Capítulo 11 Capítulo 11

Ruby

Os dias depois do escândalo no Savoy ficaram estranhamente silenciosos. Silêncio por fora, tumulto por dentro. Andrew fazia questão de agir como se nada tivesse acontecido. Trocava mensagens com fornecedores, arquitetos, cerimonialistas, e eu era arrastada pelo turbilhão de preparativos do casamento que crescia mais rápido do que a minha capacidade de acompanhar.

Ele confiou mais em me deixar sair sozinha. Disse que Ethan tinha sumido de Londres, que os seguranças de Kensington estavam atentos, que eu podia respirar, viver, andar por ai. Eu queria acreditar. Queria dormir tranquila. Queria que meu corpo parasse de reagir à lembrança daquela arma apontada para o homem que estava tentando consertar minha vida.

Mas meu coração não desligava.

Eu tentava seguir em frente. Tentei como poucas vezes na vida tentei algo. Passei duas tardes escolhendo flores para a cerimônia, aceitei experimentar vestidos mesmo com o estômago revirado, sorri para a cerimonialista como se fosse normal casar com um homem que eu mal beijei, e esquecer o homem que, mesmo não sendo mais meu, ainda aparecia nos meus sonhos e pesadelos.

Naquela tarde, depois da última prova do vestido, eu desci a calçada acompanhada de Helena, a estilista. Ela falava animada sobre ajustes, sobre como a barra precisava de meia polegada a mais, e eu fingia ouvir, segurando o vestido embalado com cuidado.

A rua estava tranquila. Londres parecia ter parado de correr por alguns instantes. E foi isso que me deu coragem de acreditar que os dias iam melhorar.

Até o carro preto estacionar na minha frente.

A porta de trás se abriu.

E a voz grave, inconfundível, que eu conheço melhor do que minha própria respiração, me chamou:

— Entra, Ruby.

Parei. O ar sumiu. O coração virou pedra. Helena olhou para mim, confusa, mas minha mente apagou tudo ao redor quando ele saiu do carro.

Ethan.

Terno escuro, barba por fazer, olhar duro demais pra quem diz amar, ombros tensos como quem está prestes a explodir. O mesmo cheiro dele invadiu o ar, aquele perfume amadeirado, familiar, que sempre grudou em mim como sombra.

— Não tenho nada pra falar com você — respondi, tentando manter a voz firme. — Me deixa em paz, Ethan.

Ele fechou a porta do carro com um estalo seco. Deu dois passos em minha direção. Eu dei um para trás, querendo desaparecer numa rachadura do cimento.

— Então me escuta, ruiva — disse, a voz rouca, carregada de cansaço e raiva.

Helena murmurou algo sobre me ligar depois e se afastou. Quando percebi, estávamos só nós dois.

E eu tremi.

— Você me deixou sem olhar pra trás — ele continuou.

Eu abri um riso irônico, quase dolorido.

— Você nem percebeu que eu tinha ido embora. Não me venha com isso agora.

O maxilar dele travou. A raiva dele sempre foi a pior parte. Intensa, destrutiva, mas nunca direcionada a mim… até eu virar a ferida que ele não sabia lidar.

— E agora vai casar com outro? — ele deu um passo mais perto. — Dois anos apagados assim tão simples?

— Dois anos apagados tão simples assim? — repeti, com mais dor do que coragem. — Andrew me respeita. Coisa que você nunca fez. Quando deveria ser meu marido, achou melhor agir como amante de outra. Se recusou a sentir qualquer coisa por mim. Nunca me tocou.

A expressão dele mudou. Ficou sombria. Ele ergueu a mão devagar, como se estivesse me avaliando.

— Respeitar não é amar, Ruby. — Ele aproximou os lábios do meu ouvido. — Quer o meu toque? Ele é seu.

— Ethan, eu não…

Não consegui terminar.

Ele me puxou. Rápido demais. Forte demais. A mão dele na minha cintura colou meu corpo ao dele como se ainda tivéssemos algum direito um sobre o outro.

E ele me beijou.

Um beijo roubado. Um beijo errado. Um beijo que meu corpo reconheceu antes da minha mente processar o que estava acontecendo.

A boca dele era quente, urgente, com gosto de uísque, medo e saudade. Os lábios dele esmagaram os meus com uma mistura de raiva e desespero que eu nunca tinha sentido dele. A pressão do beijo me arrancou o ar. O toque da língua dele forçou passagem e, por um segundo, um único segundo miserável, eu deixei. Porque o sabor dele era familiar, era memória, era cicatriz. Era tudo o que eu tentei esquecer.

A textura dos lábios dele queimou os meus. A língua dele, quente e invasiva, deslizou contra a minha como se quisesse marcar território, relembrar meu corpo de quem um dia foi dono. E eu… eu senti. O corpo vibrou. As pernas amoleceram. Meu coração bateu tão forte que doeu.

Ele segurava meu rosto com força, como se pudesse soldar nossas bocas, como se o beijo fosse capaz de arrancar essas últimas semanas de distância. O mundo apagou. Não tinha gente, rua, vento. Só o peito dele contra mim, a respiração quente na minha boca e a sensação desesperada de que aquele beijo era a última coisa que ainda me prendia ao passado.

E isso me destruiu. Eu despertei, saí da loucura e tomei coragem de parar aquilo. Empurrei o peito dele com toda força que ainda restava.

— Nunca mais faça isso! — gritei, sentindo as lágrimas subindo antes mesmo de perceber que estava chorando. — O direito que você tinha sobre meu corpo acabou quando assinou o divórcio!

Ele respirou fundo, a boca vermelha, o olhar dark, intenso, quebrado.

— Você ainda me ama — disse, provocando, como se tivesse certeza.

Eu limpei os lábios como se estivesse limpando um pecado.

— Eu amava o homem que achei que você era.

A dor que atravessou os olhos dele foi rápida, mas real. E isso me matou mais do que o beijo.

Nesse exato segundo, o carro de Andrew estacionou na esquina. Ele saiu do carro apressado, preocupado, chamando meu nome. Quando me viu perto de Ethan, congelou.

— Ruby? — perguntou, sem entender.

Eu não consegui responder. Só corri até ele e abri a porta do carro dele e entrei. Ethan ficou ali parado, o punho fechado, o olhar cravado em mim como uma sentença.

Andrew se sentou no banco do motorista, fechou a porta, olhou para mim e viu as lágrimas.

— Ele te machucou? — perguntou, a voz baixa, preocupada. — Droga, eu devia ter mandado os seguranças com você.

— Não fisicamente — respondi, limpando o rosto. — Mas ainda dói. A presença dele ainda dói.

Andrew segurou minha mão com cuidado, como se eu pudesse quebrar.

— Eu nunca vou te tocar sem que queira, Ruby. — A voz dele era firme, quente, sincera. — E vou fazer você esquecer o que é ser forçada.

Fechei os olhos. Mas esse nem era o verdadeiro problema. O problema era o que eu sentia naquele momento.

Que meu corpo tinha respondido ao beijo. Que meu coração tinha acelerado. Que uma parte de mim, a parte que eu odeio, tinha cedido.

Eu queria socar a mim mesma. Me insultar. Gritar. Porque eu deveria sentir nojo. Raiva. Medo. Mas o que eu senti foi desejo. E isso me destruiu mais do que o beijo dele.

Andrew dirigiu sem dizer mais nada. Eu chorei calada. E o mundo pareceu suspenso. No retrovisor, Ethan f

icou para trás.

Mas dentro de mim, ele não tinha ido a lugar nenhum. E era isso que mais me assustava.

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