Capítulo 34 Capítulo 34

Ruby

Eu sempre achei que vergonha tinha cheiro. Hoje eu tenho certeza. Cheira a desinfetante caro, a café frio esquecido na xícara, a maquiagem borrada na pia do banheiro.

Faz dias que eu ainda não coloco o pé para fora da mansão.

Houve retratação. Os sites publicaram notas limpando meu nome, dizendo que as informações sobre mim e o passado com Ethan Storm tinham sido distorcidas. A equipe de comunicação do Andrew ligou, explicando tudo com termos bonitos.

Nada adiantou.

Toda vez que eu ligo a TV, meu rosto está lá. Uma foto antiga ao lado de Ethan. Uma foto recente ao lado de Andrew. Os programas debatem minha vida como se eu fosse um personagem de novela ruim. Alguns me chamam de interesseira, outros de coitada.

Eles riem, analisam, opinam. Nunca me olharam nos olhos, mas têm certeza de quem eu sou. Andrew faz o que pode para me manter calma. Tenta ser o porto seguro que prometeu ser.

Na sala, ele desliga a TV assim que vê meu rosto aparecer.

— As pessoas vão esquecer, ruivinha. — diz, puxando-me para o sofá. — A internet vive de escândalo novo. Daqui a pouco aparece outro e eles mudam o foco.

Eu rio sem humor.

— Não, Andrew. Ninguém esquece quando o nome Storm está envolvido.

Ele respira fundo, passa a mão pelos cabelos.

— Eu já estou processando metade dessa gente. E, se precisar, processo o resto. Você não fez nada de errado. Eles fizeram.

Eu sei que ele acredita em mim. É isso que mais dói. Porque, mesmo acreditando, ele não consegue controlar o mundo.

Quando ele vai para o escritório resolver mais uma reunião, eu fujo para o único lugar onde ainda consigo ficar sozinha, o banheiro do quarto.

Fecho a porta, apoio as costas na madeira e escorrego até sentar no chão frio. O reflexo no espelho me encara lá de cima… olheiras profundas, pele pálida, boca sem cor.

Levanto com esforço e me aproximo da pia. Ligo a torneira, deixo a água escorrer e jogo algumas gotas no rosto, como se isso fosse apagar a sensação de sujeira que a imprensa grudou em mim.

Os enjoos estão piores.

No começo, eu conseguia fingir que era só nervoso, comida pesada, calor. Agora, qualquer cheiro mais forte me dá vontade de vomitar. Eu me encosto na pia, fecho os olhos e respiro devagar, tentando não desmoronar.

— Só mais um pouco, bebê. — falo, apertando o abdômen com carinho. — Só mais um tempo antes de todo mundo saber que você existe.

Eu ainda não contei para Andrew. Não porque não confie nele, mas porque tenho medo de estragar um dos poucos pontos de luz que ainda restam na nossa vida.

Enquanto seco o rosto com a toalha, o celular vibra em cima da bancada. Olho para a tela. Número desconhecido. Meu estômago se fecha. Abro a mensagem.

— “Um anjo não devia beijar um demônio.”

As letras parecem ficar maiores. Meus dedos gelam. O celular pesa na mão. As pernas perdem a força, e eu sento na beirada da banheira antes de cair.

— É ela. — sussurro para o banheiro vazio. — Só pode ser a Astrid.

Ela viu tudo. Ela é o tipo de mulher que guarda munição para atirar na hora certa. E, agora, sabe que eu beijei Ethan. Não importa se foi roubado ou confuso. Na cabeça dela, é suficiente para me matar.

Por um instante, penso em correr até Andrew e mostrar a mensagem. Mas a imagem dele aparece na minha cabeça… rosto cansado, olhar pesado, tentando me proteger de todos os lados.

Eu não quero colocar mais peso nos ombros dele. Apago a mensagem. Apago o número. Mas não apago o pânico.

No dia seguinte, Andrew sai cedo para o escritório.

— Tem certeza que não quer ir comigo hoje? — pergunta, vindo até a cama e sentando ao meu lado.

Eu estou com o roupão ainda, cabelo preso em um coque improvisado.

— Não. — respondo. — Se eu pisar na empresa agora, vão me engolir viva.

Ele segura minha mão.

— As pessoas vão esquecer, Ruby.

— Você está repetindo isso mais pra você do que pra mim. — comento.

— Talvez. Mas eu vou continuar repetindo até virar verdade.

Inclino a cabeça no ombro dele.

— Só… não demora. — peço. — Ficar aqui sozinha me deixa com a sensação de que o mundo inteiro está do lado de fora da janela esperando eu abrir a cortina.

Ele beija minha têmpora.

— Eu volto assim que puder. Qualquer coisa, liga.

Assinto. Ele se levanta, pega a pasta e vai embora. Assim que a porta se fecha, eu sinto a casa parecer grande demais. O silêncio não é paz. É ameaça.

Fico andando pela sala sem rumo. Olho pela janela, vejo os seguranças do Andrew no jardim, atentos o tempo todo.

Depois de um tempo rodando pelos mesmos cômodos, o ar começa a pesar. Sinto o peito apertar, a cabeça latejar.

— Eu preciso respirar ar puro. — digo em voz alta.

Pego um jeans, uma camiseta larga, um casaco, óculos escuros e um boné. Não é meu estilo, mas hoje eu não quero ser a esposa de ninguém. Só quero ser uma mulher qualquer andando na rua.

Aviso a um dos seguranças que vou dar uma volta rápida de carro. Ele oferece para me acompanhar, eu recuso.

— Eu só vou dirigir um pouco. — digo. — Se eu ver movimento estranho, volto.

Saio da mansão com as mãos firmes no volante. O céu está nublado. Estaciono algumas ruas depois, perto de um pequeno parque. Penso em descer, caminhar, ver gente que não sabe quem eu sou. Mas assim que desligo o carro, vejo flashes no retrovisor. Dois, três, quatro fotógrafos surgem do nada.

— Senhora Sinclair! — um deles grita, correndo na minha direção.

Puxo o boné mais para baixo, mas já é tarde. Eles reconhecem. Abro a porta e tento seguir em direção ao parque, mas não dou dois passos.

— Senhora Sinclair, é verdade que o senhor Storm ainda a procura?

— Você ainda tem contato com ele?

— O senhor Sinclair sabia de tudo desde o começo?

As perguntas vêm como pedras. As lentes chegam tão perto que eu quase enxergo meu próprio pânico refletido nelas.

— Por favor, me deixem em paz. — peço. — Eu não vou responder nada.

Tento contornar, mas um deles se posiciona na frente, bloqueando a passagem. As luzes dos flashes me cegam. Sinto o coração disparar. O mundo gira um pouco. A mão vai direto para a barriga, instintiva, protetora.

— Não agora… não faz isso agora. — sussurro para o bebê que ninguém sabe que existe.

Desisto de ir até o parque e volto correndo para o carro. Quase escorrego na calçada molhada. Entro e tranco tudo. Minha respiração está acelerada. Eu tento ligar o carro, mas os flashes continuam, agora colados no vidro.

— Senhora Sinclair, uma palavra!

— Você se arrepende de ter se envolvido com um homem perigoso?

Fecho os olhos, tentando me concentrar no som do motor. E é aí que eu sinto. Um sentimento estranho. Abro os olhos e vejo, pelo retrovisor, algo que faz meu sangue gelar.

Os paparazzi estão se afastando. Primeiro um, depois outro, como se alguém os tivesse empurrado.

Homens grandes, de terno escuro, surgem nas laterais. Um deles aponta algo com o dedo. Outro segura um dos fotógrafos pelo colarinho e o faz recuar. Não há violência explícita, mas há ameaça suficiente para qualquer um entender o recado.

Os jornalistas começam a guardar os equipamentos às pressas. Em segundos, a pequena multidão que me cercava está se dispersando.

E então eu o vejo. Do outro lado da rua, encostado em um carro preto, mãos nos bolsos, expressão tensa e controlada, está ele.

Ethan Storm.

Os olhos dele estão fixos em mim, como se nada mais existisse ao redor. Meu coração dispara de um jeito tão forte que dói. Eu engulo em seco, aperto o volante com força.

Ele não se mexe. Não faz sinal. Não tenta atravessar a rua. Só fica ali, enquanto os homens dele terminam de expulsar os paparazzi.

Por um segundo, eu não sei se devo me sentir mais protegida… ou mais presa. Tranco as portas de novo, mesmo sabendo que, se ele quisesse, ninguém naquela rua teria chance de me impedir de ser levada.

Respiro fundo, a voz saindo quase inaudível:

— Me deixa em paz… por favor.

Ele não pode me ouvir, mas continua olhando. O tipo de olhar que eu conheço: frio, possessivo, decidido.

Coloco o carro em movimento com as mãos trêmulas. Quando passo por ele, me esforço para não virar o rosto. Mas, no último segundo, não resisto.

Nossos olhos se encontram por um instante. E eu não s

ei se é ódio, loucura ou algum tipo doentio de cuidado que vejo ali. Só sei de uma coisa, enquanto Ethan Storm estiver vivo, eu nunca vou ter paz.

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