Capítulo 101 Capítulo 101

Ruby

Eu acordei com a sensação de que algo estava errado. Não era medo claro, nem um pensamento específico. Era como se o ar estivesse mais pesado. Como se alguém estivesse me observando mesmo quando eu estava sozinha.

Abri os olhos devagar e fiquei alguns segundos olhando o teto, tentando convencer meu próprio corpo de que era só cansaço. Mas não era.

Dustyn dormia no berço ao lado da cama, o peito subindo e descendo com tranquilidade. Aquele som ainda era a única coisa capaz de me ancorar no presente. Levantei, fui até ele e encostei os dedos em seu cabelo ruivo claro.

— Mamãe está aqui… — sussurrei.

Mesmo assim, o aperto no peito não cedeu.

Nos últimos dias, pequenas coisas começaram a se acumular. Ligações mudas no celular. E-mails estranhos, enviados de contas inexistentes. Um carro preto estacionado do outro lado da rua por tempo demais. Sempre indo embora antes que qualquer segurança pudesse agir.

E eu sabia. No fundo, eu sabia. Astrid não tinha desaparecido. Ela só tinha se recolhido.

No escritório, tentei manter a postura. Stella percebeu antes de qualquer um que algo estava errado. Ela não perguntou nada, apenas ficou mais próxima do que o habitual, atenta a cada movimento ao meu redor.

— A agenda está limpa depois dessa reunião — ela disse baixo. — Se quiser ir embora mais cedo…

— Não. — interrompi. — Não vou correr.

Ela assentiu, respeitando, mas o olhar dela dizia tudo.

A reunião estava quase no fim quando a secretária entrou, pálida, segurando um envelope pardo.

— Senhora Sinclair… isso chegou agora. O mensageiro disse que era pessoal.

Meu estômago revirou antes mesmo de eu tocar no papel.

Peguei o envelope devagar. Não tinha remetente. Não tinha selo. Apenas meu nome escrito à mão, com letras firmes demais.

Abri ali mesmo. A foto caiu sobre a mesa. Era eu. Era Ethan. Era Dustyn.

Nós três, atravessando a calçada em frente à empresa dois dias antes. Eu sorrindo para o meu filho. Ethan ao meu lado, atento, protetor. Um momento íntimo, cotidiano.

Fotografado de longe. Minhas mãos começaram a tremer quando virei a foto. Atrás, escrito com a mesma letra:

— “Tudo que é seu vai ser meu.”

O ar sumiu dos meus pulmões. Levantei tão rápido que a cadeira caiu para trás. Ignorei os olhares ao redor e saí da sala quase correndo. Tranquei-me no meu escritório e disquei o número de Ethan com os dedos trêmulos.

Ele atendeu no primeiro toque.

— Astrid voltou. — falei sem rodeios. — Eu tenho certeza que é ela.

O silêncio do outro lado durou menos de um segundo.

— “Onde você está?”

— No escritório.

— “Tranca a porta. Não fala com ninguém. Não sai daí. Estou indo agora.”

A ligação caiu antes que eu pudesse responder.

Tranquei a porta. Apaguei as luzes. Fiquei atrás da mesa, abraçando meus próprios braços como se isso pudesse me proteger. Cada som do corredor parecia alto demais. Cada sombra, uma ameaça.

Trinta minutos depois, ouvi passos pesados. Vozes alteradas. Um grito distante de segurança. A porta se abriu com força. Ethan entrou como uma tempestade. Terno escuro, arma visível, olhos em chamas.

— Você está bem? — ele perguntou, me segurando pelos ombros.

Assenti, sem conseguir falar. Ele viu a foto sobre a mesa. O maxilar travou. Os dedos fecharam com tanta força que os nós ficaram brancos.

— Eu devia ter acabado com ela antes. — ele rosnou.

— Ethan… — tentei. — Não resolve nada com sangue. A polícia já está em cima por causa da outra morte.

Ele passou a mão pelo rosto, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado.

— Sangue é a única língua que ela entende.

Me aproximei por instinto e o abracei. Não pensei. Apenas fiz. O corpo dele estava rígido, quente, vibrando de raiva contida. Aos poucos, senti o peso dele ceder contra mim. Ele fechou os olhos, respirando fundo.

— Ela não vai encostar em vocês. — ele disse baixo. — Eu juro. Antes disso, eu arranco a cabeça dela e dou pros meus cães.

Um arrepio percorreu minha espinha.

— Não fala assim. — sussurrei. — O Dustyn…

— Justamente por ele. — respondeu. — Por você. Por ele. Por tudo que tentam tirar de mim.

A palavra “mim” ficou suspensa entre nós. Ele se afastou, mais controlado, mas ainda perigoso.

— Você não vai sair sozinha. Não vai mais dirigir sem escolta. E ninguém chega perto de você sem eu saber.

— Ethan, eu não quero viver com medo.

— Então confia em mim. — ele respondeu, firme. — Só nisso.

Assenti, mesmo sabendo que aquela confiança era uma linha fina demais entre segurança e perdição.

Quando ele me acompanhou até o carro, vi Stella observando de longe. Preocupada. Atenta. Inteligente o suficiente para entender que algo grave estava acontecendo.

No caminho para casa, fiquei em silêncio. O reflexo do vidro mostrava meu rosto cansado, mais duro do que meses atrás. A viúva que virou Ceo. A mulher que sobrevivia cercada de homens perigosos.

Ao chegar na mansão, encontrei Dustyn acordado, inquieto. Peguei ele no colo e senti o corpo pequeno relaxar contra o meu.

— Está tudo bem, meu amor… — sussurrei. — Mamãe está aqui, eu cheguei.

Ethan observava da porta, calado.

— Ela vai tentar chegar até você de novo. — ele disse. — Não porque quer a empresa. Mas porque quer te quebrar.

— Ela não vai conseguir. — respondi. — Já perdi demais pra cair agora.

Ele assentiu, sério.

— Eu fico. Aqui. Essa noite.

Não discuti.

Mais tarde, sozinha no quarto, com Dustyn finalmente dormindo, sentei na cama e fechei os olhos. A imagem de Andrew veio forte. O sorriso calmo. A voz dizendo que eu precisava viver.

— Eu estou tentando… — sussurrei para o vazio.

Mas a sombra tinha voltado. E dessa vez, não era só sobre poder. Era pessoal.

E eu sabia que, a partir daquele momento, a linha entre o certo e o errado ficaria cada vez mais difícil de enxergar.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo