Capítulo 106 Capítulo 106

Ruby

Eu tento me convencer de que ainda estou em luto. Repito isso como um mantra enquanto caminho pela sala vazia, ajeitando coisas que não precisam ser ajeitadas.

O relógio na parede marca o tempo com uma insistência quase cruel, como se quisesse me lembrar que os dias continuam passando mesmo quando eu fico parada.

Andrew se foi. Essa verdade ainda pesa no peito como se tivesse acontecido ontem. E mesmo assim… a presença de Ethan começa a bagunçar tudo dentro de mim.

Quando a campainha toca, meu corpo reage antes da mente. O coração acelera, a respiração falha por um segundo. Abro a porta e o encontro ali, parado, com um buquê simples nas mãos. Nada exagerado. Nada teatral.

— São só flores — ele diz, meio sem jeito. — E… jantar. Se você quiser.

Observo o rosto dele. O sorriso sedutor, o perfume que me faz pensar em coisas que não devo, o olhar atento demais para quem diz que não espera nada. Pego as flores, sentindo o perfume leve subir.

— Entra — respondo. — É só um jantar.

Ele sorri de canto.

— É só um jantar, Ruby.

Mas o olhar dele contradiz cada palavra.

Durante a refeição, o silêncio não é desconfortável. É carregado. Denso. Cada movimento parece calculado, cada gesto tem peso. Nossos olhares se cruzam mais vezes do que deveriam. Nenhum dos dois fala sobre Andrew. Nenhum fala sobre o passado recente. É como se estivéssemos pisando num terreno frágil demais para palavras.

— Você está bem? — ele pergunta, depois de um tempo.

Dou de ombros.

— Estou… tentando.

Ele assente, respeitando a resposta incompleta.

Depois do jantar, caminho até a janela da sala. A cidade brilha lá fora, indiferente às minhas confusões. Apoio a mão no vidro frio e fecho os olhos por um segundo.

Sinto quando ele se aproxima. Não preciso olhar para saber.

O corpo dele para atrás do meu, próximo demais. O calor contrasta com o frio do vidro. Quando a mão dele toca minha cintura, meu corpo reage de imediato. Um arrepio inteiro me atravessa.

— Ethan… — seu nome sai como um aviso e um pedido ao mesmo tempo.

— Só quero sentir — ele diz baixo, a voz rouca. — Sentir se você ainda treme quando eu encosto.

Abro os olhos. Meu coração está descompassado.

— Você não devia…

— Eu sei — ele responde, sem afastar a mão. — Eu não devia. Mas sempre quis.

Viro-me devagar. Nossos rostos ficam próximos demais para qualquer mentira. Consigo sentir a respiração dele misturada à minha. O mundo parece diminuir até caber apenas naquele espaço entre nós dois.

— Isso não é justo — sussurro. — Eu ainda estou quebrada.

— Eu sei. — Ele toca meu rosto com cuidado. — E eu não vim pra consertar você. Só… pra estar.

O beijo acontece sem pressa. Devagar. Tenso. Como se ambos estivessem pedindo permissão um ao outro. Quando os lábios dele encostam nos meus, algo dentro de mim se solta. Não há culpa. Não há comparação. Só a sensação de estar viva.

Seguro a nuca dele quase sem perceber. Ele aprofunda o beijo com cuidado, como se tivesse medo de me assustar. Minha respiração fica entrecortada. O corpo reconhece o toque antes da mente.

— Eu sonhei com isso todas as noites — ele confessa, a voz baixa contra minha boca.

Fecho os olhos.

— E eu odiei todas as vezes que também quis.

Ele encosta a testa na minha, respirando fundo.

— Me diz pra parar — sussurra. — E eu paro.

Não digo nada.

A mão dele desliza devagar pelas minhas costas, respeitando cada limite invisível. Caminhamos quase sem perceber até o sofá. O corpo dele me envolve, quente, presente. Não é pressa. É necessidade contida por respeito.

Deito-me, sentindo o peso dele sobre mim, sustentado nos braços, sem me esmagar. Nossos olhares se encontram. Há desejo ali, sim. Mas também cuidado. Medo. Promessa.

— Você não está traindo ninguém — ele diz, como se lesse meus pensamentos. — Você está vivendo.

Uma lágrima escapa do meu olho.

— Eu ainda amo o Andrew.

Ele assente.

— E sempre vai. Isso não muda quem você é.

O beijo volta, mais lento agora. As mãos exploram com cuidado, como se estivessem aprendendo de novo. Roupas ficam pelo caminho sem urgência, sem culpa. Apenas entrega.

Meu corpo responde. O coração arde. Não como dor, como chama.

Quando descanso a cabeça no peito dele, escuto o coração batendo forte, descompassado como o meu. Ele me envolve com os braços, firme, protetor, mas sem posse.

— Eu não quero o lugar do Andrew — ele diz baixo. — Só quero ser o lugar onde você pode pousar quando cansar de lutar.

Respiro fundo.

— Hoje… — sussurro. — Hoje eu só preciso não me sentir errada.

Ele beija meu cabelo.

— Então fica. Só isso.

Fico. Deitada com ele no sofá, o corpo entregue, a mente em chamas, percebo algo que me assusta e me acalma ao mesmo tempo, eu não sinto culpa. Sinto vida.

Fico deitada no sofá, encaixada no corpo dele como se sempre tivesse sido assim. Ethan não me prende, não me aperta. Ele só está ali. Presente. Quente. Real.

Ele se inclina e começa a sussurrar no meu ouvido, a voz baixa, quase tímida para alguém como ele.

— Eu sonhei com você assim… tantas vezes, ruiva. — a respiração dele arrepia minha pele. — Sonhei em te ter encostada em mim, assim desse jeito, desde o dia que te perdi.

Fecho os olhos, ouvindo.

— Minha vida não faz sentido quando eu não te vejo. — ele continua. — Tudo fica barulho. Tudo fica vazio. Você é o único lugar onde eu consigo respirar sem me sentir um monstro.

Meu peito aperta.

— Eu sei que nada vai ser perfeito, Ruby. — ele diz. — Mas eu quero uma vida imperfeita com você. Quero acordar cansado, discutir besteira, rir do nada… quero amar o Dustyn como se fosse meu enquanto eu ainda estiver aqui.

A mão dele repousa sobre minha cintura, respeitosa, firme.

— Quero ser o homem que ele vai lembrar como proteção. Como presença. Mesmo que um dia eu não esteja mais.

Engulo em seco. A imagem se forma na minha cabeça sem que eu lute contra ela. Uma casa viva. Um filho seguro. Um homem que fica.

— Você merece mais do que sobreviver. — ele sussurra. — Merece viver.

Abro os olhos.

E não penso no que estou perdendo. Penso no que posso construir. E isso me assusta. Mas também… me faz querer tentar.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo