Capítulo 32 Capítulo 32

Ruby

Acordei com o som insistente do meu telefone vibrando na mesa de cabeceira. No começo tentei ignorar, pensando que talvez fosse alguma notificação boba ou alguém da empresa confundindo horário. Mas quando o telefone tocou pela terceira vez seguida, senti o corpo inteiro despertar com um alerta estranho, quase físico.

— Ruby… — ouvi a voz de Andrew antes mesmo de abrir os olhos.

Ele estava parado na porta do quarto. Sem camisa, apenas a calça de dormir, mas o rosto… o rosto estava diferente. Fechado. Tenso. Algo que nunca vi direcionado a mim.

— Andrew? — me sentei devagar. — O que aconteceu?

Ele entrou no quarto sem dizer nada e colocou o tablet no meu colo. O peso dele pareceu puxar o ar do meu corpo. Quando olhei para a tela, minhas mãos tremeram.

A manchete vinha em letras grandes, vermelhas, sensacionalistas:

— “A NOVA ESPOSA DO BILIONÁRIO ANDREW SINCLAIR ERA MULHER DE UM HOMEM PERIGOSO.”

Abaixo, uma sequência de fotos minhas. Algumas antigas… mas outras eram absurdamente recentes. Eu com Ethan na frente do café. Eu sendo puxada por ele semanas atrás. Eu na calçada, assustada, olhando por cima do ombro.

Meu coração caiu no estômago.

— Isso… isso é mentira. — minha voz saiu trêmula. — Fizeram alguma montagem, Andrew. Isso é montagem.

Ele respirou fundo e se sentou ao meu lado na cama.

— Eu sei que você não fez nada errado. — disse com calma, mas a linha do queixo estava rígida. — Mas as fotos parecem reais, Ruby. Para qualquer pessoa de fora… parece que você está tendo um caso com seu ex-marido.

Meu estômago embrulhou.

— Essas fotos… como eles conseguiram isso? — perguntei, já sabendo a resposta. — Ele me seguiu. Ethan me seguiu. Pode ter sido isso.

Andrew passou a mão pelos cabelos, frustrado.

— Seja quem for — ele disse, mesmo sabendo o nome — não tem a intenção de parar.

Eu engoli seco. Senti meus olhos arderem.

— Andrew… — minha voz falhou. — Eu te juro, eu JURO, não estou escondendo nada de você. Nada. Eu só queria seguir em frente. Só isso.

Doeu mentir pra ele, doeu demais, mas no momento estou acuada. Ele me puxou para o peito, apertando com força.

— Eu acredito. — sussurrou. — Mas o mundo não. E é isso que mais me preocupa.

Desabei no abraço dele, sentindo aquele peso esmagar os meus ombros. Eu estava tentando ser alguém nova. Uma nova esposa. Uma nova mulher. Uma nova vida. Mas o passado não me deixava respirar.

Horas depois, saímos juntos. Andrew tinha uma reunião e insistiu para que eu fosse com ele.

— “É mais seguro assim” — ele repetiu umas cinco vezes. Eu queria acreditar. Queria achar que a segurança viria só por estar ao lado dele.

Mas bastou o carro se aproximar da Sinclair Tech para eu perceber que já era tarde demais. Câmeras. Microfones. Repórteres se empurrando como uma multidão faminta.

— Meu Deus… — sussurrei, levando a mão ao peito.

— Fica atrás de mim. — Andrew disse, abrindo a porta antes mesmo que o motorista desligasse o carro.

Mas não adiantou. Assim que pisei no chão, a enxurrada veio.

— Senhora Sinclair! Por que escondeu que ainda tinha contato com Ethan Storm?

— É verdade que o senhor Storm a visita?

— O senhor Sinclair sabia que você era esposa de um criminoso perigoso?

— O seu coração é do senhor Sinclair ou do senhor Storm?

A última pergunta bateu como um tiro no meu estômago.

— Eu não estou… — não consegui terminar. Minha garganta fechou.

Andrew avançou, duro, frio, o Ceo impecável que ninguém ousa enfrentar.

— Afastem-se. — ele ordenou. — Não terão resposta alguma hoje.

Mas eles não recuavam. A cada flash, eu sentia o chão desaparecer aos poucos. Ethan tinha feito isso. Astrid tinha feito isso. Os dois tinham destruído minha vida antes. E estavam fazendo de novo.

Corri de volta para o carro, sem conseguir respirar. Andrew entrou logo atrás, batendo a porta com força.

— Ruby, olha pra mim. — ele pediu, tocando meu rosto. — Respira.

— Ele vai destruir minha vida de novo, Andrew… — falei, a voz embargada, socando o banco da frente. — Ele vai acabar comigo. Eu só queria… só queria paz.

Andrew segurou minha mão com firmeza.

— Ele não vai. — disse, com uma certeza que eu não tinha. — Mas eu posso atrasá-lo.

Olhei para ele, assustada.

— O que isso significa? O que você vai fazer?

Ele respirou fundo, os olhos fixos nos meus.

— Proteger o que é meu, ruivinha.

Aquela frase deveria me confortar. Andrew nunca tinha me feito medo. Nunca. Mas naquele momento… eu vi no olhar dele algo que nunca tinha visto antes. Uma sombra.

— Andrew… não faça nada que possa te colocar em risco. Eu não quero isso.

— Eu não me coloco em risco. — ele disse calmamente. — Eu elimino riscos.

Fechei os olhos, tentando acalmar a respiração. Mas a imagem dos repórteres, as perguntas invasivas, os flashes, tudo se misturava num nó nauseante.

— Eu não mereço isso, Andrew… eu só quero ficar em paz. — sussurrei.

Ele se aproximou e me puxou para o peito.

— Eu sei. — disse com suavidade. — Mas você também não merece viver com medo. Eu vou resolver isso. Eu prometo.

— E se ele não parar? — perguntei, sabendo exatamente quem era o “ele”.

Andrew apertou meu queixo, me fazendo encarar seus olhos claros.

— Então eu vou fazer ele parar.

E foi naquele instante… naquele exato segundo… que percebi algo que nunca imaginei. Andrew estava disposto a bater de frente com Ethan.

E Ethan… Ethan não era o tipo de homem que deixava conflitos morrerem.

Meu coração bateu rápido. Não pelo medo do tabloide. Não pela vergonha pública. Mas pelo que poderia vir.

Eu estava no meio de uma guerra que nunca quis lutar. E agora, grávida, vulnerável, exposta… eu não sabia como sobreviveria a isso.

Só sabia de uma coisa… Astrid tinha começado uma guerra que poderia matar todos nós.

À tarde, tentei me distrair revisando documentos e rotinas da empresa, mas não consegui. As imagens da matéria, dos flashes, dos repórteres gritavam na minha cabeça. Andrew mandou reforçar a segurança na empresa e na mansão, mas eu sabia que aquilo era apenas o começo.

As ameaças sempre vinham antes da queda. Enquanto caminhava pelo corredor do décimo andar, ouvi sussurros.

— Ela é a esposa nova do Sinclair.

— Tem foto dela com o Storm…

— Dizem que ela mentiu pra ele.

— Que mulher irresponsável.

Abaixei a cabeça e caminhei mais rápido, com a sensação de que todos os olhos estavam em mim. Parei no banheiro feminino, lavei o rosto e me encarei no espelho.

Todos os medos que eu escondia estavam estampados ali. Minha vida estava escapando por entre meus dedos de novo. E a culpa era de quem?

Ethan.

Astrid.

E eu mesma, por ainda sentir alguma coisa quando ele me tocava. Encostei a mão no abdômen. Fraco ainda. Mas ali. Presente.

— Eu vou proteger você. — prometi ao meu bebê. — Mesmo que eu tenha que enfrentar o inferno outra vez.

Quando voltei para casa, Andrew estava de paletó, pronto para sair.

— Para onde vai? — perguntei, preocupada.

Ele me olhou com uma expressão firme.

— Resolver uma parte do problema.

— Andrew…

— Eu volto antes do jantar. — disse, beijando minha testa. — Confia em mim.

E então saiu. Eu fiquei ali, parada, com o coração apertado. Porque eu sabia. Ele estava indo atrás de Ethan. E Ethan… não era alguém que aceitava ser confrontado.

Nem por mim.

Nem por Andrew.

Nem por ninguém.

À noite, enquanto tentava comer algo, meu celular vibrou. Uma mensagem sem identificação. Eu congelei antes mesmo de abrir. Mas abri.

— “Você achou que podia se esconder atrás do meu oposto perfeito, ruiva?”

Meu sangue gelou. Outra mensagem chegou em seguida.

— “Eu comecei uma guerra quando perdi você. E agora você vai ver até onde ela vai.”

Eu soltei o celular na mesa, o coração disparado.

— Meu Deus… — sussurrei.

Porque, naquele momento, eu entendi. O escândalo não era o fim. Era só o começo. Meu celular vibrou outra vez. Digitei com os dedos trêmulos:

— Você entregou aquelas fotos. Foi você quem fez isso comigo.

A resposta veio na mesma hora:

— “Não fui eu. Mas vou fazer eles apagarem tudo. E vão se retratar com você.”

Senti a raiva subir.

— Então foi a Astrid. Controle a sua amante.

Antes que eu bloqueasse, ele ligou. Eu não queria atender… mas atendi.

— “A única amante que eu tenho… a única mulher que já foi minha… é você, Ruby.” — ele disse, com aquela voz baixa que arrepia. — “E isso nunca vai mudar.”

— Não faz sentido. A gente nunca foi pra cama. Nunca vamos ir. Eu sou casada com o Andrew.

“Por enquanto, ruiva. Logo… você vai ser minha de novo. Só minha.”

Eu desligo, meu coração e minha respiração parecem querer colapsar. Mas eu tento me controlar, ele não merece nada de mim.

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