Capítulo 103 Capítulo 103

Ruby

A manhã começa comum demais para um dia que quase acaba com tudo. Dustyn está inquieto no banco de trás, embalado pela babá, enquanto eu observo o portão da mansão se fechar pelo retrovisor.

O sol ainda está baixo, e por um segundo eu penso em Andrew, em como ele sempre dizia que manhãs assim enganavam a gente. Bonitas demais para serem seguras.

— “Está tudo bem, senhora Ruby” — diz um dos seguranças pelo rádio. — “Só vamos dar uma volta no quarteirão antes de seguir.”

Assinto, mesmo sabendo que eles não me veem. Na frente, apenas um carro. Quatro homens. Os homens de Ethan. Pouco. Pouco demais.

Sinto um aperto estranho no peito, como se algo estivesse errado antes mesmo de acontecer. O carro desacelera de repente.

— O que foi? — pergunto.

Não dá tempo de resposta. Dois veículos surgem rápido demais, fechando a rua como se já soubessem exatamente onde parar. O som dos pneus cantando no asfalto ecoa alto, agressivo. O carro da frente tenta recuar, mas já é tarde.

Portas se abrem. Homens mascarados. Armas levantadas.

— Não! — grito, instintivamente puxando Dustyn contra o meu peito.

O primeiro tiro explode o vidro dianteiro. O mundo vira barulho, fumaça e gritos.

— Senhora, abaixa! — um dos seguranças berra.

Os quatro homens de Ethan reagem rápido. Muito rápido. Saem atirando, formando uma barreira humana entre nós e os atacantes. O som dos disparos é ensurdecedor. Vidros estilhaçam. O cheiro de pólvora invade tudo.

Vejo um deles cair.

Depois outro.

— Não! — grito, mas minha voz se perde.

Os homens mascarados avançam como animais. Um deles abre a porta do carro onde estou. Sinto mãos puxando, braços me arrancando à força.

— Me solta! — grito, arranhando, chutando.

O mundo gira quando me jogam no chão. O impacto rouba meu ar. Dustyn chora desesperado nos braços da babá, que grita sem parar.

— O bebê! Peguem o bebê! — alguém grita em espanhol.

— Não. Não.

Me arrasto no chão, ignoro a dor, agarro a perna de um deles e afundo as unhas com tudo que tenho. Ele xinga, me chuta com força. Sinto algo estalar dentro de mim, mas continuo.

— Não encosta no meu filho! — grito, com a garganta rasgando.

Então os tiros mudam. Não vêm mais deles. Vêm de trás. Precisos. Rápidos. Mortais. Os homens começam a cair um a um, como bonecos sem corda.

— Abaixa! — uma voz conhecida explode no meio do caos.

Meu coração reconhece antes da mente.

Ethan.

Ele surge entre a fumaça, o terno escuro manchado de sangue, a arma firme na mão. O rosto fechado, os olhos queimando de ódio. Ao redor dele, os homens da máfia Storm avançam como uma sombra organizada, letal.

Ethan atira sem hesitar.

Um.

Dois.

Três.

Os mascarados não têm chance.

Vejo Ethan levar a mão ao ombro. Sangue escorre entre os dedos, mas ele não para. Só para quando o último homem cai no asfalto, imóvel.

O silêncio vem pesado, quebrado apenas pelo choro de Dustyn.

— Eu disse… — ele fala, respirando fundo, a voz firme apesar da dor. — Que ninguém ia encostar em vocês.

Minhas pernas falham quando me levanto e corro até ele.

— Você está sangrando! — grito, segurando o rosto dele, as mãos tremendo.

— É só um ombro. — ele responde, com um meio sorriso cansado. — Olha pra mim. Vocês estão bem?

Assinto, chorando.

— Eu achei que te perderia… — sussurro.

Ele encosta a testa na minha.

— Já me perdeu uma vez. Não vai acontecer de novo.

Atrás de nós, a babá segura Dustyn com força, o bebê chorando alto, assustado. Ethan se vira devagar, ignorando o próprio sangue, e estende os braços.

— Vem cá, pequeno.

Dustyn continua chorando, mas quando Ethan se aproxima, algo muda. O choro diminui, vira soluço. Ethan toca de leve o rostinho dele.

— Está tudo bem, filho.

A palavra me atravessa como um golpe.

Filho.

É a segunda vez que ele chama Dustyn de filho.

— Você o chamou de filho… — digo, a voz quebrada.

Ethan me encara, sério, inteiro naquele momento.

— Porque é o que ele é.

Não há dúvida na voz dele. Nem medo. Nem arrependimento. Só verdade.

A polícia começa a chegar ao longe. Sirenes. Gente correndo. Mas nada disso importa. Eu seguro a mão de Ethan com força, como se soltá-la fosse permitir que o mundo nos roubasse de novo.

— Você chegou a tempo… — sussurro.

Ele aperta minha mão de volta.

— Sempre vou chegar.

E então eu entendo, o perigo não acabou, mas eu não estou mais sozinha para enfrentá-lo.

Voltar para a mansão é estranho. Tudo parece igual, mas nada é.

Minhas mãos ainda tremem quando tiro Dustyn do colo da babá. Ele está cansado, os olhos pesados, o choro já virou apenas um resmungo fraco. Levo ele para o quarto, fecho a porta devagar e o embalo com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar o pouco de paz que sobrou.

— Tá tudo bem, meu amor… — sussurro. — A mamãe sempre estará aqui.

Quando ele finalmente dorme, fico alguns segundos parada, observando o peito dele subir e descer. Só então percebo o quanto estou exausta.

No meu quarto, deixo a água do chuveiro cair quente demais, como se pudesse lavar o medo da pele. Fico ali parada, os olhos fechados, respirando fundo até o corpo parar de tremer. Visto um conjunto de moletom carmim, largo, confortável, e me sento na cama sem saber exatamente o que fazer com o silêncio.

A batida na porta me faz erguer a cabeça.

— Ruby… sou eu.

— Pode entrar.

Ethan aparece com duas xícaras de chocolate quente nas mãos. O cheiro doce se espalha pelo quarto. Ele me entrega uma e se senta à minha frente.

— Você está bem mesmo? — pergunta, a voz baixa.

Dou uma risada sem humor.

— Não. — admito. — Eu só… eu só queria viver. Criar meu filho. Trabalhar. Dormir sem medo. Não quero passar a vida achando que alguém vai aparecer pra matar a gente.

Ele aperta a xícara com força.

— Enquanto eu estiver vivo, ninguém encosta em você. Nem nele. — diz, firme. — Quem tentar, morre. Eu juro. Pelo meu sangue. Pelo meu nome. Pelo meu filho.

Filho… mais uma vez chamou o Dustyn de filho.

É só então que percebo o quanto ele está perto. Próximo demais. O calor do corpo dele, o olhar preso no meu, o silêncio pesado entre nós. Ele se inclina devagar, como se me desse tempo para recuar. Sinto o toque leve do lábio dele no meu, rápido, quase irreal.

O celular toca.

O som quebra tudo.

Eu me afasto de imediato, o coração disparado, a consciência voltando com força cruel.

— Ethan… não. — digo, levantando. — Já chega.

Ele me encara por um segundo longo demais.

— Eu vou ficar bem. — completo, tentando acreditar nisso. — Você já pode ir embora.

Ethan se afasta, deixa a xícara na mesa e sai sem dizer mais nada.

Eu fico ali, sozinha, olhando para a porta fechada, sabendo que alguma coisa mudou… e que não sei mais exatamente onde fica a linha entre o certo e o errado.

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