Capítulo 31 Capítulo 31
Astrid
Eu sempre disse que o mundo é movido por duas forças: medo e desejo. E Ruby sempre foi movida pelos dois. Especialmente pelo medo. Medo de mim. Medo de Ethan. Medo do próprio passado.
É por isso que é tão fácil derrubá-la. Tão simples. Tão… prazeroso.
Cruzo as pernas no sofá do meu apartamento enquanto observo, pela terceira vez, a sequência de fotos que consegui com o repórter que monitora Ruby desde que ela voltou para Londres.
Ela aparece entrando em cafés, saindo de lojas, sempre olhando para os lados, como se soubesse que algo ruim estivesse prestes a acontecer. E está.
— O medo deixa as pessoas burras. — digo ao meu assistente, que está em pé, segurando uma prancheta. — E ela… é previsível.
Ele apenas engole seco, acostumado com o meu humor.
Eu pego outra pasta com fotos antigas. Ruby e Ethan. Ruby sorrindo. Ruby com os cabelos ruivos mais bagunçados, em uma das raras vezes em que ele a levou para algum lugar público.
Não é difícil entender porque o Ethan surtou quando ela fugiu. Ele nunca teve nada tão puro. E perdeu. E, se depender de mim, vai perder de novo. Mas dessa vez, ele perde para sempre.
— Ligue para o jornalista. — digo, levantando do sofá. — Está na hora de Londres lembrar quem ela realmente é.
O assistente liga no viva-voz. O repórter atende na terceira chamada.
— “Senhorita Laurent? Como posso ajudar?”
Eu pego uma foto e a ergo entre os dedos.
— Tenho informações sobre a esposa do bilionário Sinclair. — digo, e posso ouvir o sorriso dele através da respiração acelerada.
— “Que tipo de informações?”
— Do tipo que derrubam reputações. — respondo, entregando ao meu assistente o envelope cheio de provas cuidadosamente selecionadas. — Fotos antigas dela com o ex-marido. E detalhes do envolvimento com ele… enquanto já estava casada com Sinclair.
É mentira. Mas tabloides vivem de mentiras bem contadas.
— “Isso é grande.” — o repórter diz. — “Posso citar sua fonte?”
Rio, baixo e elegante.
— Não. Considere isso… um presente. — respondo.
Ele agradece como se estivesse ganhando ouro. Desligo antes mesmo de ouvir qualquer outra coisa. O meu assistente respira fundo.
— Senhorita Laurent… a senhora acha mesmo que isso vai abalar o casamento deles?
Eu caminho até a janela e observo as luzes de Londres brilhando como se me reverenciassem.
— Ruby desmorona com qualquer vento mais forte. É só dar a direção certa.
Pego minha bolsa.
— Hoje vou sair. Prepare o carro.
A boate de luxo parece um formigueiro de luzes, risos e arrogância masculina. Perfeita para o que quero.
Ethan está lá. Sozinho. Com uma garrafa cara ao lado e olhos que entregam tudo, ele está destruído. Não que isso me faça sentir pena. Eu nunca senti pena de ninguém.
Me aproximo devagar, como um felino que já sabe que a presa está ferida demais para correr.
— Vejo que a ruiva sonsa ainda é o teu vício. — digo, me sentando ao lado dele.
Ele não olha. Apenas suspira.
— Vai embora, Astrid.
Rio. Ele sempre diz isso. Mas nunca se levanta. Nunca me impede de ficar.
— Eu posso te ajudar a esquecer ela. — digo, inclinando o corpo para perto do dele.
Ele vira o rosto e finalmente me encara, os olhos vermelhos de álcool e obsessão.
— Eu não quero esquecer. — diz, seco. — Quero ela de volta.
A arrogância dessa frase me faz sorrir, porque é patética. E deliciosa.
— Ela está casada com outro, Ethan. — digo, tocando a mão dele de propósito. — E eu estou aqui. Na sua frente. Disponível. Diferente dela.
Ele puxa a mão, irritado.
— Você nunca vai ser ela. É melhor desistir, ou logo pode deixar de respirar.
O insulto deveria me ferir. Mas não fere. Eu já sabia. Porque eu não quero ser ela. Quero substituí-la. Quero ser a mulher que ele escolhe quando Ruby não puder mais ser escolhida. E eu tenho exatamente o plano para isso.
— Você é idiota. — digo, pegando minha bolsa. — Não consegue esquecer a mulher que destruiu sua vida. Mas pode destruí-la de volta.
Ele fica tenso. A respiração dele muda.
— Eu não quero você no caminho dela. — ele diz, como se fosse uma criança teimosa. — É melhor parar o que quer que esteja fazendo.
Eu sorrio de lado, tocando o ombro dele antes de ir embora.
— Então, espero que esteja preparado para o que vai sair nos jornais amanhã. Sou uma força da natureza, ninguém me para.
O olhar dele finalmente vacila. Ah, Ethan… ele sabe. Ele sempre sabe até onde eu vou quando quero algo só pra mim. Mas quando perceber que perdeu Ruby de novo… vai vir atrás de mim. Sempre vem.
De volta ao meu apartamento, tiro os saltos, abro o laptop e escrevo o título do dossiê que preparei:
— “A verdadeira história por trás da esposa do bilionário Andrew Sinclair.”
Coloco fotos, datas fabricadas, supostos encontros clandestinos inventados. Tudo formatado, organizado… perfeito.
Pouso o dedo sobre o botão de enviar. Fecho os olhos por um segundo, saboreando o momento.
— Foi você quem escolheu isso, Ruby. — falo. — Quando roubou dele o que era meu.
Clico em Enviar. O e-mail voa para a redação mais venenosa de Londres.
E quando o escândalo explodir, quando ela for humilhada publicamente, quando Andrew olhar para ela com dúvida nos olhos… Ethan vai correr para salvá-la. Mas ela vai estar caída demais. Fraca demais. E é nos fracos que eu piso com mais força.
Deitada no sofá, com a taça de vinho na mão, sussurro para mim mesma:
— Vamos ver quanto tempo uma ruiva prestes a desmoronar aguenta antes de implorar por misericórdia.
E bebo, antecipando o caos que eu mesma criei.
Antes de dormir, decido fazer uma última ligação. Não por necessidade. Por diversão. Por ego.
— Atenda… — falo, ouvindo o toque. — Sei que você ainda é obcecado por mim.
Ele atende na terceira chamada, a voz grave e carente demais para um homem como ele.
— “Astrid? Você… sumiu. Eu… senti sua falta.”
Sorrio. Homens são previsíveis.
— Sentiu? — pergunto, deslizando os dedos pela taça de vinho. — A ponto de ajoelhar de novo pra mim?
— “Se você pedir… eu ajoelho agora.” — ele responde, arfando. — “Eu quero você de volta, Astrid. Do jeito que era antes.”
Eu fecho os olhos, saboreando a súplica.
— Então me prova. — digo, a voz baixa, venenosa. — Me traz um presente.
— “Qualquer coisa.” — ele promete.
Inclino a cabeça e deixo a frase cair como chuva planejada:
— Ruby Sinclair. Morta.
Há silêncio. Mas não o silêncio horrorizado que alguém normal teria. É o tipo de silêncio… interessado. Tentado.
— “Astrid… isso é sério.”
— Eu nunca brinco com aquil
o que desejo. — sussurro. — Pense bem. Uma mulher morta. E eu… devolvida a você.
Ele engole seco. Eu sorrio. O caos está apenas começando.
