Capítulo 27 Capítulo 27
Andrew
Eu conheço silêncios agressivos, cheios de julgamento. O dela não era assim. Ela parecia… processar o que eu disse.
— Ela te provocou? — Ruby perguntou, firme.
— O tempo todo. — dei um meio sorriso sem humor. — Insinuou que homens como eu se cansam de esposas “certinhas”, que eu ia acabar procurando ela quando isso acontecesse. Eu deixei claro que, se algum dia eu me cansar de alguma coisa, não vai ser de você.
Os olhos dela brilharam, e eu senti aquele aperto familiar no peito. Eu posso negociar milhões sem piscar, mas um único olhar dela ainda consegue me desmontar.
— Eu não quero ser motivo de guerra entre vocês. — ela falou. — Já tive um homem que transformou minha vida num campo de batalha. Não quero outro.
Respirei fundo, cheguei mais perto. Segurei o rosto dela com as duas mãos, com cuidado. A pele dela sempre parece um pouco mais quente do que a minha.
— Escuta, Ruby. — falei, olhando direto nos olhos dela. — Eu não estou em guerra com ninguém. Eu só estou colocando limites. Ninguém tem o direito de tocar em você pra te machucar. Nem a Astrid, nem o Storm, nem o mundo. Enquanto eu estiver respirando, ninguém encosta em você sem lidar comigo primeiro.
Ela piscou rápido, como se estivesse segurando alguma coisa.
— Você fala isso como se fosse fácil… como se pudesse controlar tudo.
— Eu não posso controlar tudo. — admiti. — Mas posso controlar o que eu permito perto de você. E eu estou dizendo aqui, do jeito mais claro possível: Astrid está proibida de respirar no mesmo corredor que você. Fim.
Ela soltou um riso curto, quase incrédulo.
— Você é maluco.
— Um pouco. — concordei. — Mas é um maluco que sabe exatamente o que quer.
— E o que você quer, Andrew? — ela desafiou, a voz baixa.
Não pensei duas vezes. Já fazia um tempo que a resposta estava pronta na minha garganta, esperando uma brecha. Talvez aquele não fosse o momento perfeito, mas era honesto.
— Eu te amo, ruivinha. — falei, sem rodeios, sem floreio.
O silêncio que veio depois foi diferente de todos. Não era pesado. Era… suspenso. Como se o mundo tivesse parado pra ouvir a resposta dela junto comigo.
Os olhos dela se encheram na hora, e por um segundo eu me arrependi. Talvez fosse cedo demais. Talvez eu tivesse pressionado sem querer. Mas antes que eu pudesse consertar, ela se inclinou.
As mãos dela subiram devagar até a minha nuca. Ela puxou meu rosto pra perto e me beijou. Não foi urgente, não foi desesperado. Foi devagar, firme, cheio de coisa que ela não tinha colocado em palavras ainda.
O coração batia forte, mas o corpo dela estava relaxado, colado no meu como se aquele fosse o lugar certo desde sempre. Quando nos afastamos um pouco, ela encostou a testa na minha.
— Eu também te amo, Andrew. — sussurrou. — Eu só estava com medo de admitir. Pra mim e pra você.
Se existe alguma droga mais forte do que isso, eu não conheço e nem preciso conhecer. Eu sorri, incapaz de esconder.
— É o melhor “também” que já ouvi na vida. — brinquei, a voz rouca.
Ela riu, um riso de verdade, e eu juro que daria metade da minha fortuna pra ouvir esse som todos os dias.
Puxei ela mais pra perto, fazendo ela sentar no meu colo. As pernas dela se ajeitaram em volta do meu quadril, as mãos ainda na minha nuca. Beijei de novo, agora um pouco mais fundo, mas sem pressa. Eu queria memorizar aquele momento. A forma como ela se inclinava pra mim por vontade própria. Sem acordo. Sem contrato. Só sentimento.
— Você não vai perder nada por minha causa, né? — ela perguntou, de repente, afastando o rosto só o suficiente pra me olhar. — Não quero que você destrua a própria vida pra me proteger.
— Ruby… — passei o polegar na bochecha dela. — Eu construí tudo isso pra não precisar ter medo de perder. Eu sei exatamente até onde posso ir. E te proteger nunca vai ser um exagero. Vai ser só… o básico.
Ela respirou fundo e se deixou relaxar de novo, deitando a cabeça no meu ombro. Ficamos ali por longos minutos, abraçados no sofá, em silêncio. Mas, pela primeira vez em muito tempo, era um silêncio que fazia bem.
— Posso te pedir uma coisa? — ela perguntou.
— Pode tudo.
— Se a Astrid aparecer de novo, não faz nada sem me contar depois. Eu não quero descobrir pela internet, nem pela fofoca de alguém. Eu aguento qualquer coisa, menos segredo.
Fechei os olhos por um instante, absorvendo aquilo. Ela não estava pedindo que eu parasse. Estava pedindo pra ser parte. Pra não ser deixada no escuro de novo.
— Combinado. — respondi. — Sem segredo entre nós. Nem sobre ela, nem sobre ele.
Ela ficou quieta, mas eu senti o corpo dela enrijecer um pouco quando mencionei o Storm. Eu não sou idiota. Sei que o passado ainda assombra. Sei que ele não saiu da cabeça dela. E tudo bem. Eu não quero apagar a história dela. Quero escrever o que vem depois.
Afastei só o suficiente pra ver o rosto dela de novo.
— E já que estamos na sessão de sinceridade… — continuei. — Eu sei que o Storm não vai desaparecer. Eu sei que ele vai continuar rondando, mandando mensagem, aparecendo onde não é chamado. Talvez ele ache que pode te vencer no grito, na ameaça, na insistência.
— Ele sempre acha que pode. — ela disse, amarga.
— Então deixa eu te dizer uma coisa do meu jeito. — falei, firme. — Eu não vou brigar com ele, Ruby. Mas se ele passar da linha, se te encostar de um jeito que você não queira, se fizer você chorar de novo… eu juro que não vai ser só mais um recado. E, ainda assim, eu vou te contar cada passo. Porque o que importa não é o que eu faço com ele. É o que a gente vai continuar construindo aqui.
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse avaliando cada palavra.
— Você fala como se eu fosse tudo isso pra você. — sussurrou.
— Você é. — respondi, sem hesitar.
Ela sorriu de canto, aquele sorriso meio tímido, meio atrevido, que me mata sempre.
— Então tá ferrado, Sinclair. — brincou. — Porque eu também te amo. E agora aguenta.
Puxei ela pra outro beijo, mais longo, mais quente, sentindo o peso do dia finalmente se dissolver. Lá fora, o mundo continuava girando, cheio de ameaças, vilãs elegantes e mafiosos obcecados.
Aqui dentro, no entanto, era só nós dois.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente acred
itei que isso podia ser o suficiente pra enfrentar qualquer inferno que viesse pela frente.
