Capítulo 36 Capítulo 36

Capítulo 36

Ethan

Eu sempre achei que ver o mundo pegar fogo por minha causa era um tipo de prazer. Negócios ruindo, rivais caindo, manchetes carregadas com meu nome ou com o medo que ele provoca… tudo isso sempre foi só parte do jogo.

Mas naquele dia, sentado no sofá do meu escritório, com a TV ligada em um programa idiota de fofoca, eu descobri que existe um tipo de caos que eu odeio.

O caos que arrasta o nome dela junto.

A apresentadora, com um sorriso fake, apontava para a tela atrás dela. A foto era do casamento. Ruby de vestido, aquele maldito Sinclair ao lado dela, mão na cintura, sorriso de homem que se acha salvador.

Embaixo, letras garrafais:

— “ESPOSA DO BILIONÁRIO TEM PASSADO LIGADO AO SUBMUNDO.”

Eu já conhecia aquela manchete. Já tinha visto a primeira leva de ataques. Já tinha mandado tirar do ar o que foi possível. Já tinha colocado meus advogados pra intimidar quem pudesse ser intimidado.

Mas agora era uma “análise especial”. Um quadro inteiro dedicado a comentar o “histórico perigoso” da esposa perfeita de Andrew Sinclair.

— “Fontes anônimas afirmam que ela foi casada com um homem ligado ao crime organizado” — dizia o apresentador. — “Há quem diga que ela ainda recebe visitas dele…”

Desliguei a TV com um toque seco, o controle quase rachando na minha mão.

Eu deveria sentir o quê? Satisfação por ver o nome Sinclair misturado ao meu mundo? Alívio por saber que ninguém consegue esquecer que Ruby foi minha antes de ser de qualquer outro?

Mas não era isso que eu sentia. Eu sentia raiva. Raiva de ver a imagem dela jogada no lixo. Raiva de imaginar Ruby encolhida em algum canto, segurando as próprias feridas, enquanto Sinclair posa de herói, dizendo que vai “proteger” a esposa.

Ele pode sair no jornal como o marido perfeito. Pode abraçar, consolar, apagar incêndios. Mas quem colocou o corpo na frente da bala por ela nas ruas? Fui eu. Quem escolheu ser o vilão pra mantê-la viva? Fui eu.

E agora eu tinha que assistir o príncipe de terno caro fazendo o papel de salvador, enquanto eu viro o monstro da história. O problema é que eu descobri tarde demais que vilões também amam.

Peguei o cigarro, girei entre os dedos, mas nem cheguei a acender. Meu telefone vibrou. Era uma mensagem de um dos meus homens.

— “Ela saiu. Ateliê da Elise. Ensaio de vestidos. Sinclair reservou o lugar só pra ela hoje.”

Elise. Uma velha conhecida. Costureira de confiança da alta sociedade… e de alguns mafiosos também. Eu já tinha pagado caro por alguns ternos naquele ateliê. Não era difícil imaginar Ruby lá dentro, cercada de espelhos e tecidos, tentando fingir que ainda tinha uma vida normal.

Sinclair tinha feito o que gente como ele faz, comprado o espaço, fechado as portas, colocado segurança na entrada. Uma bolha de vidro pro pequeno mundo perfeito dos dois.

Engraçado. Ele acha mesmo que consegue criar um lugar onde eu não entro? Peguei o casaco, enfiei a arma na cintura e desci direto para a garagem.

O prédio de Elise era discreto, uma fachada antiga no meio de uma rua tranquila. Dois andares apenas, janelas altas, cortinas brancas. E, como esperado, um segurança plantado na porta, terno preto, postura dura demais para alguém “normal”.

Parei o carro um pouco antes, desci, ajeitei o paletó e caminhei até ele.

— Boa tarde — falei, encarando-o.

— Boa tarde, senhor. — Ele se colocou à frente da porta. — Hoje o andar de cima está reservado. Atendimento exclusivo.

— Eu sei — respondi. — É exatamente por isso que estou aqui.

Ele analisou meu rosto com uma expressão confusa, mas profissional.

— O senhor tem horário marcado? O senhor Sinclair proibiu qualquer entrada que não tenha sido autorizada.

Soltei um sorriso sem humor.

— O senhor Sinclair não manda em mim.

O segurança respirou fundo, mantendo a postura.

— Eu entendo, mas ainda assim não posso permitir a sua entrada. Tenho ordens claras.

Inclinei um pouco o corpo, deixando o casaco abrir o suficiente para que ele visse a arma na minha cintura.

— Tem certeza? — perguntei, calmo.

A mudança foi imediata. O olhar dele vacilou por um segundo. Ele engoliu em seco, deu um passo para o lado, abrindo espaço.

— O senhor não foi anunciado… — tentou argumentar, num fio de voz.

— Já fui anunciado há muito tempo — retruquei. — Só pelo nome.

Subi as escadas devagar, sentindo o cheiro de tecido novo, perfume caro e café recente. Vozes baixas vinham do andar de cima, risadas femininas, o barulho de cabides sendo arrastados.

Quando virei o corredor, vi Elise primeiro. Ela estava ajeitando um vestido num manequim, de costas para mim. A outra figura, sentada numa poltrona, mexendo na barra de um tecido leve, era ela.

Ruby.

Cabelo preso num coque despretensioso, alguns fios soltos caindo pelo rosto. Um vestido simples, mas que marcava o corpo de um jeito que eu nunca vou conseguir esquecer. Quando ela ergueu o olhar e me viu parado ali, a cor sumiu do rosto de um jeito que quase doeu em mim.

— Ethan? — a voz saiu fraca.

Elise se virou, surpresa.

— Senhor Storm… eu… não sabia que o senhor…

— Pode nos deixar a sós, Elise. — falei, sem desviar de Ruby.

Ela entendeu na hora o tipo de problema que estava diante dela. Ajeitou o blazer, limpou as mãos num pano e disse:

— Eu… vou ver algo no estoque. Qualquer coisa, me chamem.

Assim que Elise desapareceu pela porta lateral, o silêncio entre nós ficou pesado. Ruby respirou fundo, tentando recuperar a cor.

— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, fechando os dedos na barra do próprio vestido. — Esse lugar está reservado.

Dei alguns passos na direção dela.

— Estou tentando entender como é que a mulher que eu jurei proteger virou manchete de escândalo de novo.

Ela riu, uma risada seca, dolorida.

— Agradece sua amante por isso. — disparou. — Ou pelo menos controle ela. E você não tem o direito de me seguir!

— Tenho todos os direitos sobre você, Ruby. — respondi, sentindo a raiva subir. — Mais do que qualquer homem que tenha aparecido depois.

Ela levantou da poltrona num pulo, o olhar ferido e irritado.

— Você perdeu qualquer direito sobre mim quando assinou aquele divórcio como se eu fosse um contrato menor. Quando escolheu outra mulher em vez da esposa. O único direito que você tem agora é ficar longe.

Dei mais um passo. Ela recuou, mas não o suficiente.

— Ethan, por favor… — disse, olhando rápido para a porta do estoque. — A Elise vai voltar a qualquer momento. Vai embora.

Eu não fui.

Minha mão alcançou o pulso dela antes que ela voltasse para a poltrona. A pele dela estava quente, o pulso acelerado, o que não combinava com alguém “feliz e em paz”.

— Diz pra mim que é feliz com ele. — pedi, a voz baixa, firme.

Ela tentou puxar o braço, mas não conseguiu.

— Eu sou! — gritou, e as lágrimas finalmente transbordaram. — Eu sou feliz com o Andrew!

Soltei o pulso dela, mas dei mais um passo e me inclinei, até que nossos rostos ficaram a poucos centímetros.

— Então por que está chorando? — perguntei, encarando cada detalhe do rosto dela.

Ruby virou o rosto de lado, como se não aguentasse o peso do meu olhar.

— Porque você não me deixa te esquecer por completo! — a voz dela se quebrou. — Vai embora, por favor, Ethan. Eu não aguento mais… isso.

Aquelas palavras entraram na minha pele como garras. Eu deveria ter sentido culpa. Talvez qualquer outro homem sentisse. Mas eu só consegui sentir uma mistura confusa de dor, desejo e algo que eu n

unca admiti em voz alta.

Ela não me esquece. Ela tenta, mas não consegue. E, por mais retorcido que isso seja… eu me agarro a isso.

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