Capítulo 18 Capítulo 18
Ruby
Eu sempre ouvi dizer que felicidade demais dá medo. Que quando a vida fica boa demais, a gente automaticamente começa a imaginar o momento em que tudo vai desmoronar.
Eu nunca tinha sentido isso na pele… até a ilha.
Dois meses.
Dois meses vivendo dentro de um paraíso que parecia ter sido desenhado exclusivamente para mim e para Andrew.
A água cristalina, o cheiro das frutas maduras, as noites de brisa quente e o jeito como ele me olhava… como se eu fosse a única coisa viva em toda a Terra.
Eu nunca fui tão amada.
Nunca fui tão desejada.
Nunca fui tão livre.
E justamente por isso… eu tinha medo de piscar e perder tudo.
Naquela manhã específica, acordei com o estômago embrulhado. Abri os olhos devagar, esperando sentir a brisa fresca que sempre entrava pela varanda, mas foi o enjoo que me dominou primeiro.
Coloquei a mão na boca, fechei os olhos com força.
— De novo não… — sussurrei para mim mesma.
Era o terceiro dia seguido acordando assim. O calor da ilha, eu pensei na primeira vez. Um vinho que não caiu bem, eu pensei na segunda. Mas agora, nem eu conseguia me enganar.
Levantei devagar e corri para o banheiro. Vomitei o pouco que tinha no estômago. Depois me sentei no chão frio de mármore, abraçando as pernas, tentando controlar a respiração.
Andrew, como sempre, tinha acordado antes de mim. Provavelmente estava na praia correndo ou nadando.
— Ruby?
Fechei os olhos. Droga. A porta se abriu e ele apareceu com o peito suado, respiração acelerada, cabelos molhados. Deve ter corrido de volta assim que percebeu que eu não estava na cama.
— Você está pálida… — ele se ajoelhou na minha frente. — Está tudo bem?
— Estou — respondi rápido demais. — Só acho que exagerei em alguma coisa ontem.
Andrew arqueou a sobrancelha.
— Ruby… a gente comeu frutas, só coisas leves. E eu vi você comer menos do que uma criança.
Droga. Ele sempre percebe tudo em mim.
— Acho que é só calor.
— E por que você está tremendo? — ele perguntou, passando a mão no meu rosto.
Eu virei o rosto, fugindo do toque. Não porque eu não queria sentir, Deus, eu sempre quero sentir, mas porque eu sabia que se ele me tocasse daquele jeito, daquele jeito cheio de amor, eu ia desmoronar e contar tudo.
— Eu não estou tremendo — sussurrei.
Ele riu, um riso suave, mas carregado de preocupação.
— Você mente muito mal, ruivinha.
Meia hora depois, ele já tinha decidido sozinho:
— Vamos chamar o Dr. Hazim. — anunciou, fechando a porta da varanda. — Ele vem a cada duas semanas, mas vai vir hoje.
— Andrew, não precisa…
— Precisa — ele me cortou, firme, mas carinhoso. — Você é minha esposa. Se algo está errado com você, está errado comigo também.
Essa frase… me desmontou por dentro.
Eu apenas assenti.
O consultório improvisado ficava no térreo da mansão, em uma sala clara com cheiro de álcool e janelas grandes que davam para o mar. O médico, um senhor árabe de sorriso gentil, me cumprimentou como sempre.
— Senhora Sinclair, ouvi dizer que não está se sentindo muito bem.
— Deve ser só o calor…
Ele sorriu, como se já soubesse que eu estava tentando fugir.
— Vamos ver.
Foram perguntas básicas no começo.
— Tontura?
— Sim.
— Enjoo?
— Sim.
— Sono excessivo?
— Muito.
— Alterações no apetite?
— Algumas.
Depois uma breve avaliação, um exame simples, e por fim um ultrassom para tirar qualquer dúvida. Eu estava deitada, gel frio na barriga, olhando o teto.
— Não precisa ficar nervosa — o médico disse enquanto ajustava o aparelho. — É completamente normal.
— Normal? — minha voz saiu fina.
— Sim. Para mulheres grávidas.
Meu coração parou.
Literalmente parou.
Eu virei a cabeça devagar.
— O quê?
— Parabéns, senhora Sinclair — ele repetiu com um sorriso tranquilo. — Você está grávida. Pelos sintomas e pela última menstruação que relatou, gestação de oito a nove semanas. Quase dois meses.
Dois meses.
Exatamente o tempo da lua de mel.
Meu corpo inteiro congelou. Eu senti o mundo rodar, mas não de medo, de choque.
— Dois meses… — repeti baixinho.
— Sim. A concepção provavelmente aconteceu na primeira semana aqui na ilha. É comum acontecer em viagens, longe do estresse…
Eu não ouvi o resto. Minha mente ficou branca. Eu estava grávida. Eu. A mulher que sempre achou que nunca mereceria uma família. A mulher que sempre achou que ninguém a amaria o suficiente para formar uma com ela.
E o pai era Andrew. O homem que tinha me amado desde o primeiro toque. O homem que estava me curando sem perceber.
Eu saí do consultório com as pernas tremendo. Quando a porta se abriu, vi Andrew levantando da cadeira imediatamente. Ele veio até mim.
— O que ele disse? — os olhos dele buscavam os meus, tentando adivinhar.
Eu abri a boca… e menti.
— Disse que eu preciso descansar mais. Só isso.
O alívio dele foi visível. E foi isso que me destruiu. Eu não consegui dizer. Não naquele momento.
Porque eu vi, por um segundo, o medo dele. Aquela sombra de responsabilidade, de pressão, de expectativa que ele tentava esconder atrás dos sorrisos e do toque suave.
E eu… eu queria mais alguns dias do céu antes de entregar o mundo real nas mãos dele.
Naquela noite, ele saiu do banho e encontrou-me sentada na beira da cama, abraçada aos joelhos.
— Ruby… — ele se aproximou, devagar. — O que está acontecendo com você?
— Nada. Só cansaço.
— Cansaço não faz seus olhos ficarem desse jeito — ele tocou meu rosto. — Você está escondendo algo.
Minha garganta fechou.
— Não estou.
Ele se sentou atrás de mim e me puxou para o colo, envolvendo meus ombros com os braços.
— Então dorme aqui. — sussurrou contra meu pescoço. — Eu cuido de você.
Aquela voz… aquele toque… eu fechei os olhos e chorei silenciosamente contra o peito dele. Ele não percebeu. Ou percebeu… mas não disse nada.
E enquanto ele me embalava com carinho, eu repetia para mim mesma, como uma promessa inútil:
— “Me perdoa por esconder, Andrew. Eu só quero mais um pouco desse céu antes da tempestade.”
Adormeço no peito de Andrew, sentindo o calor dele envolver meu corpo inteiro. Mas, pela primeira vez desde que chegamos à ilha, dormir não me traz descanso. Traz algo que eu não queria ter. Algo que eu lutei tanto para enterrar.
Eu sonho.
E o sonho é tão real que minha mente não sabe separar lembrança de medo.
Abro os olhos e não estou mais na ilha. Não estou mais na cama de madeira clara, com cheiro de maresia e vento quente. Estou em um quarto escuro, amplo, com paredes cinzas e cortinas pesadas. Um quarto que eu reconheceria mesmo com os olhos vendados.
É o quarto dele.
O colchão afunda ao meu lado e eu sinto um calor familiar. Quando viro o rosto, meu coração erra o próprio ritmo.
Ethan está deitado ali. Sem camisa. Com o olhar preso em mim.
— Até que enfim acordou — ele diz, sorrindo daquele jeito que sempre me deixava sem ar. — Estava demorando.
— O que… o que você está fazendo aqui? — minha voz sai trêmula, quase infantil.
Ele se aproxima um pouco. Só um pouco. Mas isso é suficiente para meu corpo inteiro prender a respiração.
— Estou feliz, Ruby. — sua voz fica baixa, rouca, quase carinhosa. — A gente vai ter um filho. Nosso filho.
Eu sinto meu estômago virar. Dou um passo para trás na cama e balanço a cabeça desesperada.
— Não. Não é seu. Não é. O bebê é do Andrew. Eu… eu sou casada com ele.
Ethan ri. Não um riso leve. Um riso sombrio, perigoso. Ele se inclina sobre mim tão rápido que parece impossível, quase sobrenatural. Segura meu rosto entre as mãos e cola sua boca na minha.
O beijo é bruto, desesperado, possessivo. Sinto o gosto dele, quente, amargo, viciante. Sinto a língua dele invadindo minha boca como se fosse um direito. E, no sonho, meu corpo reage. Meu corpo o conhece.
— Só existe um homem no seu coração — ele sussurra contra meus lábios. — E só existe um homem que vai ser pai dos seus filhos. Eu, Ruby. Sempre fui eu. Eu sou o único que nunca vai embora.
Eu tento fugir, tento empurrá-lo, mas o peso dele me prende, o cheiro dele me prende, o beijo dele me prende. É sufocante. É real demais. É errado demais.
E então acordo, com um grito preso na garganta.
Me sento de súbito e estou chorando, o peito apertado. Andrew se assusta, me abraça pelos ombros e me envolve inteiro.
— Ei… ei, calma. — ele fala no meu ouvido. — Foi só um pesadelo. Eu estou aqui.
Eu encosto o rosto no peito dele, soluçando baixo. Ele afaga meu cabelo com calma e diz de novo, pela segunda vez desde que desembarcamos na ilha:
— Enquanto meu coração estiver batendo, eu vou estar aqui.
A frase ecoa dentro de mim. A mesma frase. Duas vezes.
E, mesmo tomada pelo pânico e pelas lágrimas, eu sinto algo estranho. Algo que não consigo explicar. Algo que eu ainda não es
tou pronta para enfrentar.
Mas Andrew continua ali, segurando meus pedaços como se fossem dele. Eu me agarro a isso. Ao presente. E tento, pela milésima vez, afastar o passado que insiste em me perseguir.
