Capítulo 12 Capítulo 12
Ruby
Uma semana. Só uma semana entre o beijo que virou minha vida do avesso e o casamento que deveria colocá-la de volta no lugar.
Mas nada dentro de mim estava no lugar.
Desde o dia em que Ethan me encostou na parede fria e roubou minha boca como se ainda tivesse algum direito, eu vinha tentando me convencer de que aquilo tinha sido apenas uma falha do meu corpo, uma recaída emocional, um reflexo condicionado. Nada mais.
Mas toda noite, antes de dormir, minha mente repetia aquele beijo como se quisesse me torturar. E toda manhã, quando eu acordava ao lado da janela enorme da mansão de Andrew, eu repetia para mim mesma: é aqui que você está, é aqui que você escolheu ficar.
E hoje eu me casaria com ele.
A mansão à beira-mar era um dos lugares mais bonitos que eu já tinha visto. Um penhasco enorme, o som das ondas batendo nas rochas, um deck branco suspenso sobre a água. Toda a decoração era exatamente como eu pedi: flores brancas, simples, naturais, espalhadas em arcos pequenos e elegantes, velas altas em suportes de vidro, uma passarela fina que levava até o altar.
Nada de exageros. Nada de ostentação. Só beleza, romantismo e o cheiro salgado do mar.
Eu estava pronta no quarto reservado para a noiva. Vestido leve, fluido, tecido caindo como água, alças delicadas, decote suave. Meu cabelo preso em um coque baixo com fios soltos. Pouca maquiagem. Era o que eu queria, algo que não gritasse riqueza, mas que refletisse verdade.
Quando a porta abriu e Helena entrou para ajustar o véu, eu respirei fundo.
— Está linda demais, Ruby — ela disse, emocionada.
— Eu estou… nervosa. Exageradamente nervosa.
— Isso é amor ou é medo?
— Os dois — respondi com um sorriso fraco.
Quando anunciaram que era minha hora, minhas mãos tremiam. Olhei para o mar lá fora, tentando encontrar coragem na linha do horizonte. E caminhei.
O vento leve bateu no meu rosto. As velas tremeluziram. E então eu vi Andrew.
Ele estava parado no altar, terno claro, gravata discreta. E o olhar… Deus. O olhar dele parecia um homem vendo um milagre acontecendo diante dos olhos.
Quando nossos olhares se encontraram, ele deixou o ar escapar, como se tivesse prendido a respiração por semanas.
— Você está linda… perigosamente linda — disse quando eu parei diante dele, voz baixa, verdadeira. — E eu estou… completamente sem chão.
— Eu estou nervosa — confessei. — Muito nervosa.
Ele sorriu de canto.
— Eu também. E olha que eu não costumo admitir fraquezas.
O celebrante pediu silêncio. Seguramos as mãos um do outro. E os votos começaram.
— Ruby Wilder — Andrew começou, olhando nos meus olhos com uma honestidade quase desarmante. — Você chegou na minha vida quando eu já tinha tudo… menos amor. Eu não sabia o que era chegar em casa e sentir que alguém se importava. Você foi diferente desde o primeiro dia. Não tentou me impressionar, não tentou competir com o meu mundo. Só existiu. E isso foi suficiente para virar tudo aqui dentro. — Ele tocou o próprio peito. — Eu prometo te dar paz. Mesmo quando o mundo tentar te roubar ela. Prometo não te sufocar, não te controlar, não te machucar. Prometo ser a casa que você nunca teve. E prometo ser o homem que você merecia desde o começo.
Minha garganta fechou. Segurei as lágrimas. Respirei fundo. E comecei.
— Andrew… — minha voz quase falhou, mas ele apertou minha mão, como se dissesse eu estou aqui. — Você foi o primeiro homem que me olhou sem querer me comprar. Sem exigir nada em troca. Você foi o primeiro que me perguntou o que eu sentia… e não o que eu podia dar. Você foi o primeiro que me fez acreditar que eu podia merecer algo melhor. Algo bonito. Algo que não doesse. — Engoli o nó de emoção. — Eu não sei prometer perfeição. Mas posso prometer verdade. Prometo caminhar ao seu lado. Prometo não fugir das conversas difíceis. Prometo ser sua parceira, não sua sombra. E prometo que vou tentar, de verdade, te amar do jeito que você merece ser amado.
Ele sorriu. Um sorriso que fez meu coração tremer de um jeito bom, e também um jeito que me deu medo.
O celebrante anunciou:
— Declaro vocês marido e mulher.
Andrew tocou meu rosto com cuidado, como se fosse vidro fino.
— Posso? — sussurrou.
Assenti.
O beijo dele foi suave, respeitoso, quase tímido. Nada a ver com o beijo roubado que ainda queimava minha boca na memória. Era leve, doce, cheio de sentimentos que quero explorar.
E isso me fez doer de um jeito estranho.
A cerimônia terminou sob aplausos. Lírios brancos sendo jogados. Fotos. Sorrisos. Brindes. Tudo tão bonito que parecia irreal.
O jantar veio depois, sob um céu laranja, velas acesas por toda a varanda. Andrew pediu para dançar comigo. Eu aceitei.
As mãos dele na minha cintura eram quentes e firmes. A música era lenta, suave. E por alguns segundos, eu me permiti descansar naquele abraço.
— Estão todos olhando pra gente — eu sussurrei.
— Não estou nem aí. — Ele sorriu. — Estou ocupado demais admirando minha esposa.
Meu coração apertou.
— Parece surreal, Andrew.
— É real. — Ele encostou a testa na minha. — E eu vou fazer valer cada segundo.
Quando o último convidado foi embora, ele segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos.
— Está pronta pra desaparecer comigo por um tempo?
— Para onde vamos?
— Para um lugar que só nós dois merecemos.
Entramos no carro que nos levou até o hangar. Um avião particular nos esperava, escuro, elegante, com luzes suaves iluminando a pista. O piloto cumprimentou Andrew com respeito.
Subi a escada devagar. O mar podia ser ouvido ao longe, misturado ao ronco dos motores sendo ativados.
Andrew sentou ao meu lado, afivelou o cinto e tomou minha mão de novo.
Quando a aeronave começou a ganhar velocidade, de repente tudo pareceu acontecer rápido demais. Minha vida inteira se despedaçando em uma direção e se reconstruindo em outra.
Encostei minha cabeça no ombro dele.
— Espero que o lugar seja tão longe que ninguém consiga nos achar.
— É exatamente o que eu quero — ele respondeu, beijando o topo da minha cabeça com uma delicadeza que me desmontou.
Fechei os olhos.
O avião subiu. A cidade virou luzinhas distantes lá embaixo. A cabine ficou quieta. Andrew apertou minha mão como se dissesse estou aqui, não vou a lugar nenhum.
E eu queria acreditar.
Mas enquanto o céu escurecia pela janela, minha mente voltou ao beijo de Ethan.
Ao calor da boca dele. Ao gosto dele na minha língua. À força com que ele segurou minha cintura. Ao jeito como meu corpo respondeu antes que eu pudesse impedir.
Senti o estômago revirar.
Um casamento começava.
Mas meu coração… meu coração ainda batia por alg
uém que o despedaçou com as próprias mãos.
E essa era a parte que ninguém, nem Andrew, conseguiria entender.
Ainda.
