Capítulo 13 Capítulo 13

Ruby

A água era tão azul que parecia mentira.

Do alto do avião, a ilha de Andrew era só um ponto verde cercado por turquesa no meio do mundo. Quando pousamos, o vento quente e salgado veio na minha cara, bagunçando meu cabelo ruivo. Desci a escadinha com o coração disparado. Eu, que até outro dia morava num apartamento com teto rachado, agora estava pisando numa ilha particular com o meu novo marido.

— Essa ilha é sua? — perguntei, ainda na escada.

Andrew tirou os óculos escuros, mãos nos bolsos, camisa de linho clara. Sorriu como se aquilo fosse a coisa mais simples do mundo.

— Inteira. — Estendeu a mão. — E, pelos próximos dois meses, é nossa.

Nossa. A palavra ecoou dentro de mim.

Um carrinho elétrico nos levou por uma estradinha de areia entre palmeiras. A mansão apareceu de repente, casa branca, muito vidro, linhas simples, piscina infinita se juntando com o mar. Atrás, uma parede de floresta.

— Bem-vinda ao único lugar onde eu desligo o mundo — ele disse, abrindo a porta de vidro.

Por dentro, cheiro de mar e sabão floral. Sala ampla, sofá baixo, cozinha aberta, janelas enormes. Caminhei devagar, com medo de esbarrar em alguma coisa.

— Andrew… isso aqui parece cenário de filme.

— Não é cenário, ruivinha. — Ele me olhava como se cada reação valesse ouro. — É a vida que eu quero que você conheça.

O deck de madeira descia até a areia branca. O mar vinha manso, quase tímido. Mais adiante, uma trilha sumia na mata.

— Tem duas cachoeiras aqui perto — ele apontou. — Uma gelada, pra lembrar que você tá viva. Outra termal, pra esquecer de tudo.

— E você? Vem muito aqui?

— Menos do que eu queria, mais do que eu mereço. — Olhou pro mar, depois pra mim. — Mas eu sempre soube que, quando trouxesse alguém, ia ser por algo sério.

Meu peito apertou.

— E eu sou esse “algo sério”?

— Você é a única coisa que eu tenho levado a sério ultimamente.

Deixei as malas no quarto que ele chamou de nosso. Cama enorme, lençóis brancos, janelas abertas pro mar. Tomei um banho demorado, deixei a água levar tudo embora, a mansão dos Storm, o cheiro de cigarro de Ethan. Quando saí, coloquei um vestido branco leve, que colava no corpo com qualquer vento.

Olhei meu reflexo. Eu, Ruby Wilder, estava em lua de mel com um homem que me queria de verdade. E ainda assim, no fundo, o nome que queimava minha garganta era o de outro. Respirei fundo. Uma coisa de cada vez.

Quando voltei pro deck, o sol tava descendo, pintando o céu de laranja e rosa. A mesa estava posta com pratos simples, velas baixas, uma garrafa de vinho. Nada de exagero, tudo bonito.

— Tá lindo — falei.

— Tentei impressionar — ele respondeu, servindo o vinho. — Você passou tempo demais num castelo de gelo. Quero que lembre que calor existe.

— Drama, Andrew — provoquei.

— Verdade — corrigiu, apoiando o cotovelo na mesa. — Eu te quero inteira, Ruby. Não só a parte que sobrou depois do Storm.

Engoli em seco.

— Eu tô tentando… — admiti. — Mas ainda dói mais do que eu deixo aparecer.

— Eu sei. — O olhar dele suavizou. — Por isso a única pressa que eu tenho é de te ver em paz.

Comemos devagar. Ele contou histórias da época em que dormia no sofá do escritório. Eu falei do barulho da geladeira velha na casa do meu pai depois que perdemos tudo, das dezenas de noites em que esperei ouvir a moto de Ethan parando na garagem e não ouvi.

A cada frase, a ilha parecia empurrar Londres um pouco mais pra longe. Pela primeira vez em dois anos, eu percebi que estava há mais de meia hora sem pensar no cheiro do perfume e cigarro dele. Era pouco, mas era um começo.

Depois do jantar, ficamos na beira do deck. O céu estava escuro e cheio de estrelas, sem nenhuma luz de cidade. O vento vinha do mar, colava o vestido no meu corpo, arrepiava a pele.

Senti Andrew se aproximar por trás. O calor dele quase encostando, mas não encostando.

— Não sei se é o vinho ou você — sussurrou perto do meu ouvido — mas estou em perigo.

Um arrepio desceu pela minha coluna.

— Talvez sejam os dois — respondi, tentando brincar, mas a voz saiu baixa demais.

Ele deu a volta e ficou na minha frente. As mãos subiram devagar até o meu rosto. Os polegares fizeram um carinho leve nas minhas bochechas.

— Ruby… posso te beijar? Um beijo de verdade. Não de fachada, não de contrato. Seu.

A imagem do beijo forçado de Ethan na calçada explodiu na minha cabeça. A mão pesada na minha cintura, a boca invadindo a minha, o corpo traidor reagindo. Fechei os olhos um segundo, respirei fundo. Abri de novo. Andrew continuava ali, parado, esperando. Sem puxar. Sem exigir.

— Pode — respondi.

O primeiro toque foi suave. Só os lábios encostando nos meus, quentes, firmes. Depois ele mexeu a boca devagar, encaixando na minha, como se estivesse aprendendo meu ritmo. A mão desceu da minha bochecha pra nuca, trazendo meu rosto um pouquinho mais pra perto. A língua dele pediu passagem com calma. Eu deixei.

O gosto era de vinho, mar e alguma coisa que começava a se chamar Andrew. Meu corpo reagiu com um arrepio inteiro. Um gemido escapou. As mãos dele foram pra minha cintura, me puxando, colando nossos corpos. Senti o volume duro contra meu ventre e o coração disparou.

Ele afastou a boca na mesma hora, encostando a testa na minha.

— Se eu continuar, vou acabar te tomando aqui mesmo — confessou, com a voz rouca. — E eu prometi que com você tudo ia ser diferente.

Minha vontade era mandar ele quebrar a promessa. Mas a menina que passou dois anos ouvindo “não vou te tocar nunca” ainda morava dentro de mim, encolhida num canto.

Ele percebeu.

— A gente para agora — disse, sério. — Dorme comigo abraçada, e só. Eu espero um mês, um ano, a vida toda, se for preciso. Só não quero que você se sinta pressionada.

Olhei pra ele. Pro homem que escreveu num contrato que o meu “não” valia mais que qualquer desejo dele. Pro homem que me colocou numa ilha, mas deixou todas as portas destrancadas.

E eu quis escolher não por medo, mas por vontade.

— Eu não quero parar — falei, sentindo o rosto queimar. — Quero lembrar dessa noite inteira. E quero que seja com você.

Os olhos verdes escureceram.

— Tem certeza, ruivinha?

— Tenho. Tenho toda certeza que meu corpo poderia dar para nós dois.

Ele me pegou no colo e eu enfiei o rosto no pescoço dele, respirando fundo o cheiro de pele limpa e perfume caro. Hoje eu me entre

go, não para o homem que meu coração ama, mas para o homem que respeita minha voz e me deu asas para voar.

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