Capítulo 16 Capítulo 16

Andrew

Mais tarde, na praia, enquanto o sol descia e o céu começava a ficar alaranjado, eu deixei escapar o que estava me incomodando faz tempo.

Estávamos caminhando na beira da água, a espuma molhando os pés dos dois. Ela recolhia conchinhas aleatórias e me mostrava como se fossem tesouros.

— Nunca pensei que ver alguém rindo pudesse me deixar assim — falei, sem planejar.

Ela parou, me olhando.

— Assim como?

Eu respirei fundo.

— Com medo de estragar tudo.

Foi honesto demais até pra mim. Mas não me arrependi. Ruby ficou quieta por uns segundos, olhando pro mar. Quando falou, a voz estava mansa.

— Você não vai estragar tudo, Andrew.

— Como pode ter tanta certeza? — tentei sorrir, mas não saiu muito convincente. — Eu sou um especialista em transformar coisas em pressão. Números, projetos, pessoas...

Ela largou as conchinhas no chão, limpou a areia na saia do vestido leve e veio até mim. Segurou minha mão, entrelaçando os dedos.

— Porque você está tentando — respondeu. — Um homem que só quer usar, não tenta não estragar. Você presta atenção em mim. Me escuta. Pergunta se eu estou bem. Não decide tudo sozinho. Isso, pra mim, já é… muito.

Eu engoli o nó na garganta.

— Eu queria ter te conhecido antes — soltei, sem pensar. — Antes dele.

Ela suspirou, olhando pro horizonte.

— Eu também.

Ficamos um tempo em silêncio, só ouvindo o som das ondas. Depois eu resolvi quebrar aquele clima pesado.

— Vem, ruivinha — puxei pela mão, empolgado. — Você ainda não pagou a promessa do jet-ski.

Os olhos dela arregalaram.

— Não! Eu falei brincando! Andrew, eu não tenho coordenação nem pra atravessar a rua às vezes.

— Exagerada. — ri. — Eu garanto que você não cai.

Meia hora depois, Ruby estava atrás de mim no jet-ski, braços enlaçados na minha cintura, gritando cada vez que eu acelerava.

— Se eu morrer, a culpa é sua! — ela berrava, mas a risada vinha junto, cortando o vento.

— Se você morrer, eu vou junto! — respondi, aumentando um pouco mais a velocidade. — Até que a morte nos separe, ruivinha, lembra?

Ela riu, bateu a mão no meu ombro.

— Idiota!

E eu pensei que, se ser idiota fosse aquilo ali, eu podia ser pro resto da vida.

À noite, depois de tantos banhos de mar, de cachoeira, de sol e riso, o cansaço deveria dominar. Só que, toda vez que ela saía do banheiro com o cabelo úmido, uma camiseta larga minha e nada mais, o sono ia embora.

Naquela noite em especial, o céu estava limpo, estrelado, e o ar tinha aquela temperatura perfeita que não dava preguiça.

— Vem ver isso aqui fora — chamei, encostado no batente da porta da varanda.

Ruby saiu do quarto, os pés nus, a camiseta quase na metade da coxa. Se ela soubesse o que aquilo fazia comigo…

— O que foi? — perguntou, chegando perto.

Eu só apontei pro horizonte. O mar era um espelho escuro cheio de reflexos das estrelas. O som das ondas parecia mais baixo, mais constante.

— Às vezes eu acho que esse lugar foi feito pra você — comentei.

— Pra mim?

— Você chegou aqui tão… tensa, quebrada. — falei devagar, escolhendo as palavras. — Agora olha pra você. Não lembra em nada a mulher que quase desmaiou no Savoy.

Ela encostou no guarda-corpo de madeira, de costas pro mar, me olhando.

— Acho que precisava fugir da minha própria vida por um tempo.

— E eu? — provoquei, chegando mais perto. — Eu tô dentro ou fora dessa fuga?

Ela pensou um pouco, mordeu o lábio.

— Você é a parte boa da bagunça.

Foi o suficiente. Me aproximei, coloquei as mãos na madeira, uma de cada lado do corpo dela, deixando-a entre meus braços.

— Posso? — perguntei, baixo.

Ela assentiu. O beijo dessa vez não teve pressa. Foi lento, profundo, cheio de tudo que a gente ainda não dizia em voz alta. As mãos dela subiram pro meu pescoço, puxando meu cabelo, o corpo se colando ao meu.

Quando eu a levantei um pouco, ela se agarrou em mim sem hesitar. Caminhei com ela no colo até o colchão grande que ficava na varanda, cheio de almofadas, preparado justamente pra noites como aquela.

O resto veio no ritmo que já era nosso.

Nenhuma pressa. Nenhuma cobrança. Só o tempo certo do corpo dela, o meu seguindo, os dois ensinando um ao outro como era ser desejado e desejada de verdade. Entre beijos, suspiros e palavras soltas, eu ouvi o nome dela sair da minha boca mais uma vez como se fosse oração. E o meu nome saindo da dela como se fosse resposta.

Depois, ficamos deitados lado a lado, ainda ofegantes, olhando pro céu.

Ela foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Faz tanto tempo que não penso nele.

Eu já sabia de quem ela estava falando, mas perguntei mesmo assim:

— No Storm?

— É — respondeu, virando o rosto pra mim. — É estranho admitir isso em voz alta, mas… faz tempo mesmo.

Senti um calor diferente no peito. Não era só ego. Era alívio. Era saber que, de alguma forma, eu estava curando algo que nem tinha sido eu quem estragou.

— Então quer dizer que eu estou ganhando — deixei escapar, meio brincando, meio sério.

Ela sorriu, aquele sorriso aberto que eu tinha aprendido a amar em poucos dias.

— Está.

Meu coração deu um salto idiota. Eu me virei de lado, apoiei o corpo sobre um cotovelo e passei a ponta dos dedos pela bochecha dela.

— Eu disse que queria construir algo que o dinheiro não compra — falei, baixo. — Acho que estou indo no caminho certo.

— Está indo muito bem, senhor Sinclair — ela provocou.

— Continua me chamando de Andrew na cama, por favor — respondi, fazendo-a rir.

Ela jogou uma almofada em mim. Eu prendi o pulso dela e voltei a puxá-la pra perto, roubando mais um beijo, depois outro, e mais outro. Não sei quanto tempo ficamos ali, misturando risos, beijos e momentos preciosos.

Só sei que, quando Ruby apagou com a cabeça no meu peito e a mão espalmada sobre meu coração, a última coisa que pensei

antes de dormir foi:

— “Storm, você não tem ideia do que perdeu. E eu não vou deixar nada, nem ninguém, roubar isso de mim.”

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