Capítulo 28 Capítulo 28
Ethan
Não sei mais que dia é.
As noites viraram uma massa cinza de uísque, fumaça e o brilho do celular na minha mão. Quando finalmente pego no sono, sonho com ela. Quando acordo, é pior, porque descubro que ainda estou sozinho e que ela continua com o sobrenome Sinclair.
— Ruby.
Eu repito o nome em voz alta, só pra sentir o gosto dele na boca. Não resolve nada, mas é a única coisa que ainda parece real.
O escritório da mansão está um caos. Garrafas pela metade, cinzeiro lotado, papéis que eu nem sei mais de onde surgiram. A cidade lá fora vive, cresce, lucra. A minha máfia continua girando, as rotas funcionam, o dinheiro entra. Mas eu… eu estou travado no mesmo ponto.
Uma foto.
Ela de vestido branco simples, pé na areia, rindo com a cabeça jogada pra trás. Ao lado, o Sinclair olhando pra ela como se tivesse ganhado o mundo. O paparazzi que vazou as imagens quase morreu quando meus homens o encontraram. Quase. Eu ainda posso precisar dele.
Passo o dedo na tela, ampliando o sorriso dela. Parece feliz. Parece leve. Parece tudo o que não era comigo.
— Você está piorando, chefe.
A voz de Bartolomeu me tira do transe. Ele encosta na porta, terno impecável, expressão cansada. Conhece cada uma das minhas fases. Já me viu sujo de sangue, já me viu quase morto, já me viu frio como pedra. Do jeito que eu tô agora, nem ele reconhece direito.
— Entre ou vá embora, Bart. Ficar plantado aí é que não dá. — resmungo, sem tirar os olhos do celular.
Ele entra, fecha a porta com calma e se senta na poltrona da frente.
— A Astrid voltou a rondar os nossos contatos. — avisa. — Tá enchendo o saco de meio mundo, dizendo que tem informação privilegiada.
Reviro os olhos.
— Ela é ruído. Nada além disso.
— Não quando o Don da máfia mais temido de Londres passa as madrugadas olhando foto de mulher no lugar de olhar pros números. — ele rebate, direto. — Você está deixando esse problema com uma mulher atrapalhar os negócios. E isso não pode acontecer.
Finalmente largo o celular na mesa. O som ecoa forte demais no silêncio.
— Cuidado com as palavras, Bart. — aviso.
Ele cruza as mãos no colo, paciente.
— Estou aqui pra isso. Pra dizer o que ninguém tem coragem. Você tá fraco, Ethan. Instável. A rua tá comentando. Os inimigos sentem o cheiro.
Levanto devagar. Aproximo da janela. Londres acesa, bonita, pequena. Fecho a mão em punho.
— Eles sentem? — repito, rindo sem humor. — Deixe pensarem que estou distraído. Vai ser divertido vê-los tentar alguma coisa. Eu já disse o quão perigoso estou nesse momento.
Bartolomeu suspira.
— Perigoso, sim. Mas não no bom sentido. Antes, você pensava três passos à frente. Agora age por impulso. Já ouviu o que tão dizendo? Que basta mexer na ruiva pra te tirar do eixo.
A palavra “ruiva” acende alguma coisa em mim. Antes que eu consiga me controlar, o punho vai com tudo na vidraça mais uma vez. O estalo seco do vidro rachando se mistura ao meu xingamento. Um fio de sangue escorre pelos nós dos dedos.
Bart nem se mexe.
— Obrigado por provar meu ponto. — comenta, calmo.
Fico encarando a rachadura que se espalha pelo vidro como uma teia. Eu respiro fundo, tentando domar a fúria que ainda pulsa.
— Eu não estou fraco. — digo, a voz baixa. — Estou cansado de fingir que não sinto nada. Cansado de ouvir todo mundo dizer que ela me esqueceu, que está feliz, que casou com outro. Eu sei o que eu vi naqueles olhos. Eu sei o que eu sinto quando ela treme na minha mão.
— E o que você sente quando o fornecedor da fronteira ameaça mudar de rota porque você não atendeu ele por três dias seguidos? — Bart rebate. — Ou quando o cara de Paris começa a testar os limites porque acha que você está ocupado demais correndo atrás de ex-mulher?
Viro pra ele, o sangue pingando no chão.
— Ex-mulher, não. — corrijo, rosnando. — A única mulher que eu amei na vida.
Ele me encara, firme.
— É disso que estou falando, Ethan. Você nunca esteve tão fraco. Se continuar assim, vai colocar tudo a perder. Tudo o que construiu antes dela existir.
Dou um passo na direção dele.
— Você está vendo errado, Bart. — falo, gelado. — Eu nunca estive tão bem e atento.
Ele mantém o olhar, mas sei que a frase o incomoda.
— E acha mesmo que vai conseguir restaurar sua imagem depois de tudo? — pergunta, irônico.
Sorrio torto.
— Eu só vou conseguir focar de verdade quando souber que ela tá onde sempre deveria ter estado. — respondo. — Na minha cama, no meu nome, sem chance de fugir de novo.
Bartolomeu passa a mão no rosto, cansado.
— Os nossos inimigos estão atentos. Vão aproveitar esse momento de… fraqueza emocional. — ele insiste. — Vão testar a segurança, vão sondar os teus homens, vão tentar comprar informação. Você sabe como funciona.
Ando até a mesa, pego um lenço e limpo o sangue da mão, sem pressa.
— Eles podem tentar. — falo, tranquilo demais pro tanto de ódio que eu sinto. — Eu posso estar louco de amor, Bart, mas ainda sou uma máquina de matar. Ninguém esquece isso tão fácil.
Ele me observa por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se discute mais ou aceita que, por hoje, já chegou no limite.
— Usa essa loucura pra alguma coisa útil, então. — diz, por fim. — Lembra quem você é. Porque, do jeito que tá indo, quem vai destruir o Ethan Storm não é inimigo nenhum. É você mesmo.
Ele se levanta, ajeita o terno.
— Vou reforçar as rotas. E mandar trocar esse vidro antes que alguém veja isso como metáfora. — completa, apontando com o queixo pra rachadura.
— Faz o que tiver que fazer. — respondo, voltando a pegar o celular.
Quando ele sai, a sala fica pequena de novo. A rachadura na janela parece um mapa torto de tudo que eu venho quebrando por dentro.
Um alerta vibra na tela. Mensagem de número desconhecido. Abro na hora, o coração batendo rápido demais.
Leio o que eu mesmo acabei de escrever. Sim, porque a mensagem não foi enviada. Ainda está ali, no campo de texto, piscando, esperando o meu comando. Eu reescrevo, apago, escrevo de novo. No fim, deixo exatamente assim.
— “Se o Sinclair te ama tanto, quero ver até onde ele vai pra te proteger.”
Puxo o contato que eu sei que é dela, o novo número que me custou uma pequena fortuna em suborno. Um chip novo por tentativa. Uma caça moderna, paciente, calculada, feita de pequenos golpes na armadura que ela tenta vestir.
Respiro fundo e aperto enviar.
O “entregue” aparece quase instantaneamente. Fico olhando a tela como um viciado esperando a próxima dose. Nenhum sinal de que ela está digitando. Nenhuma resposta.
Um sorriso curto surge nos meus lábios, mais dor do que alegria.
— Vamos ver se o santo bilionário sangra. — sussurro.
Pego o celular e jogo com força em cima da mesa. Ele quica, quase cai, mas para na beirada. Eu acendo outro cigarro, trago fundo e vou até a janela rachada.
O meu reflexo me encara de volta. Olhos vermelhos, barba por fazer, punho machucado. Don da máfia, bilionário, temido, respeitado. E, por trás de tudo isso, um idiota obcecado por uma mulher que decidiu começar a vida sem mim.
— Dessa vez, ruiva… — sussurro, deixando a fumaça sair devagar. — Eu não vou aceitar o fim. Nem o seu, nem o meu. Ou a gente arde junto ou ninguém sai inteiro.
A cidade continua brilhando lá fora, indiferente. Eu dou mais uma tragada e sorrio sem humor.
Se o mundo acha que já viu o pior de mim, é porque ainda não me viu lutando pela única coisa que eu realment
e quero, pela única pessoa que ainda é capaz de me fazer perder e recuperar o fôlego na mesma respiração. E eu não vou recuar.
