Capítulo 107 Capítulo 107
Ethan
O sol nasce devagar, atravessando a cortina fina da sala, e eu acordo antes dela. Ruby ainda dorme ao meu lado, encolhida no sofá como se o mundo pudesse feri-la se ela se esticasse demais.
Observo cada detalhe do rosto dela, o cabelo espalhado, os cílios longos, a respiração tranquila. Tenho medo de piscar e ela não estar mais ali. Medo de tocar e quebrar. Medo de merecer.
Passei a vida acreditando que amor era posse ou guerra. Ruby me ensinou que amor também pode ser mar calmo.
Penso em tudo que fiz. No sangue que carrego nas mãos. Nos corpos que caíram para que eu ficasse de pé. Nunca achei que teria direito a algo assim. Perdão. Calma. Um amanhecer comum.
Quando ela desperta, os olhos encontram os meus, e vejo a hesitação antes do sorriso.
— Eu não devia ter dormido aqui com você — ela diz, baixinho, mais para si do que para mim.
Inclino o rosto, perto o suficiente para sentir o cheiro da pele dela.
— Então me impede.
Ela não responde. Não se afasta. E isso é resposta suficiente.
Aproximo-me com cuidado, como se cada gesto precisasse de permissão. Beijo o ombro dela primeiro. Depois o pescoço. Sinto o arrepio subir pela pele dela, e meu corpo reage, mas controlo o impulso. Quero presença, não pressa.
— Eu quero te amar como nunca ninguém amou — sussurro.
Ruby vira o rosto e me beija. Não é delicado. É urgente. É como se estivéssemos tentando recuperar tudo que perdemos no tempo errado.
Levo-a até o quarto. As roupas ficam pelo caminho, não arrancadas, mas esquecidas. Cada toque é consciente. Cada aproximação é um pedido para mais. Quando a deito na cama, não há domínio, há entrega.
Beijo Ruby devagar, sentindo o corpo dela responder ao meu com confiança e medo misturados. Ela segura meu rosto como se tivesse receio de que eu desapareça. Eu encosto a testa na dela, respirando o mesmo ar, tentando memorizar aquele instante.
Nossos corpos se ajustam, não por hábito, mas por necessidade. Cada movimento é guiado pelo sentir, não pelo querer provar nada. Ela suspira meu nome, e isso vale mais do que qualquer promessa.
Sussurro que esperei por ela. Que nunca deixei de esperar. Ruby fecha os olhos, e quando me puxa para mais perto, sei que não é fuga. É escolha.
O ritmo cresce aos poucos, intenso sem ser brusco. Há calor, há conexão, há algo quase sagrado naquele encontro. Não é só desejo, é reconstrução.
Ela me olha como se estivesse reaprendendo a confiar. Eu a beijo como quem jura proteger. Nossos corpos falam o que palavras nunca deram conta.
Ruby envolve meus ombros, e eu a envolvo inteira. Não há espaço entre nós. Não há passado naquele quarto. Só o agora.
Quando o clímax chega, não é explosão. É alívio. É choro contido. É o corpo dizendo “eu ainda estou vivo”.
Fico com ela nos braços depois, sentindo o coração dela desacelerar junto ao meu. Nenhum dos dois fala. Não precisa. Encosto a testa na dela, ainda ofegante.
— Eu te juro, Ruby. Nunca mais ninguém vai te tocar assim além de mim.
Ela fecha os olhos, mas não sorri. A voz vem baixa, honesta.
— Então não me faz me arrepender disso, Ethan.
Seguro o rosto dela com cuidado, como se fosse algo precioso demais para mãos como as minhas.
— Eu não sei ser pouco. Mas sei ser fiel. Sei ficar. Sei proteger.
Ela não responde com palavras. Apenas se aninha em mim, e ali, pela primeira vez, não me sinto um homem à beira do abismo. Sinto que talvez… talvez eu tenha chegado em casa.
Fico com Ruby nos braços por longos minutos, sentindo o peso do corpo dela relaxar contra o meu. O quarto ainda carrega o calor do que compartilhamos, mas agora existe algo diferente no ar. Não é só desejo satisfeito. É permanência. É medo e vontade convivendo no mesmo espaço.
Passo os dedos pelo cabelo dela devagar, como se cada fio fosse algo que eu precisasse guardar na memória. Ruby não fala. Mas o jeito que se encaixa em mim diz tudo. Ela não está fugindo. Também não está se jogando. Está ficando.
— Você fica tão quieta depois… — sussurro.
Ela levanta o rosto e me encara.
— Porque eu penso demais.
— No quê?
— Em como é perigoso me sentir assim com você.
Aperto-a mais contra mim, sem força, sem pressa.
— Eu sei. — confesso. — Eu também sinto medo. Mas não desse sentimento. Tenho medo de perder de novo.
Ela fecha os olhos quando beijo sua testa, depois o canto da boca. O beijo é lento, profundo, sem urgência. Um beijo que não pede mais nada além de continuar ali.
Tomamos um banho juntos e depois levo Ruby de volta para a cama com cuidado, como se ela fosse algo frágil demais para o mundo que eu conheço. Deito ao lado dela, não sobre. Quero que ela veja meu rosto. Quero que ela escolha ficar a cada segundo.
— Eu nunca quis te dividir com o passado — digo baixo. — Só quero caminhar com você a partir daqui.
Ela toca meu peito, sentindo meu coração.
— Ele ainda está aqui. — diz, sincera. — Andrew sempre vai estar.
— Eu sei. — respondo sem hesitar. — E eu respeito isso. Eu não quero apagar ninguém. Só quero construir algo novo… se você deixar.
Ruby respira fundo. O silêncio entre nós não é vazio. É decisão.
Ela se aproxima, beija meu pescoço, meu queixo, minha boca. O beijo agora tem fome contida, mas também cuidado. Nossos corpos se reconhecem outra vez com entrega consciente. Não é a intensidade que machuca, é a que acolhe.
Sussurro coisas que nunca disse a ninguém. Digo que pensei nela todos os dias. Que imaginei como seria acordar assim. Que, mesmo no inferno, era o rosto dela que me mantinha de pé.
Ruby escuta tudo. Não me interrompe. Apenas me envolve, como se dissesse: eu estou aqui, mesmo com medo.
Quando nos movemos juntos de novo, é diferente. Mais lento. Mais profundo. Não é o corpo que conduz, é o sentimento. O quarto desaparece. O tempo perde sentido. Existe apenas o agora, quente, vivo, impossível de negar.
Depois, fico com ela apoiada em meu peito, sentindo a respiração dela se ajustar à minha. Beijo seus cabelos, o ombro, a mão.
— Eu não prometo ser fácil — digo.
Ela sorri de leve.
— Eu não preciso de fácil. Preciso de verdade.
Seguro o rosto dela entre as mãos.
— Então fica comigo, Ruby. Não por culpa. Não por medo. Fica porque quer.
Ela não responde com palavras. Apenas me beija outra vez, lenta, firme, decidida. E naquele instante, eu sei, não é mais só desejo. É começo.
