Capítulo 110 Capítulo 110

Ruby

Cinco anos depois.

Eu acordo com um pezinho pequeno chutando minhas costas. Demoro alguns segundos pra entender onde estou, até ouvir a risada baixa ao meu lado.

— Aurora, princesa… a mamãe precisa da coluna. — Ethan murmura, ainda com voz de sono.

Viro devagar. Minha filha está deitada entre nós, cabelo escuro todo bagunçado, os mesmos olhos intensos do pai e o mesmo sorriso teimoso que eu vejo no espelho. Ela se agarra na minha blusa.

— Mamãe… não vai trabalhar hoje.

Sorrio, acariciando o rostinho dela.

— Vou, sim. Mas só mais tarde. Ainda tenho um tempo pra ficar com vocês.

Do outro lado da cama, Ethan me observa em silêncio. Ele sempre faz isso. A maneira como me olha ainda me deixa sem ar às vezes, como se eu fosse o milagre que ele não esperava.

— Bom dia, ruiva. — ele sorri de canto. — Ainda sou o primeiro homem que você vê quando acorda?

— E o último antes de dormir. — respondo.

Ele parece guardar essa frase em algum lugar importante dentro dele.

Antes que eu possa dizer qualquer outra coisa, a porta do quarto se abre com tudo.

— MÃE! Pai! A Aurora roubou meu carrinho! — Dustyn aparece, alto, magro, o cabelo ruivo bagunçado e o olhar firme que eu conheço tão bem.

Meu peito aperta. Não dói mais. Agora é um aperto bom, de orgulho.

— Dustyn, amor, a Aurora está aqui desde antes de você acordar. — digo, rindo. — Se alguém roubou o carrinho, foi você que deixou largado por aí.

Ele cruza os braços, fingindo indignação.

— Você sempre fica do lado dela.

Ethan se levanta, bagunça o cabelo do nosso menino e puxa os dois pra cima da cama.

— Eu fico do lado de quem trouxer beijo. Quem não beijar o papai, perde ponto.

— Que homem competitivo. — resmungo.

— Que homem apaixonado. — ele corrige.

Os dois se jogam em cima dele, aos risos. Aurora beija a bochecha do pai com um “smack” barulhento, e Dustyn tenta fingir que não gosta, mas abraça Ethan pela cintura.

Eu só fico olhando. Guardando.

Eu sei que, em algum lugar dos arquivos do meu notebook, tem uma pasta chamada “Nosso para sempre”. Mas hoje, o que eu estou vivendo não cabe em vídeo. Só aqui dentro.

Depois do café, a casa vira o caos mais lindo do mundo.

Aurora derruba suco na mesa. Dustyn fala sobre o trabalho da escola. Ethan tenta acompanhar os dois ao mesmo tempo e ainda conferir mensagens no celular sobre negócios da máfia e da empresa.

— Pelo menos finge que não tá respondendo coisa errada na hora errada. — falo, tirando o celular da mão dele.

Ele ri.

— Relaxa, CEo Sinclair. Eu separo bem as vidas.

— Ainda bem. — respondo. — Não quero uma bomba na sala de reuniões.

— Só as que você joga quando abre a boca. — ele provoca.

Dou um tapa de leve no braço dele.

— Bobo.

Ele se inclina, me dá um beijo rápido.

— Te amo.

Simples assim.

Tão diferente daquele homem que um dia confundiu amor com posse, desejo com destruição. Hoje, quando Ethan me toca, é como se pedisse desculpas por todas as vezes que doeu. E, ao mesmo tempo, como se dissesse que nunca mais vai ser assim.

E não é.

No caminho para a empresa, olho pela janela do carro. A cidade segue viva, barulhenta, apressada. Lá atrás, no banco infantil, Dustyn canta uma música inventada pra irmã, que bate palminha fora de ritmo.

Ethan dirige com um olho na rua e outro no espelho.

— Eu já falei que dá pra ver o quanto você está diferente? — pergunto.

— Diferente como? — ele sorri de lado.

— Antes, dirigir significava fugir. Ou perseguir alguém. Agora você dirige levando os filhos pra escola.

— Eles mudaram tudo. — ele responde, simples. — Você mudou tudo.

Fico em silêncio por alguns segundos.

— Às vezes, ainda me pergunto se o Andrew queria isso pra mim. — confesso.

Ele não tenta responder com frase pronta. Apenas aperta minha mão por cima do câmbio.

— Eu não posso falar por ele. — diz, baixo. — Só posso te amar direito daqui pra frente.

Eu olho pro perfil dele. As olheiras mais leves, os traços ainda fortes, mas suavizados por algo que nenhum dinheiro compra: paz.

E pela primeira vez, eu sinto, sem culpa:

Eu estou exatamente onde deveria estar.

A empresa não é mais a mesma.

Não porque os prédios mudaram, mas porque eu mudei.

Quando entro na sala do conselho, as pessoas levantam, me cumprimentam com respeito sincero. Já não me chamam de “viúva emocionada”. As manchetes agora me chamam de “A mulher que reergueu o império Sinclair”.

Stella entra atrás de mim, tablet em mãos.

— Bom dia, chefa.

— Bom dia, Stella.

Ela senta ao meu lado e sussurra:

— Os dados do trimestre estão prontos. Crescemos mais do que o esperado.

Eu me lembro do dia em que ela entrou no meu antigo escritório pela primeira vez, loira, alta, séria, dizendo:

“Fui escolhida por Andrew pra estar ao seu lado.”

Ele pensou em tudo. Muito antes de eu saber que ia precisar.

Hoje, eu sei que honro essa confiança cada vez que assino um contrato. Não pelo peso de um sobrenome, mas porque finalmente entendi que eu também sou o império.

E continua.

Volto pra casa mais tarde, mas não exausta. Cansada, sim, porque vida real cansa. Mas é um cansaço que vale a pena.

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