Capítulo 26 Capítulo 26

Andrew

Não era mais uma questão de negócios.

Quando coloquei o celular no viva-voz e pedi a agenda completa de Astrid Laurent, eu não estava agindo como Ceo. Eu estava agindo como marido.

— Quero a agenda completa da Astrid Laurent. Quero saber onde ela vai a cada segundo do dia. — falei, apoiando o cotovelo na mesa do escritório.

Do outro lado da linha, Kane, meu chefe de segurança, ficou em silêncio por um instante.

— “Isso é pessoal, senhor?” — ele perguntou.

— É proteção. — respondi. — Ela esbarrou na minha esposa de propósito e jogou café quente nela. Se cruzar o caminho da Ruby de novo, eu quero saber antes.

— “Entendido. Em vinte e quatro horas eu te mando tudo.”

Desliguei, mas a raiva continuou comigo, pesada, grudada na pele. Desde que a Ruby me contou o que tinha acontecido, eu sentia o maxilar travar toda vez que escutava o nome daquela mulher. Astrid. A sombra que perseguia não só o passado da Ruby, mas o de Storm também.

E eu já estava cansado de viver com sombras dentro da minha casa.

Passei o resto do dia fingindo que trabalhava. Assinei documentos, revisei relatórios, fiz anotações que eu não ia nem lembrar depois. A cabeça estava em outro lugar, no rosto da Ruby quando falou de Astrid, na forma como a voz dela tremeu só um pouco, mas tremeu.

Quando eu vejo medo em alguém, eu sempre volto no garoto que um dia eu fui. O garoto que ninguém defendeu. Talvez por isso eu exagere quando o assunto é proteger quem eu amo.

No fim da tarde, Kane apareceu na minha sala sem avisar, como eu tinha mandado fazer quando o assunto fosse urgente.

— Senhor — ele disse, deixando uma pasta em cima da mesa. — Agenda dos próximos cinco dias. Hoje ela estará no evento da Henderson Capital, às dezenove horas. Amanhã, jantar em Mayfair. Depois…

— Hoje é o que me interessa. — cortei, já me levantando. — Prepara o carro.

Ele assentiu e saiu sem fazer perguntas. Era por isso que eu gostava dele, entendia a gravidade sem precisar de detalhes.

O salão da Henderson Capital cheirava a dinheiro, luxo e perfume caro. Homens de terno, mulheres de vestido justo, garçons andando com bandejas de champanhe equilibradas como se fossem extensão do braço. Eu conhecia quase metade das pessoas ali. O resto, eu já tinha pesquisado.

Entrei ignorando os cumprimentos. Não estava ali pra socializar.

Localizei Astrid em menos de um minuto. Ela sabia ser vista. Vestido vermelho, fenda alta demais pra um evento daquele tipo, salto agulha, taça na mão e um sorriso calculado. Estava cercada de três investidores que eu conhecia de longa data, rindo como se o mundo fosse um palco feito pra ela.

Caminhei até o grupo, sentindo alguns olhares seguirem meu movimento.

— Senhor Sinclair, que honra… — um deles começou.

— Depois falamos de honra. — respondi, educado, mas frio. — Senhorita Laurent. — disse, focando nela. — Uma palavra, por favor.

Ela se virou devagar, o sorriso já pronto.

— Se veio me agradecer por participar da reunião de investidores, de nada. — disse, inclinando um pouco a cabeça.

— Vim avisar pra ficar longe da minha esposa. — falei, sem rodeios.

Alguns olhares curiosos surgiram ao redor. Astrid não pareceu se intimidar. Deu um passo à frente, me estudando como se eu fosse um brinquedo novo.

— Esposa ciumenta? — ela provocou. — Não é a primeira vez que lido com isso. Geralmente passa.

— Não é ciúme. É respeito. — retruquei. — Você se aproximou dela ontem na rua, jogou café quente nela e segurou o braço dela. Isso não vai se repetir.

Ela deu uma risada baixa, cheia de ironia.

— Sabe, senhor Sinclair, homens com poder como o seu costumam se cansar de esposas certinhas. Quando isso acontecer, vai saber onde me encontrar.

Eu me aproximei mais um passo, o suficiente pra que só ela escutasse o que eu ia dizer.

— Vou te explicar de um jeito que você entenda. — sussurrei, perto do ouvido dela. — Se tocar nela de novo, eu acabo com a sua carreira, a sua imagem e qualquer homem que tente te defender. Você pode até brincar com o Storm, mas comigo não tem jogo.

Senti o corpo dela arrepiar. Ela virou o rosto, os olhos brilhando com um tipo estranho de excitação.

— Eu adoro quando ameaçam com a voz baixa. — sussurrou, sorrindo.

Me afastei, enojado, mas mantive a postura.

— Toma isso como seu último aviso. Da próxima vez, não será com palavras.

Ela ficou me olhando por um segundo, o sorriso ainda no rosto, mas o olhar um pouco mais duro. Eu conhecia aquele olhar, de quem tinha acabado de adicionar meu nome em alguma lista de vingança.

Virei as costas e saí, sentindo o peso dos olhares nas minhas costas. Eu sei reconhecer quando alguém vai dar problema. Astrid não ia recuar. Mas também não ia poder dizer que não tinha sido avisada.

Quando cheguei em casa, já passava das dez. A mansão estava em silêncio. Algumas luzes ainda acesas no andar de cima. Subi as escadas tirando a gravata, o cansaço batendo junto com a adrenalina que ainda não tinha ido embora.

Encontrei a Ruby na sala do andar de cima, sentada no sofá com uma manta sobre as pernas e um livro aberto que ela claramente não estava lendo. Ela levantou o olhar assim que me viu.

— Você demorou. — disse, sem rodeios.

— O trânsito estava um inferno. — respondi, jogando a chave no aparador. — E o inferno tinha nome e sobrenome.

Ela fechou o livro devagar.

— Você foi atrás dela, não foi?

— Sim. Fui. — sentei ao lado dela, mas ainda distante o bastante pra vê-la inteira. — Não ia ficar esperando a Astrid tentar de novo.

Ela suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Eu não quero confusão, Andrew.

— E eu não quero que encostem em você. — falei, mais firme do que pretendia.

Ruby apertou os lábios. Por um instante, achei que ela fosse discutir comigo, dizer que eu estava indo longe demais. Em vez disso, ela se recostou no sofá, virando o rosto pra mim.

— O que você disse pra ela?

Olhei nos olhos dela. Não adiantava mentir.

— Disse que se tocar em você de novo, eu acabo com a carreira dela, com a imagem dela e com qualquer homem que tente defendê-la. — respondi, direto. — E que ela não está autorizada a respirar perto de você. Nunca mais.

Ela arregalou um pouco os olhos, surpresa.

— Você falou assim, na cara dela?

— Falei.

Um silêncio se instalou por alguns segundos. Eu

fiquei esperando a reação dela me julgando pela ameaça, mas seu rosto impassível não me diz seu próximo passo.

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