Capítulo 21 Capítulo 21

Ruby

Eu estava dobrando algumas roupas quando o celular de Andrew vibrou na mesa. Normalmente eu jamais encostaria, ele sempre foi transparente comigo, mas a notificação apareceu com a tela ainda acesa, e meu coração parou.

Astrid Laurent: “Almoço de negócios confirmado.”

Meu estômago virou gelo.

Aquela mulher era um fantasma que eu nunca tinha conseguido enterrar. E agora estava mandando mensagem para o meu marido como se fossem velhos conhecidos.

Fiquei parada ali por longos segundos, a respiração descompassada, tentando entender se aquilo era real ou se eu estava imaginando. Não estava. Ela estava de volta. E perto demais.

Quando Andrew entrou no quarto, eu ainda segurava o celular dele nas mãos.

— Ruby? — ele franziu o cenho. — Aconteceu alguma coisa?

Eu virei a tela para ele, sem conseguir disfarçar a tensão.

— Por que você vai se encontrar com Astrid Laurent?

Ele suspirou, passou a mão no cabelo e se aproximou devagar.

— Eu sabia que você ficaria assim.

— “Assim” como? — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Essa mulher destrói tudo o que toca, Andrew! Absolutamente tudo! Ela destruiu meu outro casamento, quase destruiu a minha sanidade! E agora você vai… almoçar com ela?

Ele não perdeu a calma. Nunca perde, é gentil e atencioso. Deu mais um passo e segurou meu queixo com firmeza, fazendo meu olhar encontrar o dele.

— Ruby, eu estou me encontrando com empresas que têm relações comerciais com a Sinclair Tech. Ela vai estar lá porque é parte do grupo de investimentos, não porque eu quero. E outra coisa…

O toque dele ficou mais firme.

— Eu não vou deixar que ela toque em você. Assim como eu jamais cairia em qualquer cena dela.

Aquela frase deveria ter me acalmado. Talvez até tivesse, se não fosse pelo fato de que a minha cabeça estava dividida. Uma parte ansiava por segurança. A outra… ainda queimava com o beijo de Ethan, o gosto dele que eu queria esquecer e não conseguia.

A noite terminou quieta, ele lendo no sofá e eu fingindo que via TV. Mas a verdade era que minha mente estava longe, na ameaça que tinha voltado e no homem que eu não conseguia apagar.

Dois dias depois, decidi sair sozinha um pouco. Andrew tinha reuniões, e eu precisava respirar fora da mansão, precisava de qualquer coisa que não envolvesse casamento, gravidez, contratos, vigilância e fantasmas.

Escolhi uma exposição de arte no centro. Lugar tranquilo, iluminação baixa, gente andando devagar e murmurando sobre significados profundos que eu não tinha paciência pra decifrar.

Eu estava parada diante de uma pintura enorme, vermelha e preta, quando senti uma presença atrás de mim.

Antes de qualquer movimento, ouvi a voz… dele.

— Saudades, ruiva.

Meu corpo inteiro travou. Fechei os olhos por um segundo, como se isso fosse impedir o mundo de desabar outra vez. Quando virei, ele estava lá.

Ethan.

Casaco escuro, barba por fazer, aquele olhar cinza que sempre parecia um aviso do destino. Eu queria me teletransportar para a segura mansão do meu marido para fugir do meu ex-marido.

— Você está me seguindo? — consegui perguntar, mesmo com o coração batendo forte demais.

Ele deu um meio sorriso, cínico e devastador.

— Só cuidando de você, ruiva.

— Eu não preciso que você cuide de mim.

— Claro que precisa. — Ele deu um passo à frente, a sombra dele engolindo a minha. — Precisa que alguém te lembre o que é sentir.

Revirei os olhos, tentei sair, tentei simplesmente passar por ele, mas a mão dele segurou meu pulso. Não com força. Mas com determinação.

— Você vai me ouvir. — ele disse, a voz baixa, rouca, perigosa.

— Ethan, pára. — tentei afastar a mão dele. — Eu não tenho nada pra ouvir de você.

— Eu sonho com você todas as noites. — ele sussurrou, e aquele tom me cortou como faca. — E acordo amaldiçoando o dia em que te deixei ir.

Meu peito apertou. Ódio, saudade, alívio, tudo embolado.

— Ethan… por favor…

Ele ignorou. Aproximou-se devagar, a mão subindo pela minha nuca, como se lembrasse exatamente como meu corpo reagia.

— Não faz isso comigo… de novo não — sussurrei.

— Então me beija e eu paro.

— Eu não vou bei…

Mas ele não esperou.

O beijo veio como um impacto. Raivoso, urgente, desesperado. A boca dele esmagou a minha, os dedos apertando minha nuca enquanto o corpo dele colava no meu. Ethan sempre beijava como quem reivindicava território, e naquele instante eu odiei o quanto ainda lembrava disso.

O gosto dele era exatamente como nos meus piores segredos: quente, intenso, viciante. Meu corpo respondeu antes que minha mente gritasse para parar. Minhas mãos empurraram o peito dele, mas ele aprofundou o beijo, língua roçando a minha, fazendo meu joelho fraquejar.

E eu odiei que meu coração disparou. Odiei que meu corpo tremeu. Odiei que uma parte de mim tinha sentido falta disso. Quando consegui afastá-lo, meus olhos estavam marejados.

— Você é tóxico, Ethan. — minha voz saiu quebrada. — E eu estou casada.

Ele sorriu torto, arrogante e quebrado ao mesmo tempo.

— Casada, mas tremendo nas minhas mãos.

— Pará…

— Quero te deixar ciente, Ruby. — ele rosnou, aproximando o rosto do meu de novo. — Cada beijo que eu roubo te deixa mais um passo na minha direção. Eu não vou parar até conseguir o que quero… você.

Eu virei o rosto e saí quase correndo. A arte, o ambiente, a cidade, tudo parecia pequeno perto do caos dentro de mim.

Quando cheguei em casa, Andrew estava parado na porta, braços cruzados, expressão tensa.

— Onde você estava? — perguntou.

— Em uma exposição de arte.

— Sozinha?

— Sim.

Ele me olhou como quem vê algo que não quer acreditar. Mas respirou fundo, controlando o próprio ciúme.

Aproximou-se devagar, tocou meu ombro, depois minha testa com um beijo leve.

— Se um dia ele te procurar de novo… — disse com a voz baixa e firme — me conta. Eu não quero perder você pro passado.

Assenti sem dizer nada. Mas a verdade era brutal… Ethan não ia parar. Ele estava por perto. Ele estava me seguindo. Ele estava me beijando. E eu… eu odiava admitir que ainda não sabia como fugir dele.

Porque uma parte de mim ainda

batia no ritmo do homem que mais me destruiu. E isso me apavorava mais do que qualquer ameaça que Astrid pudesse fazer.

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