Capítulo 25 Capítulo 25

Ruby

A sensação de ser observada começou devagar, como um sopro desconfortável na nuca. Primeiro vieram as mensagens anônimas. Uma por dia.

— “Você não merece essa vida.”

— “As pessoas mentem mais quando estão felizes.”

— “Ele não é o único que pode ser tirado de você.”

Eu apagava todas, mas elas grudavam no meu estômago como pedras.

Depois vieram as ligações. Eu atendia e… nada. Nenhum som, nenhuma palavra, apenas a estranha estática. Isso me deixava irritada e inquieta. Eu não queria viver assim, pulando cada vez que o telefone vibrava.

Mas o pior foram as fotos.

Fotos antigas minhas, deixadas no portão da mansão. Fotos minhas e de Ethan, da época em que ainda tentávamos parecer um casal normal mesmo não sendo. Eu sempre estava sorrindo. Ele quase nunca. Andrew encontrou as primeiras antes que eu visse, jogou no lixo, fingiu que não sabia quem tinha deixado ali. Mas bastou eu ver uma, só uma, para ter certeza.

Astrid.

Quem mais poderia ser tão doente, tão obcecada, tão… cruel?

Eu pisava em ovos desde então, tentando manter a paz para que Andrew não percebesse o que eu escondia, a gravidez, o medo e o passado que insistia em se arrastar atrás de mim como uma sombra.

A chuva fina daquela tarde não ajudava. O céu estava cinza, o vento gelado e eu só queria voltar logo para casa. Entrei na loja de roupas rápido, escolhi um vestido simples e estava quase saindo quando senti o cheiro forte de café.

O corpo de uma mulher esbarrou no meu com força, como se tivesse sido empurrada. O café quente respingou no meu peito e desceu pelo vestido.

— Meu Deus! — recuei, sentindo a ardência. — Olhe por onde anda!

A mulher tirou os óculos escuros devagar. E, por um instante, o mundo perdeu o som.

Astrid.

— Que coincidência, Ruby. — disse ela, com aquele sorriso frio que sempre me lembrou uma hiena. — Ainda vestindo papel de vítima?

— Eu não tenho tempo pra você — respondi, respirando fundo. — Nem vontade.

Tentei passar ao lado, mas ela bloqueou meu caminho com um passo calculado.

— Sabe o que é curioso? — disse, inclinando a cabeça, como quem analisa uma boneca quebrada. — Ethan não olha pra mim do mesmo jeito desde que você voltou.

A menção ao nome dele fez meu coração se contrair de um jeito que eu detesto admitir.

— Isso é problema de vocês. — falei, firme.

— É, sim. Mas você sempre foi o problema entre nós. A ruiva inconveniente. A esposa que ele nunca tocou, mas nunca deixou ir totalmente. — Ela deu um sorriso venenoso. — E agora ressuscitou só pra estragar tudo outra vez.

Eu já tremia. De ódio.

— Eu não devo nada a você. Nada ao Ethan. Nada ao passado.

Ela riu, uma risada quase elegante, quase ensaiada.

— Você é tão ingênua… ainda acredita que pode ter uma vida nova? Que o mundo esquece o que você foi? Que os homens não se cansam?

— Não sou você, Astrid. Não precisei me rastejar pra ser amada. — retruquei.

Foi aí que ela segurou meu braço. Forte. Firme. A ponto de doer. Aproximou a boca do meu ouvido e sussurrou:

— Aproveita enquanto pode. Ele não é o único homem que pode ser tirado de você.

Meu estômago virou. Aquilo não era só uma ameaça. Era uma promessa. Soltei meu braço com força, empurrando-a para trás.

— Chega. — sibilei. — Fica longe de mim. Longe do meu marido. Longe da minha vida.

Saí quase tropeçando, o café ainda quente queimando a pele. Entrei no carro e fechei a porta com força, a respiração descompassada. Minhas mãos tremiam. Astrid não era só um incômodo. Era um perigo.

Quando cheguei em casa, Andrew já estava no saguão. Ele reconheceu meu rosto antes que eu abrisse a boca.

— O que aconteceu? — perguntou, caminhando rápido até mim.

— Nada… eu só… — soltei o ar. — Astrid.

O nome dela foi suficiente para o corpo dele ficar rígido.

— Ela te tocou? — perguntou, aproximando o rosto do meu.

— Se esbarrar em mim para jogar café quente no meu corpo e segurar meu braço com força conta como toque… então sim.

O maxilar dele travou. Os olhos ficaram escuros.

— Ruby, você devia ter me ligado na hora.

— Eu não queria que você fizesse algo… impulsivo.

Ele segurou meu rosto, firme, mas carinhoso.

— Se essa mulher cruzar teu caminho de novo, eu mesmo cuido disso. Não prometo agir com calma.

— Eu sei. — sussurrei.

Mas parte de mim temia uma guerra entre os dois mundos. Andrew não temia sangue. Astrid adorava caos. E Ethan… estava perto demais, na minha cabeça, nos meus sonhos, na minha vida.

À noite, no quarto, tentei tomar um banho quente para tirar o cheiro do café. Mas, quando tirei a roupa, percebi algo diferente. Minha barriga, ainda pequena, mas não invisível. O corpo falando por mim.

Passei a mão sobre o abdômen e senti o arrepio. Não era só enjoos. Não era só tontura. Era vida. E eu estava escondendo isso de todos.

Inclinei-me para o espelho, observando os traços do meu corpo.

— Eu não posso deixar ninguém descobrir você ainda. — sussurrei baixinho. — As coisas por aqui não estão fáceis.

Senti um choro preso na garganta. Um medo silencioso. E uma culpa que me consumia devagar. Eu estava mentindo para o homem que mais me amou. Eu estava escondendo um bebê que era tudo o que ele sempre quis. E, por trás disso, havia algo ainda mais torpe.

O medo de como Ethan reagiria ao saber.

Porque parte de mim ainda estremecia quando ouvia a voz dele. Parte de mim ainda sentia o beijo que ele roubou algumas vezes. Parte de mim ainda sonhava com ele.

E era essa parte que eu queria matar antes que destruísse tudo.

— Ruby? — a voz de Andrew soou atrás de mim.

Virei-me rápido demais.

— Só… pensei no que aconteceu hoje — respondi, improvisando.

Ele se aproximou, tirou a toalha da minha mão, envolveu meu corpo com os braços fortes.

— Eu não vou deixar nada acontecer com você. Entendeu?

Assenti, mesmo sabendo que o perigo já estava dentro de mim, nas minhas mentiras, nos meus medos, nas minhas lembranças.

Ele me beijou na testa.

— Vamos dormir. Amanhã eu resolvo tudo.

— Resolve… o quê?

— Astrid. — respondeu, simples. — Ela cruzou a linha.

Meu coração disparou.

Astrid estava pronta para destruir minha vida. E Andrew estava pronto para destruir a dela. E no meio… eu escondia o maior segredo da minha vida.

Quando ele apagou a luz, respirei devagar, tentando afastar pensamentos. Mas o telefone vibrou na mesinha com um novo número desconhecido.

E eu sabia quem era. Sempre sabia. Não abri a mens

agem. Não precisava. Porque eu já conseguia sentir a guerra se aproximando. E, dessa vez, não haveria vencedores.

Só sobreviventes.

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