Capítulo 105 Capítulo 105

Ruby

Tudo está estranhamente quieto. O único som é a respiração tranquila de Dustyn, deitado no berço branco, pequeno demais para carregar o peso de tudo que aconteceu antes de existir.

Eu fico ali parada, com as mãos apoiadas na grade, observando o peito dele subir e descer, como se aquele movimento simples fosse a única coisa que ainda me mantém em pé.

— Você não faz ideia do quanto já mudou a minha vida… — sussurro, mesmo sabendo que ele não entende.

O cheiro do quarto ainda carrega traços de Andrew. Não sei dizer se é imaginação ou memória. Talvez os dois. O mundo inteiro parece assim desde que ele se foi, uma mistura de ausência e insistência em continuar.

Passo os dedos pelo cobertor, ajeito melhor o ursinho ao lado do berço e respiro fundo. É quando sinto uma presença atrás de mim. Não preciso olhar para saber quem é.

— Posso entrar? — a voz de Ethan vem baixa, quase cuidadosa demais para um homem como ele.

Viro devagar.

Ele está parado na porta, o braço engessado preso ao corpo, o terno escuro substituído por uma camisa simples. O rosto carrega marcas de cansaço, mas os olhos continuam atentos, como se nunca desligassem completamente.

— Você já entrou. — respondo, sincera. — No que restou de mim.

Ele solta um sorriso curto, sem humor.

— Achei que você ia me odiar para sempre.

Dou um passo em direção a ele, mas paro antes de diminuir demais a distância.

— Eu tentei. — confesso. — Juro que tentei. Mas você me protegeu como ninguém nunca protegeu. Quando digo isso é pelos momentos que agiu contra minha vontade.

Ethan engole em seco. Vejo o movimento no maxilar, o esforço para manter o controle que sempre define cada gesto dele.

— Eu faço coisas erradas, Ruby. — ele diz. — Coisas que você nunca deveria ter que aceitar.

— Eu sei. — respondo, sem desviar o olhar. — Mas também sei o que você fez por mim. Pelo meu filho. Pela empresa. Pela minha vida.

Ele dá um passo à frente. Depois outro. Cada movimento é lento, como se estivesse me dando tempo para recuar se quisesse.

— Eu mato sem pensar. — ele diz, a voz grave. — Mas por você… eu penso antes de respirar. Porque eu amo você mais do que deveria amar alguém.

As palavras me atingem com força. Não como um choque, mas como algo que sempre esteve ali, esperando coragem para ser dito em voz alta.

Levo a mão até o rosto dele, tocando a barba por fazer, o maxilar duro, a pele quente sob meus dedos.

— Eu tenho medo desse amor. — confesso. — Medo de trair tudo o que eu vivi. Medo de mim mesma.

Ele fecha os olhos por um segundo, encostando a testa na minha mão.

— Eu também tenho medo. — responde. — Mas não quero mais viver sem ele.

O silêncio entre nós não é vazio. É denso. Cheio de tudo que foi contido por tempo demais. Sou eu quem me aproximo desta vez.

Não porque ele puxou.

Não porque o desejo venceu a razão.

Mas porque eu quero.

O beijo acontece devagar. Não tem pressa. Não tem desespero. Tem memória.

Os lábios de Ethan são quentes, firmes, mas respeitosos. Não há invasão. Há pedido. Há cuidado. Quando nossas bocas se encontram, sinto o passado inteiro atravessar o presente, Andrew, a dor, o luto, e, ainda assim, algo novo se formar no meio disso tudo.

Uma chance.

Ele encosta a mão livre na minha cintura, como se precisasse se ancorar. Eu fecho os olhos, sentindo o beijo se aprofundar aos poucos, carregado de tudo que não foi vivido antes, mas que sempre esteve ali.

Quando nos afastamos, o ar parece diferente. Mais leve. Um som suave nos interrompe. Um balbucio. Um sorriso pequeno no berço.

Dustyn mexe os braços, os olhos ainda semicerrados, como se tivesse sentido algo bom no ar. Meu coração aperta.

— Ele sorriu… — digo, emocionada.

Ethan se aproxima do berço, devagar, quase reverente. Olha para o pequeno como se estivesse diante de algo sagrado.

— Ele sempre sorri quando você está por perto. — ele diz.

Encosto a testa na de Ethan, fechando os olhos.

— O Andrew me ensinou a viver. — falo baixo.

Ele respira fundo antes de perguntar, quase num sussurro:

— E eu?

Abro os olhos e encaro o homem que atravessou fogo e sangue para me manter de pé.

— Você me ensinou a sobreviver.

Vejo algo quebrar e se reconstruir dentro dele ao mesmo tempo. Ethan segura minha mão com cuidado, entrelaçando nossos dedos.

— Então agora… — ele diz — a gente aprende a ser feliz.

Não respondo com palavras.

Apenas fico ali.

Com meu filho dormindo tranquilo. Com um homem ferido, perigoso, imperfeito… mas presente. Com um coração ainda remendado, mas finalmente batendo no mesmo ritmo de outro.

A câmera invisível da nossa vida, aquela que começou com contratos, segredos, sangue e dor, não se fecha em um final perfeito. Ela se fecha em um lar.

Reconstruído.

Imperfeito.

Real.

E em muito tempo, eu não tenho medo do que vem depois. Entro no meu quarto sozinha. Fecho a porta devagar, como se o barulho pudesse acordar algo que ainda está frágil demais dentro de mim.

Sento na cama, pego o notebook e o abro quase no automático. A pasta aparece na tela antes mesmo de eu pensar em procurar.

Andrew.

Clico.

As fotos passam devagar. O sorriso dele no nosso casamento. O jeito tímido como segurava minha mão, como se ainda tivesse medo de me tocar. O brilho nos olhos, o homem que se apaixonou por mim sem pedir permissão ao próprio destino.

Minha garganta fecha.

— Eu estou indo rápido demais? — pergunto ao quarto vazio.

Passo para outra foto. Andrew com Dustyn nos braços. O orgulho estampado no rosto. O amor inteiro, sem sobras.

— Era isso que você queria pra mim? — sussurro. — Que eu seguisse… que eu sentisse de novo?

Fecho os olhos com força.

A culpa vem pesada. Não como raiva, mas como dúvida. Como se amar outra vez fosse uma traição. Como se meu coração estivesse desobedecendo uma regra que nunca foi escrita, mas sempre existiu.

— Eu não te esqueci… — digo, sentindo as lágrimas caírem. — Eu nunca vou esquecer.

A confusão me envolve inteira. Andrew foi o amor que me ensinou a viver. Ethan é o homem que me mantém de pé. E eu não sei qual caminho é o certo. Só sei que dói.

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