Capítulo 102 Capítulo 102
Ethan
A noite não me traz descanso. Ela nunca trouxe, mas agora é diferente. Não é só vigília. É instinto. É a sensação constante de que algo está prestes a explodir e, se eu piscar, perco tudo de novo.
Estou no escritório da mansão Storm, luzes baixas, mapas abertos sobre a mesa. Nomes, fotos, rotas, números. Astrid não está mais se escondendo por impulso. Ela está organizada. E isso me preocupa mais do que qualquer ameaça direta.
— Começa do zero. — ordeno. — Quero tudo. Cada passo dela nos últimos seis meses.
Bart, meu braço direito, cruza os braços. Ele me conhece o suficiente para saber que, quando eu falo assim, não existe espaço para erro.
— Já estamos nisso, Don. Mas tem algo maior.
— Sempre tem. — respondo, seco.
Ele projeta imagens na tela. Astrid. Em Madri. Em Barcelona. Em reuniões fechadas. Sempre acompanhada.
— Cartel antigo. — Bart diz. — Os Torres. Eles perderam território anos atrás por causa de alianças quebradas. Estão buscando poder de novo.
Aperto o maxilar.
— E o que diabos eles querem com ela?
Bart troca o slide. Documento bancário. Transferências mascaradas.
— Destruir a Sinclair Corporation. Enfraquecer o nome. Afundar ações. E…
Ele pausa.
— … ela quer recuperar você.
Dou uma risada curta. Sem humor.
— Ela acha que ainda me tem.
— Não é só isso. — ele continua. — Ela vendeu a ideia de que você foi roubado dela. Que a Ruby tomou o lugar dela. Que o filho é um símbolo de tudo o que ela perdeu.
O sangue esquenta. Passo as mãos pelo rosto e fico de pé. Ando pelo escritório como um animal preso.
— Ela não perdeu nada. — rosno. — Ela precisa entender que acabou.
Bart coloca outra imagem na tela. Astrid do outro lado da rua da mansão Sinclair. Óculos escuros. Cabelo preso. Teleobjetiva nas mãos. Minha visão escurece.
— Se ela cruzar aquele portão… — digo, com a voz baixa demais para ser calma. — Morre.
Bart hesita. Só um segundo. Mas eu vejo.
— E se Ruby souber?
Viro devagar.
— Ela vai odiar. — respondo. — Mas estará viva pra me odiar. E o filho também.
O silêncio pesa.
— Não estou pedindo autorização. — completo. — Estou avisando.
Dou ordens rápidas. Vigilância dobrada. Rotas alternativas. Rastreamento constante. Nada passa sem que eu saiba. A guerra começa assim. Sem tiro. Sem sangue. Com informação.
Horas depois, estou na mansão Sinclair. Não aviso. Não bato. Entro como sempre entrei desde que prometi a Andrew que não deixaria nada tocar o que era nosso.
Subo as escadas em silêncio. A porta do quarto de Dustyn está entreaberta. Ruby está sentada na poltrona, o bebê nos braços. Luz baixa. Silêncio quebrado apenas pela respiração tranquila do pequeno.
— Ele está dormindo. — ela diz, sem se virar.
Encosto na parede.
— Você também devia estar.
Ela sorri de canto.
— Desde quando você se preocupa com isso?
Respiro fundo antes de falar o que vim falar.
— Você devia estar longe daqui, ruiva. — digo. — Longe comigo. Com o bebê. Um tempo. Lugar seguro.
Ela se vira devagar. O olhar firme. Cansado. Forte.
— Fugir nunca foi minha escolha.
— Isso não é fuga. — rebato. — É estratégia.
— Não para mim. — ela responde. — Para mim, é ceder.
Aproximo-me mais.
— Então me deixa lutar. — digo baixo. — Me deixa lutar do meu jeito.
Ela me observa por longos segundos. Longos demais. Como se estivesse pesando cada parte de mim. O homem. O perigo. A promessa.
— Só promete que volta. — ela diz, quase um sussurro. — Inteiro. E bem.
Sorrio de lado.
— Eu não prometo. — respondo. — Eu cumpro.
Ela abaixa os olhos. Beija a testa de Dustyn.
— Andrew confiou em você.
— Eu sei.
— Então não transforma isso em algo que ele se arrependeria.
Meu peito aperta.
— Tudo que eu faço agora… — digo. — É porque ele confiou. E porque eu amo vocês.
Ela não responde. Mas não se afasta.
Fico ali mais um pouco. Observando o bebê. Observando ela. Guardando cada detalhe como se pudesse precisar disso depois.
Quando saio, volto para a escuridão. No carro, acendo um cigarro. O celular vibra. Nova localização de Astrid. Sorrio sem alegria.
— Você escolheu errado o inferno para entrar. — sussurro.
Dou partida. A guerra não vai chegar anunciando. Ela já começou. E eu vou terminar.
Reúno todos na sala de guerra da mansão Storm. Não é um encontro comum. Não tem bebida servida, não tem conversa paralela. O clima é de aviso, não de negociação.
Bart está ao meu lado. Do outro, três homens que só aparecem quando o inferno começa a se mover: Marco, Lorenzo e Héctor. Donos de territórios, líderes respeitados, homens que sabem o peso de uma decisão errada.
Jogo as fotos sobre a mesa.
— Astrid. — digo. — E o cartel da Espanha.
O silêncio é imediato. Marco franze a testa.
— Isso não é bom.
— Não é. — confirmo. — Ela está usando o nome da Sinclair, o meu, e alianças antigas pra causar caos. E vai atingir quem estiver no caminho.
Lorenzo cruza os braços.
— Você sabe que dois de nós não podem tocar nela.
Eu sei. Sempre soube.
— O acordo com o pai dela. — Héctor completa. — Nenhum de nós pode ferir Astrid. Nunca.
Aproximo as mãos da mesa.
— Esse acordo vale enquanto ela não ataca.
Marco suspira.
— Ethan, você sabe como isso funciona. Palavra de Don não se quebra.
— Não se quebra. — concordo. — Se invalida.
Todos me encaram.
— Astrid se aliou a um cartel externo. Está espionando propriedades. Fotografando famílias. — bato o dedo na mesa. — Isso não é vingança pessoal. É ameaça ativa.
Bart projeta novas imagens.
— Mansão Sinclair. — ele diz. — Criança envolvida.
O rosto de Lorenzo muda.
— Criança?
— Um bebê. — respondo. — Filho do Andrew Sinclair.
Héctor passa a mão pelo rosto.
— Isso muda as coisas.
— Muda tudo. — digo. — O contrato era claro, Astrid seria intocável enquanto permanecesse fora do jogo. Ela voltou. E voltou armada.
Marco se inclina.
— Se ela tocar em qualquer aliado…?
— O acordo cai. — completo. — Automaticamente.
O silêncio se arrasta por segundos longos.
— Você está pedindo permissão pra uma guerra que pode espalhar sangue. — Lorenzo diz.
— Não. — respondo. — Estou avisando que ela já começou.
Héctor me encara com seriedade.
— Se Astrid cruzar a linha… se atacar alguém que amamos… o pacto morre.
— Exatamente. — digo.
Marco assente devagar.
— Então fazemos assim, vigilância conjunta. Se ela der o primeiro passo contra qualquer um de nós… ninguém mais segura.
— É tudo que eu preciso. — respondo.
Bart relaxa um pouco. A decisão foi tomada. Quando todos se levantam, Lorenzo para ao meu lado.
— Você está diferente, Ethan.
— Estou com algo a perder.
Ele dá um meio sorriso.
— Isso te torna mais perigoso do que nunca.
Quando a sala esvazia, fico sozinho. Apoio as mãos na mesa e fecho os olhos por um instante.
Vejo Ruby. Vejo Dustyn dormindo. O som da respiração dele. O jeito como ela segura o filho quando acha que ninguém está olhando.
Tudo em mim se alinha a isso.
— Ninguém vai tocar em vocês. — falo.
Se Astrid quer guerra, vai ter. Mas não vai ser contra mim. Vai ser contra tudo que eu sou capaz de destruir para manter Ruby e Dustyn vivos. E isso… ninguém vence.
