Capítulo 24 Capítulo 24

Ethan

Eu já deveria ter superado. Qualquer outro homem teria seguido em frente. Mas eu não sou “qualquer outro”. E Ruby… Ruby nunca foi uma mulher comum pra mim. Desde que voltou para Londres, eu acompanho cada passo dela igual uma sombra, como um viciado que precisa da próxima dose para não perder a sanidade.

Todas as manhãs recebo as fotos que mando meus homens fazerem.

Ruby entrando em uma loja de vestidos.

Ruby sorrindo para alguém num café.

Ruby caminhando pela rua com aquele vestido azul claro que faz meu peito doer.

Eu olho cada imagem como quem observa uma ferida que nunca cicatriza.

Eu poderia destruir o Andrew Sinclair com um estalar de dedos. Poderia sequestrar Ruby e trancá-la longe do mundo até ela lembrar que era minha. Mas não faço nada. Ainda. Apenas observo, o que, para um homem como eu, já é perigoso o suficiente.

Estou em um restaurante discreto no centro quando ouço o salto irritante que anuncia problemas. Astrid. Claro. Como um mosquito que insiste em sobrevoar só porque acha que tem importância.

Ela senta sem ser convidada, com aquele sorriso ensaiado que sempre me deu náuseas e eu insistia para ela não sorrir daquele jeito.

— Você anda sumido — ela comenta, mexendo no cabelo loiro. — Ou talvez esteja apenas se escondendo do mundo. E tudo isso por causa dela?

Eu não tiro os olhos do copo de whisky.

— Vai embora, Astrid.

— Ela te esqueceu, Ethan. Está com o outro. Feliz. — ela insiste, inclinando-se para me provocar.

Essa palavra, feliz, acende algo dentro de mim. Não um ciúme comum. É outra coisa. Algo mais profundo, mais escuro. Eu não respondo imediatamente, apenas deixo que o silêncio pese até ela se contorcer desconfortável.

— Você está pedindo pra morrer. Já disse pra não me procurar em lugar nenhum — aviso, ainda com a voz baixa, calma demais para quem conhece o inferno que existe dentro de mim.

— Vai matar o Sinclair também? — ela pergunta, rindo.

Eu viro o rosto devagar. Encaro-a. Sorrio daquele jeito que sempre fez até capangas experientes perderem o ar.

— Ainda não decidi.

Ela empalidece.

— Você precisa de mim, Ethan — ela tenta recuperar a postura. — Sempre precisou. Eu sou a única que entende a sua mente.

— Você não entende nada. E nunca entendeu. Só pensa que me conhece, você só viu o que eu deixei ver, não se engane.

Me levanto e deixo algumas notas na mesa. Astrid me observa como se estivesse vendo um fantasma. Talvez esteja mesmo, porque a parte mais humana de mim morreu no dia que Ruby assinou o divórcio e me deu para eu assinar sem saber o que estava assinando.

À noite, faço algo que jurei que não faria. Dirijo até a mansão Sinclair. Paro o carro numa sombra da rua. Acendo um cigarro e observo como um condenado observa a salvação do outro lado do vidro.

A casa está parcialmente iluminada. É tão perfeita, tão quieta… tão cheia de coisas que eu daria tudo para destruir só pra reconstruir ao lado dela.

Então, ela aparece.

Ruby caminha até a varanda do segundo andar. Descalça. Cabelo ruivo solto, bagunçado, caindo pelos ombros. Ela passa a mão pelos fios com um gesto distraído.

Eu seguro o cigarro tão forte que quase o desmancho. A luz da varanda bate no rosto dela. Não parece a mesma mulher que eu deixei fugir. Parece mais… mais leve. Mais viva. Mais distante de mim do que jamais esteve.

Sussurro baixo, quase para o vento:

— Você ainda é minha, mesmo que não admita.

Fumo mais um cigarro. Depois outro. Depois outro. E quando ela entra e fecha as cortinas, sinto uma pontada no peito que me empurra de volta para o vazio. Não suporto vê-la feliz em um lugar onde não pertenço.

No dia seguinte, ela sai para uma reunião sobre um projeto social que Andrew está apoiando. Eu sigo atrás a uma distância confortável.

Ela está linda. O vestido branco, o coque baixo, a expressão concentrada, tudo nela me desmonta e me remonta ao mesmo tempo.

Espero o momento certo. E quando ela dobra uma rua menos movimentada, eu apareço.

— Acha que Londres é grande o suficiente pra se esconder de mim, ruiva? — pergunto, surgindo ao lado dela.

Ela leva um susto, recua um passo.

— Você está passando dos limites, Ethan.

— Todos os limites me pertencem quando envolve você. — corrijo, me aproximando.

— Eu não quero você me seguindo. Vai cuidar da sua amante, faz dela sua esposa e gasta seu tempo com ela — ela diz, firme.

Eu rio. Sério. O som é tão irônico que até um cego sentiria o veneno.

— Não, Ruby. Você é minha mulher, minha amante e o que mais você quiser ser. Quer continuar com aquele desgraçado e ainda sim ser minha? Podemos conversar.

— Você precisa se tratar.

Ela tenta sair, mas eu seguro o pulso dela. Não com força bruta. Apenas o suficiente para impedir a fuga.

— Me solta, Ethan.

— Senti saudade desse olhar. — Ela enruga a testa. — E sabe do que mais senti saudade? — Aproximo minha mão do rosto dela. — Dos seus lábios nos meus.

— Você não vai me…

Eu não deixo ela terminar. Encosto a boca na dela e a beijo. É rápido. É bruto. É cheio de saudade e raiva e necessidade.

Ela tenta impedir, mas eu conheço o corpo dela melhor do que qualquer um. Melhor, talvez, do que ela mesma. E o corpo dela treme, cede por um segundo que vale uma eternidade.

Quando ela me empurra, os olhos estão marejados.

— Você vai acabar me levando a fazer uma loucura — ela sussurra. — Se afasta e respeita minha nova vida. Ela não tem espaço para você.

— Amo a sinceridade do seu corpo, quando toco ele grita a verdade que sua boca esconde. — digo, com um meio sorriso. — Quer fazer uma loucura comigo? Se for me matar que seja de prazer, ruiva.

Ela entra no primeiro táxi que vê e bate a porta com força. Eu fico parado ali, assistindo o carro sumir. Meu segurança se aproxima.

— Chefe?

— Descubra onde ela vai todas as terças — digo, sem tirar os olhos da rua.

Ele assente. E eu penso, enquanto o taxi desaparece no trânsito:

— “Você pode correr pelo mundo inteiro, Ruby. Mas eu sempre vou te achar, sempre.”

Comprei outro chip. Já era o oitavo naquela semana. Ela bloqueia um, eu ativo outro. E outro. E mais outro. Até ela entender que eu sempre encontro um caminho até ela. Enviei a mensagem antes de pensar direito:

— "Sabe o que mais me tira o sono, Ruby? Imaginar você deitada, de costas, o corpo quente, pronto… e minhas mãos abrindo suas pernas devagar como você gosta. Eu faria amor com você do jeito que você sempre mereceu."

Ela visualizou na hora. E demorou menos de três segundos para responder:

— "PARA! Me deixe em paz, Ethan! Eu estou casada! Eu estou tentando seguir minha vida!"

Sorri. O tipo de sorriso que só aparece quando o veneno age. Respondi:

— "Casada… mas tremendo só de imaginar minhas mãos em você."

Ela digitou rápido, as mensagens aparecendo uma atrás da outra:

— "Você é cruel! Eu imploro, Ethan, me deixe em paz!"

Me recostei na poltrona, fechei os olhos. A súplica dela não me afastava. Me puxava.

— "Eu só vou te deixar em paz quando você carregar meu sobrenome de novo."

Enviei.

O app mostrou que ela bloqueou o número. P

eguei outro chip da gaveta, ainda lacrado.

— Ainda tenho muitos, ruiva. — Sussurrei. — E um dia… você vai atender sem me bloquear.

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