Capítulo 108 Capítulo 108
Ruby
Os dias seguintes se misturam num ritmo estranho. Não são calmos. Também não são caóticos. São intensos.
Eu tento manter distância. Tento mesmo. Digo a mim mesma que preciso de espaço, que tudo aconteceu rápido demais, que ainda estou em luto. Mas Capítulo 108
Ruby
Os dias seguintes se misturam num ritmo estranho.
Não são calmos. Também não são caóticos. São intensos.
Eu tento manter distância. Tento mesmo. Digo a mim mesma que preciso de espaço, que tudo aconteceu rápido demais, que ainda estou em luto. Mas o meu corpo não obedece aos discursos que faço sozinha no espelho. Ele reconhece Ethan antes que eu consiga fingir indiferença.
Basta ele entrar no mesmo ambiente para o ar mudar.
O jeito como me olha, não como posse, mas como escolha, desmonta minhas defesas uma por uma. E quando ele toca minha mão, ou passa por trás de mim no corredor, é como se algo que ficou adormecido por meses despertasse sem pedir permissão.
A primeira vez depois daquela noite e daquela manhã acontece sem planos.
Eu estou na cozinha, tentando fingir normalidade, e ele encosta na bancada ao meu lado. Não fala nada. Só fica ali. Perto demais. O silêncio pesa mais do que qualquer palavra.
— Você está me evitando de novo? — ele diz, baixo.
— Estou tentando pensar — respondo.
— E o corpo? — ele pergunta. — Está tentando o quê?
Levanto os olhos e encontro os dele. O mundo inteiro parece reduzir àquele espaço entre nós.
— Ele não pensa — admito. — Ele sente.
Ethan não sorri. Ele se aproxima devagar, como quem pede permissão sem precisar verbalizar. Quando suas mãos tocam minha cintura, não há pressa. Só presença. Só certeza.
É ali, entre o medo e a vontade, que eu cedo. Não é culpa. É fome. É carência acumulada. É vida querendo sair do lugar onde ficou presa.
Depois disso, tudo se torna mais intenso.
Na cama, ele me envolve como se quisesse me proteger do mundo. Não existe brutalidade, apenas entrega firme, profunda. O jeito como ele segura meu rosto antes de me beijar faz meu peito apertar. Como se dissesse: eu estou aqui, inteira, agora.
No chuveiro, a água cai quente enquanto ele me puxa contra o corpo. Minhas mãos escorregam pelos ombros dele, e eu fecho os olhos quando sinto sua respiração perto do meu ouvido.
— Você não tem ideia de quanto eu esperei por isso, ruivinha — ele sussurra.
— Eu tentei não querer — confesso, ofegante.
— E eu tentei não amar — ele responde. — Nenhum de nós conseguiu.
No sofá, numa tarde em que Dustyn dorme no quarto ao lado, ele me puxa para perto com cuidado, como se o mundo pudesse quebrar se fosse mais brusco. O toque é lento, quase reverente. Nada ali é pressa. Tudo é escolha.
Ethan me segura como se eu fosse algo precioso demais para ser desperdiçado.
— Você é o meu pecado preferido — ele sussurra, a boca roçando minha pele.
Meu corpo reage antes da razão.
— Então nunca se arrependa de mim — respondo, sem fôlego.
Ele não responde com palavras. Responde ficando. Tocando. Escolhendo.
Mas à noite, quando o silêncio volta e o prazer se dissolve em calma, o peso retorna. Estamos deitados. Ele respira fundo, tranquilo. Eu não.
Viro de lado, tentando conter o nó na garganta. As lágrimas vêm sem aviso, escorrendo devagar. Não são de arrependimento. São de confusão.
Ethan percebe.
— Ruby… — ele chama. — O que foi?
— Eu sinto que… — engulo em seco. — Que estou de algum jeito traindo ele.
Ele se vira imediatamente. Não há irritação, nem defesa. Só atenção.
— Andrew.
Assinto.
— Eu amo o que estamos vivendo — continuo, a voz falha. — Mas às vezes parece que estou cruzando uma linha que não deveria existir.
Ethan se aproxima e enxuga minhas lágrimas com o polegar, com cuidado.
— Olha pra mim.
Obedeço.
— Você não está traindo ninguém — ele diz, firme, mas gentil. — Você sofreu. Você esperou. Você quebrou. E agora está voltando a sentir algo que não seja dor.
— E se ele não quisesse isso? — pergunto. — E se eu estiver indo rápido demais?
Ethan encosta a testa na minha.
— Andrew te amava. — pausa. — E quem ama de verdade quer ver o outro vivo, não congelado no passado.
Ele beija minhas lágrimas.
— Você não está apagando ninguém. Está acrescentando vida à sua história.
Fecho os olhos, tentando respirar sem chorar.
— Eu ainda penso nele todos os dias.
— Eu sei. — ele responde. — E nunca vou pedir que pare.
Ficamos ali, abraçados, em silêncio. Não há respostas definitivas. Só a tentativa de seguir.
No dia seguinte, acordo com Ethan me observando.
— O que foi? — pergunto.
— Nada. — ele sorri de leve. — Só estou memorizando.
— O quê?
— Você. Assim. Viva.
Sorrio, mesmo com o peito apertado.
Dois mundos dividem o mesmo lençol agora.
O passado que ainda dói.
O presente que pulsa.
E, entre eles, eu.
Tentando aprender que amar de novo não apaga o que veio antes. Apenas prova que sobrevivi.
E talvez… só talvez… isso também seja uma forma de honrar quem me ensinou a viver.
Eu fico parada na porta da sala sem que eles percebam.
Ethan está sentado no tapete, de pernas abertas, Dustyn acomodado entre elas. Meu filho está apoiado no peito dele, seguro, confortável, como se aquele colo já fosse conhecido. Ethan faz um som estranho com a boca, exagerado, quase ridículo.
— Atenção, senhor Dustyn… ataque surpresa!
Ele finge que vai morder a barriga do bebê, mas para no meio do caminho e faz cócegas com o nariz. Dustyn explode numa gargalhada alta, aberta, daquele tipo que vem da barriga e contagia qualquer um.
Meu peito aperta.
— Olha isso… — Ethan ri junto. — Olha esse sorriso, cara. Você vai acabar comigo desse jeito.
Dustyn bate as mãozinhas no ar, empolgado, e emite um som todo embolado, como se estivesse tentando responder. Ethan inclina a cabeça, atento.
— O quê? — pergunta, sério. — Repete pra eu entender.
O bebê gargalha de novo.
Ethan arregala os olhos, teatral.
— Foi isso mesmo que você disse? — ele finge indignação. — Sua mãe te ensinou a falar assim comigo?
Eu levo a mão à boca, rindo em silêncio, com lágrimas nos olhos.
Ethan pega Dustyn no colo, levanta devagar e começa a girar, com cuidado.
— Não conta pra ninguém, tá? — ele sussurra pro bebê. — Mas você é a melhor parte do meu dia.
Dustyn encosta o rosto no pescoço dele, ainda sorrindo, completamente tranquilo.
É ali que algo dentro de mim muda.
Não é culpa.
Não é medo.
É calor.
É perceber que meu filho se sente seguro. Que ele reconhece aquele colo. Que aquela gargalhada não é forçada, não é confusa, é feliz.
E quando Ethan olha pra mim, ainda segurando Dustyn, o sorriso dele não é de posse. É de orgulho.
— Ele me deixa sem defesa nenhuma, Ruby.
Eu engulo em seco.
— Eu vi.
E o meu coração aquece sem doer.
meu corpo não obedece aos discursos que faço sozinha no espelho. Ele reconhece Ethan antes que eu consiga fingir indiferença.
Basta ele entrar no mesmo ambiente para o ar mudar.
O jeito como me olha, não como posse, mas como escolha, desmonta minhas defesas uma por uma. E quando ele toca minha mão, ou passa por trás de mim no corredor, é como se algo que ficou adormecido por meses despertasse sem pedir permissão.
A primeira vez depois daquela noite e daquela manhã acontece sem planos.
Eu estou na cozinha, tentando fingir normalidade, e ele encosta na bancada ao meu lado. Não fala nada. Só fica ali. Perto demais. O silêncio pesa mais do que qualquer palavra.
— Você está me evitando de novo? — ele diz, baixo.
— Estou tentando pensar — respondo.
— E o corpo? — ele pergunta. — Está tentando o quê?
Levanto os olhos e encontro os dele. O mundo inteiro parece reduzir àquele espaço entre nós.
— Ele não pensa — admito. — Ele sente.
Ethan não sorri. Ele se aproxima devagar, como quem pede permissão sem precisar verbalizar. Quando suas mãos tocam minha cintura, não há pressa. Só presença. Só certeza.
É ali, entre o medo e a vontade, que eu cedo. Não é culpa. É fome. É carência acumulada. É vida querendo sair do lugar onde ficou presa.
Depois disso, tudo se torna mais intenso.
Na cama, ele me envolve como se quisesse me proteger do mundo. Não existe brutalidade, apenas entrega firme, profunda. O jeito como ele segura meu rosto antes de me beijar faz meu peito apertar. Como se dissesse: eu estou aqui, inteira, agora.
No chuveiro, a água cai quente enquanto ele me puxa contra o corpo. Minhas mãos escorregam pelos ombros dele, e eu fecho os olhos quando sinto sua respiração perto do meu ouvido.
— Você não tem ideia de quanto eu esperei por isso, ruivinha — ele sussurra.
— Eu tentei não querer — confesso, ofegante.
— E eu tentei não amar — ele responde. — Nenhum de nós conseguiu.
No sofá, numa tarde em que Dustyn dorme no quarto ao lado, ele me puxa para perto com cuidado, como se o mundo pudesse quebrar se fosse mais brusco. O toque é lento, quase reverente. Nada ali é pressa. Tudo é escolha.
Ethan me segura como se eu fosse algo precioso demais para ser desperdiçado.
— Você é o meu pecado preferido — ele sussurra, a boca roçando minha pele.
Meu corpo reage antes da razão.
— Então nunca se arrependa de mim — respondo, sem fôlego.
Ele não responde com palavras. Responde ficando. Tocando. Escolhendo.
Mas à noite, quando o silêncio volta e o prazer se dissolve em calma, o peso retorna. Estamos deitados. Ele respira fundo, tranquilo. Eu não.
Viro de lado, tentando conter o nó na garganta. As lágrimas vêm sem aviso, escorrendo devagar. Não são de arrependimento. São de confusão.
Ethan percebe.
— Ruby… — ele chama. — O que foi?
— Eu sinto que… — engulo em seco. — Que estou de algum jeito traindo ele.
Ele se vira imediatamente. Não há irritação, nem defesa. Só atenção.
— Andrew.
Assinto.
— Eu amo o que estamos vivendo — continuo, a voz falha. — Mas às vezes parece que estou cruzando uma linha que não deveria existir.
Ethan se aproxima e enxuga minhas lágrimas com o polegar, com cuidado.
— Olha pra mim.
Obedeço.
— Você não está traindo ninguém — ele diz, firme, mas gentil. — Você sofreu. Você esperou. Você quebrou. E agora está voltando a sentir algo que não seja dor.
— E se ele não quisesse isso? — pergunto. — E se eu estiver indo rápido demais?
Ethan encosta a testa na minha.
— Andrew te amava. — pausa. — E quem ama de verdade quer ver o outro vivo, não congelado no passado.
Ele beija minhas lágrimas.
— Você não está apagando ninguém. Está acrescentando vida à sua história.
Fecho os olhos, tentando respirar sem chorar.
— Eu ainda penso nele todos os dias.
— Eu sei. — ele responde. — E nunca vou pedir que pare.
Ficamos ali, abraçados, em silêncio. Não há respostas definitivas. Só a tentativa de seguir.
No dia seguinte, acordo com Ethan me observando.
— O que foi? — pergunto.
— Nada. — ele sorri de leve. — Só estou memorizando.
— O quê?
— Você. Assim. Viva.
Sorrio, mesmo com o peito apertado.
Dois mundos dividem o mesmo lençol agora.
O passado que ainda dói.
O presente que pulsa.
E, entre eles, eu.
Tentando aprender que amar de novo não apaga o que veio antes. Apenas prova que sobrevivi.
E talvez… só talvez… isso também seja uma forma de honrar quem me ensinou a viver.
Eu fico parada na porta da sala sem que eles percebam.
Ethan está sentado no tapete, de pernas abertas, Dustyn acomodado entre elas. Meu filho está apoiado no peito dele, seguro, confortável, como se aquele colo já fosse conhecido. Ethan faz um som estranho com a boca, exagerado, quase ridículo.
— Atenção, senhor Dustyn… ataque surpresa!
Ele finge que vai morder a barriga do bebê, mas para no meio do caminho e faz cócegas com o nariz. Dustyn explode numa gargalhada alta, aberta, daquele tipo que vem da barriga e contagia qualquer um.
Meu peito aperta.
— Olha isso… — Ethan ri junto. — Olha esse sorriso, cara. Você vai acabar comigo desse jeito.
Dustyn bate as mãozinhas no ar, empolgado, e emite um som todo embolado, como se estivesse tentando responder. Ethan inclina a cabeça, atento.
— O quê? — pergunta, sério. — Repete pra eu entender.
O bebê gargalha de novo.
Ethan arregala os olhos, teatral.
— Foi isso mesmo que você disse? — ele finge indignação. — Sua mãe te ensinou a falar assim comigo?
Eu levo a mão à boca, rindo em silêncio, com lágrimas nos olhos.
Ethan pega Dustyn no colo, levanta devagar e começa a girar, com cuidado.
— Não conta pra ninguém, tá? — ele sussurra pro bebê. — Mas você é a melhor parte do meu dia.
Dustyn encosta o rosto no pescoço dele, ainda sorrindo, completamente tranquilo.
É ali que algo dentro de mim muda.
Não é culpa.
Não é medo.
É calor.
É perceber que meu filho se sente seguro. Que ele reconhece aquele colo. Que aquela gargalhada não é forçada, não é confusa, é feliz.
E quando Ethan olha pra mim, ainda segurando Dustyn, o sorriso dele não é de posse. É de orgulho.
— Ele me deixa sem defesa nenhuma, Ruby.
Eu engulo em seco.
— Eu vi.
E o meu coração aquece sem doer.
