Capítulo 104 Capítulo 104
Ethan
O silêncio da madrugada pesa mais do que qualquer tiro que já ouvi. Estou sentado no sofá da sala, as luzes apagadas, o corpo cansado demais para dormir e a mente barulhenta demais para descansar.
Fecho os olhos e tudo o que vejo é Ruby. O rosto dela tão perto do meu, o calor da respiração, o toque breve dos lábios que não deveria ter acontecido… mas aconteceu. Foi rápido. Quase nada. Mas foi o suficiente.
Ainda sinto o gosto dela na boca. Ainda sinto o corpo reagindo como se tivesse encontrado algo que passou a vida inteira procurando. Não foi desejo cru. Foi reconhecimento. Como se o meu corpo tivesse dito antes da minha cabeça: é ela.
Quando finalmente durmo, o sonho vem inteiro, sem pedir permissão.
Ruby está de branco. Um vestido simples. Nada de luxo. Apenas nós dois, de mãos dadas. Ela sorri daquele jeito que desmonta qualquer homem. Eu coloco um anel no dedo dela e sinto algo que nunca senti nem mesmo no auge do poder: paz.
Na cama, o sonho muda. Ela está comigo, nua, quente, entregue. Não há culpa ali. Não há passado. Apenas o presente e o jeito como ela me olha dizendo, sem palavras, que escolheu ficar. Que sou eu.
Depois estamos no jardim. Dustyn corre, mais velho, rindo, e se joga nos meus braços.
— Papai! — ele chama.
O som me atravessa como um soco e um abraço ao mesmo tempo. No final, Ruby se aproxima, coloca a mão na barriga e sussurra:
— A gente vai ter mais um.
Eu acordo com o coração disparado, o corpo tenso, o sorriso ainda preso no rosto. E é ali, naquela fração de segundo entre sonho e realidade, que eu entendo.
Enquanto Astrid respirar, Ruby nunca estará segura.
Enquanto Astrid existir, Dustyn corre perigo.
Enquanto Astrid estiver solta, o meu inferno não acaba.
Levanto da cama com a decisão já tomada. Não por ódio. Por amor.
Astrid está sentada no chão do armazém quando entro. Amarrada, suja, o cabelo loiro grudado no rosto, os olhos ainda cheios daquela arrogância doentia que sempre a definiu.
Ela ergue a cabeça quando me vê e sorri.
— Veio me salvar ou terminar o serviço?
— Você destruiu tudo o que tocou. — digo, sem emoção.
— Eu te amei, Ethan! — ela grita. — Eu te dei tudo!
Dou uma risada curta, sem humor.
— Você nunca soube o que é amar. Só soube possuir.
Ela cospe no chão.
— A Ruby vai te odiar quando souber o que você fez comigo. A santinha acredita que todo mundo merece viver.
Dou dois passos à frente.
— Eu prefiro o ódio dela do que a sua presença no mundo.
Os olhos dela vacilam por um segundo, mas logo voltam ao deboche.
— Vai me matar mesmo?
Pego a arma. Carrego devagar. O som ecoa no galpão.
Por um segundo, penso em Ruby. No choro dela. No jeito como acredita que ainda existe justiça em pessoas como Astrid. Penso no bebê dormindo no quarto ao lado do dela. Penso no quase beijo.
Abaixo a arma.
— Não. Eu não.
Ela ri, aliviada.
— Sabia. Você nunca teve coragem.
Viro as costas.
— Matemática simples, Astrid. — digo, sem olhar. — Matar você seria fácil. Fazer você desaparecer sem virar mártir… é mais eficaz.
Paro na porta.
— Você tentou sequestrar um bebê. Isso não é amor. É doença.
Saio sem ouvir a resposta. Os homens sabem o que fazer. Não preciso dizer mais nada. Do lado de fora, a noite está fria. Pego o telefone e ligo para o único número que importa.
— Acabou. — digo quando Ruby atende.
— “Ela está morta?” — a voz dela treme.
— Nunca mais vai te tocar. Nem em você, nem no Dustyn.
O silêncio do outro lado é pesado. Então ela chora. Não de medo. De alívio.
— “Ethan… obrigada.”
Fecho os olhos.
— Não me agradece. Eu faria tudo de novo.
Desligo e fico olhando o céu escuro, sabendo que atravessei uma linha que não tem volta. Mas também sabendo de uma coisa com clareza absoluta. Se amar Ruby é o inferno… então eu aceito queimar por ela.
O tribunal do submundo nunca convoca duas vezes. Quando o chamado chega, eu já sei do que se trata.
O galpão fica abaixo de um antigo teatro abandonado. Três líderes sentados à mesa central, homens que já viram impérios caírem e nascerem de novo. À direita, o pai de Astrid. O rosto vermelho de ódio, as mãos cerradas, os olhos pedindo sangue.
Não me sento. Não abaixo a cabeça.
— Ethan Storm — diz um deles. — Você foi convocado para responder pelo desaparecimento de Astrid Laurent.
O pai dela se levanta antes que eu fale.
— Ele quebrou a aliança! — grita. — Ele tocou na minha filha! Ele cruzou a única linha que nunca deveria cruzar!
Inclino levemente a cabeça, sem respeito, apenas atenção.
— Eu não toquei em um fio de cabelo dela. — digo, frio. — Minhas mãos nunca encostaram na Astrid.
O homem bate na mesa.
— Dá no mesmo! Ela desapareceu por sua causa!
Um dos líderes ergue a mão, pedindo silêncio.
— Precisamos de fatos, Storm. Onde está o corpo?
— Não existe corpo. — respondo.
— Então existe motivação. — outro líder insiste. — E precisamos ouvi-la.
Cruzo os braços.
— Astrid tentou sequestrar um bebê.
O galpão silencia.
— O filho de Ruby Sinclair. — continuo. — Mandou homens armados interceptarem o carro dela. Quatro seguranças morreram. Ela tentou arrancar uma criança dos braços da mãe.
O pai dela ri, nervoso.
— Mentira! Minha filha nunca faria isso!
Pego o tablet e deslizo sobre a mesa.
— Vídeos. Áudios. Transferências bancárias. Ligações com o cartel espanhol. — minha voz não sobe um tom. — Ela violou todos os pactos antes de mim.
Os líderes analisam o material em silêncio. Um deles franze a testa.
— Se isso for verdadeiro…
— É. — corto. — E se fosse a filha de qualquer um de vocês, não estaríamos tendo essa conversa.
O pai de Astrid aponta para mim.
— Você sempre foi um animal, Storm! Usou isso como desculpa pra se livrar dela!
Dou um passo à frente, olhar fixo no dele.
— Eu usei isso pra proteger quem é inocente. Coisa que você falhou miseravelmente em fazer.
O líder central respira fundo.
— O tribunal vai analisar as provas. O veredito sairá em até trinta dias.
Viro-me para sair.
— Faça isso. — digo por cima do ombro. — Porque se eu tivesse realmente tocado na Astrid, nenhum de vocês estaria discutindo desaparecimento. Estariam discutindo funeral.
Saio sem esperar resposta. Do lado de fora, o ar parece mais leve. Eu sei. Eles também sabem. Não vou pagar por esse crime. Porque proteger Ruby e Dustyn não foi um crime. Foi uma escolha.
