Capítulo 30 Capítulo 30
Ethan
Eu deveria estar cuidando dos meus negócios. Das rotas. Dos números. Dos inimigos que esperam qualquer vacilo meu. Só que faz semanas que eu perdi o foco. E tudo por causa dela.
Por isso, hoje, decidi seguir Ruby eu mesmo. Sem intermediários. Sem seguranças. Sem olhos alheios.
Só eu observando o que é meu por direito, mesmo que ela insista que não é mais.
Fico parado dentro do carro, três ruas acima de onde ela costuma estacionar. E quando a vejo saindo do prédio, é como levar um soco direto no peito.
— Ainda sabe os mesmos caminhos, ruiva… — murmuro, sem conseguir evitar o sorriso curto.
Ela caminha devagar, uma das mãos segurando um saquinho da confeitaria que ela amava antes de desaparecer da minha vida. O vestido claro desenha o corpo dela de um jeito que me faz querer arrancá-lo ali mesmo. O cabelo preso deixa o pescoço exposto, e eu engulo em seco, lembrando exatamente onde eu seguraria, se ela me deixasse.
Mas ela não deixa.
Ainda.
Quando ela entra num café pequeno, daqueles que tocam música baixa e têm cheiro de café moído e torrado na hora, eu estaciono, desço e sigo atrás com passos calculados.
Ninguém ali sabe quem sou. Ninguém imagina o que sou capaz de fazer.
Sento a duas mesas de distância. Ela está distraída, mexendo no celular, o mindinho apoiado na xícara de porcelana, hábito antigo, que ainda me mata aos poucos. O garçom aparece ao meu lado e pergunta:
— Vai querer o quê, senhor?
— O mesmo que ela. — respondo sem tirar os olhos de Ruby.
Ele anota e sai. Eu ignoro. Tudo que interessa está na mesa à frente. Ruby apoia a mão no abdômen discretamente. Não o suficiente para que qualquer um perceba, mas eu percebo.
Ela levanta, paga a conta e sai. Eu me levanto e vou atrás. No instante em que ela toca a maçaneta de saída, digo:
— Ruby.
Ela congela. Eu vejo os ombros dela tensionarem, a respiração se prender, a mandíbula se apertar. Ela vira devagar.
— De novo, não. — diz, e a irritação está ali, mas também outra coisa que ela tenta esconder.
— Só quero conversar. — respondo, aproximando-me.
— Você não sabe conversar sem me tocar. — rebate, tentando se esquivar.
Não posso evitar. Minha mão encontra o braço dela, firme, quente, e a sensação me atravessa como uma descarga elétrica.
— Eu sonho com você todas as noites. — digo, a voz rouca. — Tem noção da tortura que é sonhar e não ter, minha doce insanidade?
Ela puxa o braço, mas eu a seguro por mais alguns segundos, suficientes para sentir o tremor.
— Me solta. — exige.
Encosto minha testa na dela. É uma loucura, mas eu perdi o juízo desde o dia em que ela assinou aquele maldito papel.
— Me diz que não sente nada. — sussurro. — Diz que não sente nada por mim.
Os olhos dela brilham, vacilam. O lábio inferior treme. E finalmente diz:
— Eu não sinto nada, Ethan. — ela mente, e a mentira queima no ar.
Eu rio baixo. Não de diversão. De raiva. De desejo. De saber.
— Então por que está tremendo? — pergunto. — Por que sua voz falha? Você não sabe mentir, ruiva.
Ela solta o ar de um jeito brusco e se afasta, quase tropeçando na própria pressa ao abrir a porta. Sai correndo pela calçada, como se estivesse fugindo de um incêndio.
Eu fico parado ali, observando o vazio deixado por ela, a respiração pesada, o peito ardendo.
— Um dia, você vai cansar de fugir. — digo para mim mesmo. — E quando cansar, você volta pra mim.
Caminho até o carro e entro, jogando o cigarro para fora antes mesmo de acender. Estou irritado. Eu queria um beijo. Só um. Mas ela escapou como água pelas mãos.
Abro o celular e encaro os números que ela já bloqueou. Ela bloqueou todos os que usei para falar com ela. Mas eu nunca fui homem de desistir.
Tiro o chip atual, jogo no porta-luvas e pego outro. Coloco no celular. Aparece o sinal. Digito sem pressa, deixando cada palavra escorrer direto da minha obsessão.
— “Ruiva, sabe o que eu faria se você parasse de fugir?”
Envio. Aguardo. Três segundos depois, o celular vibra. Ela respondeu.
— “Ethan, por favor… me deixa em paz.”
Sorrio. Ela ainda não entende que “paz” é algo que eu nunca tive desde que provei o gosto dela. Digito de novo.
— “Minha doce insanidade, eu faria você esquecer qualquer toque que não fosse o meu. Começaria beijando seu pescoço devagar… daquele jeito que te deixa mole.”
Envio. Mais uma vibração.
— “Para. Estou implorando. Me deixa viver minha vida.”
Fecho os olhos, sentindo o peso daquela palavra: implorando. Ela nunca implora. Nunca. E isso me acende por dentro. Digito:
— “Eu paro quando você carregar meu sobrenome de novo.”
Envio. O tique some. A mensagem fica cinza. Ela bloqueou o número. Jogo o aparelho no banco do passageiro e rio baixo.
— Eu compro quantos chips forem necessários… — murmuro. — Até você entender que fugir não vai mudar nada. Você é minha ruiva, goste disso ou não.
Ligo o carro e acelero sem olhar pra trás. A caça recomeçou. E eu nunca perdi um jogo desses.
Eu deveria estar focado na reunião com os chefes das famílias aliadas. Eles falavam sobre fronteiras, cargas, dinheiro, problemas territoriais. Eu não ouvia nada.
Meu celular vibrou no bolso. Mensagem desconhecida. Mas eu já sabia quem tinha enviado.
— “Sinclair vai viajar por dois dias. Sem a esposa.”
O mundo inteiro pareceu travar. Eu me levantei da mesa devagar, empurrei a cadeira para trás e caminhei para fora sem dar explicação alguma.
— Don Storm? O senhor precisa assinar…
— Depois. — rosnei, sem sequer olhar para trás.
Ninguém ousou me seguir.
Passei horas dentro do carro, observando a mansão Sinclair à distância. Se Andrew estava fora, Ruby sairia eventualmente.
E, quando saiu, quase ao entardecer, dirigindo sozinha, meu sangue esquentou. Ela não deveria estar sozinha. Nunca deveria.
Segui o carro dela a uma distância segura, até que estacionou em frente a uma sorveteria pequena. Ruby desceu calmamente, com o vestido leve balançando. Parecia… serena.
Serena demais para alguém que eu tinha jurado para mim mesmo que ainda pertencia a mim. Fiquei esperando. Quando ela saiu, segurando um pote de sorvete, olhou para o lado, e nesse segundo eu agi.
Agarrei o pulso dela, tampei sua boca quando tentou gritar e a puxei com firmeza para dentro do meu carro.
— Ethan! — ela gritou assim que soltei sua boca. — Isso é SEQUESTRO! Está maluco?!
Ela começou a bater no meu ombro, no meu peito, como se isso fosse me afastar.
— Termina, ruiva. — falei, rindo de canto. — Você sempre fica mais bonita quando está com raiva.
— Eu te odeio! Me deixa sair! — ela continuou batendo, mas eu só segurei suas mãos.
— Odeia nada. — respondi baixo. — Se odiasse, não estaria vermelha.
Ela me xingou por todo o caminho até a mansão Storm.
Quando levei Ruby para o meu quarto, ela estava ofegante, furiosa, descontrolada. Eu a encurralei contra a parede. Ela virou o rosto para longe, e eu virei de volta pra mim. E a beijei.
Um beijo que roubou o fôlego dos dois, um choque, um pedido, uma maldição. As mãos dela pressionaram meu peito para afastar… mas depois puxaram minha camisa. Ela se entregou por segundos longos, perigosos.
Quando me afastei, ela estava com os lábios trêmulos.
— Me deixa ir… por favor. — ela sussurrou.
Eu toquei o queixo dela.
— Eu deixo. Mas só se me beijar de volta. Sem mentira. Sem essa máscara de ‘não sinto nada’. Um beijo sincero e eu mesmo te levo de volta.
Ela ficou imóvel. Me encarando. Analisando cada palavra minha.
— Você jura… que me deixa ir? — perguntou, quase sem voz.
— Se o beijo for verdadeiro, sim. — confirmei.
Ela pareceu pensar um pouco, insegura. E então ela fez. Ela me beijou. Não como alguém cumprindo um acordo. Mas como alguém que tenta negar o próprio coração, e falha.
O beijo dela era quente, desesperado, cheio de saudade que ela não admite sentir. Eu senti tudo. Senti ela se quebrando. Senti eu quebrando junto.
Quando Ruby terminou o beijo, manteve a testa encostada na minha.
— Agora cumpre o que prometeu. — ela pediu, a respiração acelerada.
Eu fechei os olhos.
— Eu tenho palavra, rui
va. Vou te levar de volta. — respondi. — Mas esse beijo… — abri os olhos e encarei os dela. — Esse beijo só me deu mais motivos para nunca desistir de você.
