Capítulo 29 Capítulo 29
Ruby
Eu não sei em que momento o chão começou a sumir sob os meus pés, mas hoje… hoje parece que estou vivendo sobre uma corda bamba.
A mensagem do Ethan não sai da minha cabeça.
— “Se o Sinclair te ama tanto, quero ver até onde ele vai pra te proteger.”
Eu tentei ignorar. Tentei fingir que era só provocação, mais uma obsessão dele. Mas meu corpo sabe. Meu coração sabe. Aquele homem nunca ameaça por acaso.
E agora, eu carrego algo que ele não pode descobrir. Algo que ainda nem consegui contar para o meu marido, porque só de pensar na reação dele, no instinto protetor, eu travo.
O bebê. Respiro fundo enquanto termino de revisar um documento na sala de reuniões da fundação. Meus olhos ardem, minha cabeça dói. Andrew percebe na mesma hora.
Ele sempre percebe.
— Você está pálida, amor. — ele diz, tocando meu rosto com a ponta dos dedos. — Quer que eu ligue para o médico?
Eu engulo seco. Meu estômago revira, de nervosismo, não de enjoo.
— Não precisa, é só estresse. — respondo rápido demais.
Andrew me observa como se pudesse ler algo invisível em mim. Por um segundo, penso que ele vai insistir, mas seu celular vibra.
— Preciso ir pra reunião com o consórcio europeu. Volto em duas horas. — ele diz, beijando minha testa. — Por favor, tenta descansar.
Eu sorrio, mas assim que a porta se fecha atrás dele, meu mundo desanda de novo. Meu celular vibra. De novo. Meu sangue gela.
Mensagem de número desconhecido, mais um chip, mais um jeito de romper qualquer parede que eu tente construir.
— “Gostou da última mensagem, ruiva? Eu também estou com saudade. Saudade do seus lábios, do seu calor, do seu perfume. Você é minha insanidade mais pura.”
Meu coração dá um pulo tão forte que quase rasga meu peito. Minhas mãos tremem. Sinto o gosto metálico do medo e de outra coisa que me recuso sentir por Ethan Storm.
Não respondo. Não posso responder. Abro o menu e bloqueio o número na mesma hora. Mas eu sei que não adianta. Ele sempre acha um jeito.
Eu o conheço. Sei até onde ele vai quando quer alguma coisa. E ele quer a mim.
E por mais que eu negue, por mais que eu me esconda, parte de mim entende o perigo real. Ethan Storm nunca desiste. Não importa quem precise quebrar no processo.
Levanto da cadeira com dificuldade e tento respirar fundo. O ar não entra direito. Fecho os olhos, encostando a mão no abdômen ainda discreto.
— Não agora… — sussurro. — Não me leva agora.
Eu não sei se falo com o bebê ou com o homem que me assombra.
Quando termino minhas tarefas, já está escuro lá fora. Coloco a bolsa no ombro e me preparo para atravessar a calçada até o carro.
Mas, ao sair do prédio, algo faz meu sangue congelar. Um carro preto está parado do outro lado da rua. Vidros escurecidos. Motor ligado.
Ele não deveria estar ali. Nada naquele carro combina com o trânsito daquela região. Está… observando. O vento frio corta meu rosto. Meus instintos gritam.
Ethan.
Meu coração dispara tão rápido que sinto que vou desmaiar. Olho para os lados, procurando alguém, qualquer pessoa que possa me ajudar caso algo aconteça. Há pessoas andando, mas todas alheias, como se o medo que me domina fosse invisível.
O carro não se move. Não buzina. Não avança. Mas está ali. Esperando. Engulo a seco. Levo a mão ao ventre, instintivamente protegendo aquilo que ainda é meu segredo.
Meu bebê.
— Não… — sussurro, dando um passo para trás. — Por favor… não agora.
Minhas pernas fraquejam. Por um instante, penso em voltar para dentro do prédio. Mas isso chamaria atenção. E eu aprendi rápido demais a não chamar atenção quando trato de Ethan.
Respiro fundo, com a coragem frágil como vidro. Caminho firme até o carro que me espera. Quando entro, tranco as portas e digo para o motorista:
— Pode ir. Por favor, rápido.
Ele não pergunta nada. Ainda bem.
Quando o carro arranca, meu coração continua preso na garganta. Olho pelo vidro traseiro. O carro preto continua parado no mesmo ponto.
Observando.
Esperando.
Por mim.
Quando Andrew chega, eu estou sentada na cama com as mãos juntas entre os joelhos. Ele percebe na hora que tem algo errado.
— Ruby? — pergunta, se aproximando devagar. — O que está te assustando?
Minhas palavras ficam presas. Eu poderia dizer a verdade. Poderia contar sobre o carro, as mensagens, o medo constante, a gravidez. Mas tudo me parece tão… grande. Tão pesado. Tão capaz de afundar o único pedaço de paz que ainda tenho.
Então eu faço a pior coisa possível. Eu minto.
— O passado. — respondo, num fio de voz.
Ele me puxa para o peito, envolvente, firme, um porto seguro que eu não mereço naquele momento.
— Então me deixa ser o teu presente. — ele sussurra no meu cabelo. — Eu estou contigo. Sempre.
Fecho os olhos, sentindo as lágrimas queimarem. Eu queria tanto acreditar que isso basta. Que o amor dele é forte o suficiente para afastar Ethan, para blindar nosso casamento, nossa vida. Nosso bebê.
Mas a imagem do carro preto não sai da minha mente. E, antes de dormir, a memória do beijo forçado na galeria volta. E a frase dele ecoa, como se estivesse gravada no fundo da minha alma:
— “Nenhum homem vai te fazer esquecer de mim.”
Eu tremo. Porque, no fundo, eu sei que ele não está blefando.
E sei também que, enquanto eu continuar escondendo a verdade, sobre Ethan, sobre o medo, sobre o bebê, essa sombra só vai crescer. Mas ainda não consigo falar. Não ainda.
Porque sinto, no fundo, que a primeira pessoa que eu contar… será também a primeira que corre risco real de ser ferida. E eu não sei se consigo viver com isso.
Quando finalmente apago o abajur e me deito ao lado de Andrew, sinto seu braço envolver minha cintura. Ele dorme rápido, sempre dorme rápido quando está em paz. Já eu… eu fico ali, encarando o teto, ouvindo a respiração dele, tentando me convencer de que estou segura. Mas não estou.
Porque existe uma parte minha que sabe que Ethan está mais perto do que eu consigo admitir. E existe outra parte, a que eu mais odeio, que teme a força que ele ainda tem sobre mim.
Coloco a mão sobre o ventre, protegendo o pequeno segredo que cresce ali.
— Eu vou te manter seguro. — sussurro. — Custando o que custar.
Mas no fundo, meu peito aperta. Porque nenhuma m
entira dura para sempre. E o passado… está cada vez mais perto de bater na porta exigindo o que eu não vou dar.
