Capítulo 17 Capítulo 17

Ethan

Eu nunca pensei que uma foto pudesse me destruir. Mas ali estava ela, Ruby, com aquele vestido branco leve, cabelo preso de um jeito simples, sorriso doce… e o braço dele ao redor da cintura dela.

Andrew Sinclair.

O marido.

O substituto.

O homem que estava vivendo o que deveria ser meu.

A imagem surgiu na tela do meu celular porque algum paparazzi desgraçado publicou antes do permitido. Antes do anúncio oficial. Antes que eu estivesse minimamente preparado.

Eu só vi branco.

Branco de fúria. Branco de dor.

Branco como o vestido dela.

A garrafa de uísque na mesa foi a primeira a voar. Bateu na parede e explodiu, o vidro espalhando cheiro de álcool pelo escritório. Depois vieram os papéis, o computador, a cadeira. Eu virei tudo. Nada fazia sentido. Nada aliviava. Nada diminuía a sensação de ter levado uma facada no peito.

Dois meses sem notícias. Dois meses sem uma mensagem, uma ligação, um pedido de ajuda. Dois meses tentando não surtar enquanto meus contatos pelo mundo me diziam a mesma coisa:

— “Não sabemos onde ela está.”

— “Sinclair está escondendo ela.”

— “Parece que estão fora do país.”

Dois meses me transformando em um monstro com nome e sobrenome. E ali estava a prova. Lua de mel. Casamento na praia. Um sorriso que não era meu.

Joguei o celular contra a parede com tanta força que o aparelho se partiu ao meio. Senti o corte na palma da mão, mas não me importei. Sangue escorria, mas era pouco comparado à hemorragia que acontecia dentro de mim.

— Ethan?! — Astrid apareceu na porta, pálida. — O que aconteceu aqui?!

— Fecha a porta. — rosnei.

Ela hesitou.

— Ethan, olha esse lugar! Parece que passou um furacão! Você…

— Fecha a maldita porta. — repeti, mais baixo.

Ela obedeceu.

Astrid sempre viu meu inferno, mas nunca tinha me visto assim. Não desse jeito. Não quebrado. Não… vazio.

— Você está acabando com tudo o que construiu por causa de uma mulher! — ela gritou. — Uma desgraçada que se casou com outro semanas depois de se divorciar de você!

Não levantei o olhar. O sangue pingou no chão.

— Cuidado com o que diz. — avisei, frio.

— Ela te trocou, Ethan! — Astrid veio até mim, a voz aumentando. — Está em lua de mel com o outro! Deve estar na cama dele agora! A maldita virgenzinha não deve mais ser virgem há muito tempo!

Foi a frase final. O estopim. Eu avancei.

Não lembro de ter pensado. Não lembro de ter respirado. Só lembro do som do copo que eu lancei contra a parede e do corpo dela encolhendo quando eu cheguei perto.

— Não fala dela. — minha voz saiu baixa, rouca, perigosa. — Nem pra me provocar. Nem pra respirar.

— Eu te dei tudo! — ela cuspiu as palavras, chorando de raiva. — E você joga fora por causa dessa vadia que te humilhou!

Um riso seco escapou de mim. Do jeito torto, ferido. Aquele que sai quando a pessoa já está no fundo do buraco.

— É isso que te irrita, Astrid? — perguntei. — Que eu tenha escolhido amar alguém que nunca me quis pelo que eu podia dar? Alguém que me viu como homem, não como moeda de troca? Alguém que me amou da forma mais pura quando eu não merecia ser amado?

Ela levantou a mão e me deu um tapa. A cabeça virou com a força. Eu fechei os olhos. Segurei o pulso dela.

— Acabou. — falei, com calma assassina. — Some da minha vida.

— Você está louco por causa dela! — ela gritou. — Você vai destruir tudo!

— Já destruí. — sussurrei.

E joguei seu braço de volta para ela. Astrid saiu batendo a porta, e fiquei sozinho no caos que eu mesmo criei. Me encolhi na cadeira. O braço latejava, mas a dor mais forte era outra.

Ruby.

A imagem dela sorrindo no altar. A forma como Andrew a segurava. A felicidade estampada no rosto dela… algo que eu nunca soube dar.

Acendi um cigarro. A fumaça me ajudava a fingir que meu peito não estava pegando fogo.

— “Você pode casar com quem quiser, Ruby” — pensei. — “Mas você não apaga dois anos assim.”

Dois anos em que ela tentou tudo.

Dois anos em que eu fingi não ver.

Dois anos em que ela se aproximou e eu… afastei.

E agora estava ali. Nos braços de outro. Recebendo o toque de outro. Na cama de outro. Meu punho bateu na mesa. O sangue voltou a escorrer.

Peguei a foto amassada no chão. Aquela imagem miserável de felicidade alheia, a que eu mandei tirar a pouco tempo. Eu passei o dedo sobre o rosto dela.

— Você ainda é minha ruína. — confessei, baixo. — Mas eu vou te achar.

Me levantei e caminhei até a janela.

A cidade lá embaixo parecia pequena. Fragilizada. Eu, por outro lado, parecia gigante, mas não no bom sentido. Gigante o suficiente pra destruir o mundo, ou morrer tentando.

— Você pode se esconder até no fim do mundo… — falei, encarando o horizonte. — Mas eu ainda vou te encontrar, Ruby.

A pontinha do cigarro queimou até meus dedos. Não senti. A dor verdadeira estava em outro lugar. E a promessa, agora, estava feita. Eu ia achá-la. Nem que fosse a última coisa que eu fizesse.

Quando o silêncio volta a dominar o escritório destruído, escuto passos firmes vindo pelo corredor. Não é Astrid, ela sabe que não pode voltar. A respiração é diferente, pesada, calculada. Só um homem anda desse jeito dentro do meu território sem pedir permissão.

Bartolomeu.

Meu conselheiro. Meu braço direito nas sombras. O único que tem coragem de falar o que ninguém mais ousa. Ele pára na porta aberta, olha a destruição ao redor e solta um suspiro lento, cansado.

— Vai me dizer que foi um acidente? — pergunta, apoiando a mão no batente.

— Não começa. — aviso.

Bart entra, fecha a porta e pisa nos fragmentos de vidro com a maior calma do mundo. Ele já viu esse cenário antes. Não com essa intensidade, não com tantos destroços que nem lembram quem eu era… mas ele entende.

— Ethan… — ele começa, mas a voz falha. — Você está deixando esse problema com uma mulher atrapalhar negócios da máfia. Isso não pode acontecer.

Meu maxilar trava.

“Problema com uma mulher.”

As palavras cortam como faca.

— Cuidado com as palavras, Bart. — digo baixo.

Ele ignora.

— Não é só um problema, é um desastre. Homens nossos estão cheios de dúvidas, seus parceiros internacionais estão reclamando da sua ausência. Você sumiu por dois meses, Ethan. Dois meses! Sem explicações. E tudo por causa dessa ruiva.

Meu sangue ferve. Antes de conseguir conter, minha mão fecha em punho e eu acerto a janela com toda força.

O vidro racha em uma teia gigante, estalando como se fosse partir ao meio. Bart dá um passo atrás, não de medo, de alerta. O corte abre mais minha palma e o sangue volta a cair.

— Não fale dela desse jeito. — repito, mortal.

Bartolomeu respira fundo, encara meus olhos como quem encara um animal selvagem prestes a atacar.

— Você nunca esteve tão fraco, Ethan — diz com uma sinceridade que ele nunca usaria se não fosse necessário. — Nem quando quase mataram seu pai. Nem quando você assumiu a máfia e matou metade dos traidores em uma noite. Isso aqui… isso é instabilidade. Isso é amor cego.

Minha risada é baixa, sombria, quase um rosnado.

— Fraco? — repito. — Você está vendo errado, Bart. Eu nunca estive tão perigoso.

Ele franze o cenho.

— Perigoso porque está vulnerável.

— Perigoso porque estou a um passo de matar alguém só pra aliviar meu estresse. — digo sem piscar. — E você sabe que não estou exagerando.

Bart passa a mão pelo rosto, preocupado.

— Tente raciocinar. Seus inimigos vão aproveitar esse momento. Eles vão atacar. Vão tentar tirar tudo de você.

Dou de ombros. Sem emoção.

— Eles podem tentar. — falo. — Mas o tiro no meio da testa é certo.

Bart aperta os olhos, como se procurasse um traço do velho Ethan ali dentro.

— Você acha que vai conseguir comandar esse império enquanto estiver assim?

Me viro para ele e digo a primeira verdade que não admiti nem para mim:

— Só vou conseguir me concentrar na máfia quando Ruby estiver na minha cama.

— Ethan…

— Sem fugir. Sem desaparecer. Sem me largar outra vez.

Bartolomeu engole seco

. Ele vê. Ele entende. E, infelizmente… ele sabe que não tem como me parar.

Eu já virei o tipo de homem que mata por amor.

E não há nada mais perigoso do que isso.

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