Capítulo 22 Capítulo 22
Astrid
Eu sempre soube que homens poderosos têm dois pontos fracos: o ego e o coração. E Ethan Storm, meu querido inferno particular, tem os dois quebrados por causa de uma única pessoa.
Ruby Wilder.
Agora Sinclair.
Ridículo.
Depois que ele me expulsou da mansão como se eu fosse descartável, eu poderia ter chorado, me trancado em Paris, gasto milhões em joias e voltado como se nada tivesse acontecido. Mas não. Eu não perco. Eu me reorganizo.
Ele acha que acabou comigo. Mas se esqueceu de uma coisa, eu ainda sei onde apertar. O caminho mais rápido até ele agora não é a cama, é o orgulho. E quem fere o orgulho de um homem como Ethan é a mulher que ele diz amar.
Então eu fui até o novo brinquedinho dela.
Andrew Sinclair.
Demorou menos do que eu esperava para entrar no círculo corporativo dele. Dinheiro abre portas, mas o sobrenome Laurent abre mais rápido. Bastou aceitar um convite certo, aparecer com um vestido na cor certa e fazer as perguntas financeiras que meia sala não sabia formular que, de repente, eu já era “a francesa interessante”.
Na primeira reunião cara a cara, ele se aproximou com aquele sorriso de homem treinado para ganhar.
Ele riu, educado. Não é burro, eu sei. Mas homens assim sempre acreditam que estão no controle. Eu deixo.
Não precisei de muito tempo para entender a dinâmica, ele é brilhante, frio com o mundo, quente com ela. E isso me irrita de um jeito absurdo. Porque eu sei como Ethan olhava para mim. Sei como era ter aquele tipo de poder nas mãos.
E agora ele olha para outra assim.
No segundo dia, tivemos uma reunião com investidores. Sala de vidro, Londres lá embaixo, gravatas caras, discursos repetidos. Um dos homens perguntou sobre riscos de imagem no casamento com Ruby. Eu só precisei dar o empurrão.
Cruzei as pernas devagar, deixei o salto bater leve no chão e soltei:
— Ela é a ex-mulher do Storm, não é? — perguntei, como quem fala de fofoca de revista. — Já imaginaram se ele resolve cobrar o que acha que ainda é dele?
Silêncio absoluto.
Foi delicioso.
Alguns se entreolharam. Outros anotaram no bloco.
Andrew fingiu não se abalar, mas eu vi o maxilar travar. Plantei a semente. Deixei que a água do medo fizesse o resto. Horas depois, eu já tinha o que queria.
— “Ruby Sinclair, ex-esposa do misterioso Ethan Storm, sob suspeita de escândalo financeiro.”
A manchete explodiu nos blogs de negócios e fofoca ao mesmo tempo. Eu sentei no sofá, taça de vinho na mão, e abri o painel das câmeras que eu mesma mandei instalar na mansão Sinclair, ninguém nunca verifica direito quem entra em empresas de segurança, é engraçado.
Vi Ruby no sofá da sala, celular na mão, rosto branco.
— Isso não pode estar acontecendo… — ela falou, tremendo.
Andrew entrou logo depois, o tablet com a mesma manchete aberta.
— Ela está tentando me destruir! — ela gritou, chorando.
Meu sorriso se alargou. Adoro quando me reconhecem pela competência.
Andrew se aproximou dela, sério, com aquela pose de cavaleiro perfeito.
— Então vamos destruir ela primeiro — ele disse, com a voz firme.
Ah, Andrew… você não faz ideia de onde está se metendo.
Desliguei as imagens por um momento. Eu não precisava ver a parte em que ele abraça, consola e promete o mundo. Isso me irrita. Me lembra que Ethan nunca me olhou daquele jeito. Não por amor, pelo menos.
E era exatamente por isso que Ruby precisava ser esmagada.
Peguei o celular e liguei para ele. Meu erro mais delicioso. Minha obsessão mais antiga. Ethan atendeu na terceira chamada, voz áspera.
— “O que você quer, Astrid?”
— Pensei que não iria atender — falei, doce. — Você anda fugindo de mim.
— “Eu não quero te encontrar, é simples.”
Sorri, mexendo no anel de diamante no meu dedo.
— Claro que quer. Você só está tentando me convencer do contrário. E a si mesmo.
Ele ficou quieto. Ouvi o som do isqueiro. Ele sempre fuma quando está irritado ou pensando demais.
— “Diz logo o que você quer.”
— Você, amor, só você.
Ele não respondeu. Ethan desligou depois disso.
Mais tarde, decidi visitá-lo. Sim, fisicamente. Eu gosto de ver de perto o que estou destruindo.
Entrei no escritório sem avisar. Um dos capangas tentou me barrar, mas eu joguei o sobrenome na cara dele e ele saiu do caminho. Homens são tão previsíveis.
Ethan estava de costas, encarando a janela, ombros tensos. A energia dele estava diferente, mais pesada. Eu quase desejei abraçá-lo por um segundo… quase.
— Ela vai cair sozinha — eu disse, fechando a porta atrás de mim. — Só precisa de um empurrão.
Ele se virou. Olhos cinza-gelo, escuros como tempestade.
— E o que você ganha com isso, Astrid?
Dei um passo à frente, devagar.
— Eu já disse. Você. Só você. Na minha cama, na minha vida, no meu inferno.
Ele riu sem humor.
— Eu não sou prêmio.
— Não. — Inclinei a cabeça, analisando cada traço do rosto dele. — Você é castigo. E é o meu favorito.
Me aproximar dele sempre foi perigoso. E viciante. Eu senti o cheiro de cigarro, uísque e dor. A combinação perfeita.
Então encurtei a distância e o beijei.
Não um beijo doce. Um beijo de quem conhece cada canto daquela boca. Pressionei os lábios nos dele, puxei o pescoço dele com a mão. Por um segundo, senti o corpo dele endurecer… e quase acreditei que ele ia ceder.
Mas ele me empurrou com força.
— Nunca mais faça isso — ele rosnou. — Eu não quero você.
Ouvi as palavras. Ignorei o conteúdo.
— Claro que não quer — respondi, arrumando o cabelo, mantendo a postura. — Continue repetindo. Uma hora você acredita.
Ele se aproximou, olhos queimando.
— Você melhor do que ninguém sabe que quando deixo algo ou alguém é definitivo… e você não é especial, Astrid.
Doeu.
Um corte limpo.
Mas eu aprendi a transformar dor em foco.
Mesmo assim, fiz o que sempre faço quando sinto o orgulho sangrar: sorri.
— Engraçado… — falei baixo. — Porque eu nunca vi você tão obcecado por alguém quanto está agora por ela. Isso não é amor, Ethan. É fraqueza.
Ele fechou a mão em punho.
— Cuidado.
— Se é fraqueza, eu vou usar — continuei, chegando perto o bastante pra sentir o calor dele de novo. — Quando Ruby cair, você vai estar sozinho. E homens como você sempre voltam pra quem conhece seus monstros.
— Eu prefiro dormir com monstros do que com você — ele devolveu.
Eu quase ri alto.
— Agora vou ter que lavar a boca com álcool. Você manchou o sabor perfeito do beijo da única mulher que eu amo de verdade — ele completou.
Aí sim, o golpe veio direto na boca do estômago. Por um segundo, eu quis gritar. Em vez disso, ajeitei o vestido, dei um sorriso calmo e respondi:
— Então vai ver até onde eu posso ir pra te fazer lembrar de mim e esquecer dela por completo.
Saí do escritório com a coluna reta. Eu nunca viro as costas menor do que entrei.
Quando cheguei no carro, o celular já estava na minha mão antes mesmo da porta fechar. Liguei para o repórter que eu sabia que atenderia em qualquer horário.
Ele atendeu animado.
— “Laurent. O que tem pra mim hoje?”
Olhei pela janela, vendo a mansão de Ethan ficando menor.
— Tenho uma história quente sobre o casamento do senhor Sinclair — respondi, sorrindo. — Prepare a capa de amanhã.
Desliguei.
Eles acham que o mundo gira em torno de seus sentimentos. Mas não. O mundo gira em torno de quem sabe usar as ruínas.
Ruby fez o favor de destruir o meu castelo com Ethan. Agora eu vou destruir o dela. E quando tudo desmoronar, quando ela estiver em pedaços, chorando, fugindo, odiada… quem vo
cê acha que ele vai procurar, hein?
Eu. Sempre eu.
Porque eu posso não ser o amor da vida dele. Mas sou o inferno onde ele sempre volta. E estou só começando.
