Ele estende a mão. Hesito. Mas aceito. O toque é firme, quente, diferente de tudo que lembro nos últimos meses.

— Eu prometo que nunca mais ninguém vai te tocar sem a sua permissão. — ele diz, aproximando o rosto da minha mão. — Nem o mundo.

E então ele a beija. Não é um beijo urgente. Nem violento. É lento, respeitoso, quase reverente. Meu corpo reage antes da cabeça. Eu me afasto.

— Ethan… — minha voz falha. — Isso é perigoso.

— Eu sei. — ele responde. — Mas não é errado.

— É sim. — digo. — Eu ainda sou a esposa dele.

— Você sempre será. — ele concorda. — E isso nunca vai mudar.

— Então por que faz isso?

Ele me encara com uma honestidade que assusta.

— Porque amar você nunca foi sobre posse. Foi sobre ficar. Mesmo quando não devia.

Sinto lágrimas se acumularem, mas não caem.

— Eu não posso prometer nada. — digo.

— Eu não pedi promessas. — ele responde. — Só tempo.

O motorista pigarreia, constrangido. Entro no carro.

Durante o trajeto para casa, observo a cidade pela janela. Minha vida está se reconstruindo. Mas cada passo à frente parece me levar mais perto de um abismo emocional que eu não sei atravessar.

Quando chego à mansão, Dustyn está no tapete da sala, rindo com a babá. O som da risada dele me ancora. Eu ajoelho, o pego no colo.

— Mamãe voltou, meu amor.

Ele segura meu cabelo com força.

— Você sabe… — digo baixinho, encostando a testa na dele. — O papai te ensinou a ser forte.

Mais tarde, sozinha no quarto, tiro o colar do pescoço e o coloco sobre a mesa. O anel de casamento ainda está no meu dedo. Olho meu reflexo no espelho.

Não sou mais a mulher quebrada do velório.

Não sou a viúva perdida no hospital.

Não sou apenas a mãe tentando sobreviver.

Sou a Ceo.

Sou a mulher que aprendeu a liderar. Sou alguém que voltou a sentir o coração bater diferente. E isso me assusta. Porque, pela primeira vez desde Andrew, algo dentro de mim se move.

Não é traição. Não é esquecimento. É vida. E cruzar essa linha entre o certo e o errado pode ser o maior risco que já corri. Ou a única chance de continuar viva.

Antes de dormir, meu celular vibra na mesa de cabeceira. O nome dele aparece na tela. Hesito por um segundo, mas atendo.

— “Ruby…” — a voz vem arrastada, quente. — “Eu só queria ouvir você.”

Percebo de imediato. Ele bebeu.

— Ethan, você não devia ligar assim tão tarde. — digo baixo.

— “Eu sei…” — ele ri, triste. — “Mas quando bebo, a coragem aparece. E eu precisava dizer que você foi a melhor coisa que me aconteceu. Mesmo quando me odeia.”

Fico em silêncio. Deixo ele falar. Ele conta como me vê forte, linda, inteira. Diz que nunca deixou de me amar. Que Andrew foi maior do que ele jamais seria, e que isso dói e ensina ao mesmo tempo.

— “Eu prometi cuidar de vocês…” — sussurra. — “Mesmo que você nunca me escolha.”

A respiração dele fica pesada. A ligação cai.

Fico olhando a tela apagada, o peito apertado. Um peso estranho me invade, como se eu estivesse atravessando algo proibido. Toco o anel no dedo e sussurro para o vazio:

— Me perdoa, Andrew… eu não sei mais onde termina a saudade e começa o erro.

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