Capítulo 19 Capítulo 19
Ethan
Londres nunca pareceu tão cinza quanto nessas últimas semanas. As ruas continuam cheias, o trânsito continua infernal, o barulho continua o mesmo. Mas, pra mim, tudo perdeu a cor. Tudo perdeu sentido.
Desde que Ruby sumiu, desde que aquele casamento absurdo apareceu estampado nas manchetes, eu virei uma sombra de mim mesmo.
Viajei como um condenado. Dubai, Ilha de Creta, Itália, Suíça… segui pistas falsas, paguei informantes idiotas, ameacei quem precisava ser ameaçado. Nada. Nenhuma maldita pista da mulher que me deixou sem nem olhar pra trás.
E hoje, enfim, alguém fala.
O informante, um verme com dentes tortos, fica tremendo na frente do meu carro enquanto entrega um envelope.
— O senhor pediu qualquer movimentação da família Sinclair… é… eu consegui isso.
Pego o envelope e folheio as fotos: Andrew Sinclair. Ruby. Uma lista de compromissos. E, finalmente… um evento.
Uma gala de tecnologia beneficente. E Ruby estará lá. Meu maxilar estala. Finalmente. Jogo o maço de dinheiro no peito dele.
— Se isso estiver errado, eu volto. E você não vai ter boca pra mentir de novo.
Ele nem tenta responder. Fugiria correndo se eu não estivesse parado no meio da rua.
Dirijo de volta para Londres com um único pensamento na cabeça: ela vai voltar. E eu vou estar lá quando isso acontecer.
Dois dias depois, estou caminhando pelo centro quando sinto um perfume que passei a detestar. Um perfume doce demais. Enjoativo demais. Astrid.
Ela surge da esquina como se estivesse prestes a encenar algo dramático.
— Ethan! — chama, se aproximando rápido.
Não paro de andar. Não desvio o olhar da rua movimentada.
— Precisamos conversar — ela insiste, segurando meu braço.
Eu a encaro sem qualquer emoção.
— Tira a mão antes que eu arranque.
Ela solta, ofendida.
— Você ainda está se humilhando por ela? Eu estou aqui, Ethan. Sempre estive. É a mim que você sempre quis, lembra?
Dou uma risada curta. Sem humor. Sem alma.
— Eu vou buscar o que é meu.
— Ethan…
— Você foi um erro, Astrid. Um erro que eu corrigi tarde demais.
Ela tenta vir atrás de mim, mas um único olhar meu faz com que ela recue. Eu realmente não tenho tempo pra lidar com víboras hoje.
O evento acontece no alto de um prédio espelhado, daqueles que só gente rica considera “acessível”. Chego antes de todos. Quero ver quem entra, quem sai, quem coloca a mão em Ruby sem permissão. Estou ali por ela. Só por ela.
Quando a limusine preta dos Sinclair estaciona lá embaixo, meu coração dá um soco dentro do peito.
Ela sai primeiro.
E eu esqueço até de respirar.
Ruby está diferente. Mais bonita. Mais viva. Tem um brilho no olhar que nunca teve comigo. O cabelo ruivo preso de um jeito elegante, a maquiagem suave, o vestido vermelho que abraça o corpo dela de uma forma que faz meu sangue ferver.
Andrew vem atrás dela, com aquela postura de príncipe europeu que eu odeio. Eles descem de mãos dadas. E eu quase mato alguém.
Fico observando de longe, no andar inferior, escondido entre colunas. Ruby sorri. Sorri. Meu peito aperta, como se alguém estivesse me arrancando uma costela de dentro pra fora.
Eu espero. Espero como um predador. Até que ela se afasta, sozinha, para o corredor que leva aos banheiros.
É isso.
Eu vou atrás.
Ruby caminha com calma, olhando a decoração nas paredes. A luz do corredor é mais fraca, amarelada. O som da festa fica distante.
Perfeito.
Aproximo-me por trás e seguro o braço dela. Ela se assusta, vira rápido.
— Me solta, Ethan — sussurra, e só o som do meu nome na boca dela já me desmonta.
Mas eu finjo frieza.
— Você sumiu por dois meses.
Ela tenta puxar o braço.
— Eu me casei. Sai em lua de mel. Está feito.
Sinto o estômago virar. Casou. Claro que casou. Mas ouvir assim, jogado na minha cara… me fere mais do que uma bala no meio do peito.
— Você acha mesmo que esse homem te ama? — pergunto, baixo. — Ele só te comprou. Do mesmo jeito que eu fiz.
Ela arregala os olhos, ofendida.
— Você não sabe nada sobre ele! Ele nunca me humilhou, Ethan! Nunca me tratou como sombra! Quando deveria ser meu marido, você estava na cama de outra!
— Eu sou seu, estou rendido, de joelhos. — me aproximo — Eu posso ter errado com você antes, mas não vou errar agora.
— Não se atreva.
Mas eu me atrevo. Porque eu sou um homem que sempre toma.
Puxo a cintura dela e a beijo. Não é um beijo calmo, nem gentil. É um beijo roubado, desesperado, cheio de raiva e saudade. Sinto o corpo dela tremer. Sinto a boca dela tentando fugir. Depois cedendo. Depois fugindo de novo.
A mão dela bate no meu peito.
— Ethan… para. Por favor. — ela pede, com a voz implorando.
Eu encosto minha testa na dela.
— Você ainda sente. Eu sei.
— Me solta…
— Você ainda me ama.
Ela empurra meu peito e escapole. Sai quase correndo, o vestido dela balançando de um jeito que me dói.
Volto para o salão minutos depois, no segundo andar, onde posso observar de cima. Andrew percebe Ruby agitada e segura o rosto dela com preocupação.
— Ele te procurou? — pergunta, tenso.
Consigo ler nos lábios dela:
— “Ele se aproximou.”
O idiota do Sinclair respira fundo, tentando manter a pose de bom moço.
— Eu não vou brigar com fantasmas, Ruby. Mas se ele se aproximar de novo, eu mesmo vou atrás dele.
Eu rio. Alto o bastante pra duas mulheres ao meu lado olharem assustadas.
Andrew se vira e nossos olhos se encontram. Ele tenta me intimidar. Tenta me bloquear quando Ruby olha pra mim novamente.
Ele passa o corpo na frente dela, cobrindo-a inteira da minha vista. É aí que eu sinto o sangue ferver. Meu punho fecha. Minha respiração pesa. A vontade de matar renasce com força total.
Não vou avançar nele agora. Ainda não. Mas ele amarrou a própria sentença no momento em que tocou nela. Eu abaixo a cabeça, sorrindo de lado.
— “Você quer guerra, Sinclair?” — Eu penso. — “Então que venha.”
Porque por Ruby… eu volto a matar rindo.
Ruby e Andrew já tinham ido embora quando entro no carro e fico encarando o volante. Minha cabeça está um caos. Meu corpo está um caos. E o número novo dela vibra dentro do envelope no banco ao lado.
Eu disco sem pensar duas vezes.
Ela atende no terceiro toque.
— “O que você quer, Ethan?” — ela pergunta, a voz cansada, mas firme.
Encosto a cabeça no encosto do banco e sorrio devagar.
— Por quantas noites você sonha comigo, ruiva? — Ela fica em silêncio. Aproveito. — Sonha comigo na sua cama… sonha com a minha boca beijando cada centímetro do seu corpo. Quantas, Ruby?
Ela respira fundo, indignada.
— “Como conseguiu meu número?”
— Com a quantia certa, não há nada no mundo que eu não consiga. — respondo, simples.
Ela dá uma risada fria, que me corta.
— “Então, você está errado. Porque não me tem. E não vai me ter nunca mais.”
Fecho a mão com força no volante.
— Vai ser só uma questão de tempo, ruiva.
— “Vai pro inferno, Ethan.”
Sorrio, sombrio, sincero.
— Eu já reino nele desde que você me trocou pelo Sinclair.
Ela desliga. Tent
o ligar de novo. Chamada bloqueada. Eu olho o celular, dou um sorriso torto.
— Eu compro quantos chips forem necessários, Ruby. Você não vai me esquecer. Não vou deixar.
