Capítulo 37 Capítulo 37

Ethan

Aproximei a mão da nuca dela, os dedos se fechando ali com firmeza, não bastante para machucar, mas o suficiente para que ela soubesse que eu não estava brincando.

— Ainda sinto o teu cheiro naquele quarto que era seu, ruiva — falei, encarando o canto da boca dela. — E sei que você lembra, todo santo dia, da sensação que tem quando é beijada por mim. Não adianta fingir que esqueceu.

Ela colocou as mãos no meu peito e me empurrou, mas o corpo dela tremia.

— Por favor, Ethan… sai daqui! — pediu, a voz embargada. — Se você tiver um mínimo de consideração por mim, vai embora.

Considerei o pedido por meio segundo. O bastante para sentir uma fisgada estranha de respeito por ela. Ruby sempre foi forte. Mais do que eu merecia. Mais do que Sinclair merece.

Mas eu também sou quem eu sou. Um homem acostumado a tomar à força o que o mundo negou. Hesitei, sim. Só que a vontade de sentir o gosto dela de novo falou mais alto.

Segurei o rosto de Ruby com as duas mãos, puxei de leve e encostei minha boca na dela. Não foi um beijo calmo. Foi um beijo cheio de raiva por tudo o que eu não fiz quando devia.

Cheio de saudade de todas as vezes que eu poderia ter beijado e não beijei. Cheio de ciúme do homem que, agora, dorme na cama que deveria ser minha.

Os lábios dela se apertaram num primeiro momento, resistência automática. Eu insisti, aprofundei o beijo, e então ela cedeu. As mãos que antes empurravam meu peito se fecharam na minha camisa, puxando, segurando, como se estivesse tentando me afastar e se agarrar ao mesmo tempo.

Quando senti o corpo dela se curvar em minha direção, tive a certeza de que ainda havia um campo inteiro de guerra dentro daquela mulher. Um lado que me quer. Outro que me odeia. E eu, como sempre, no meio.

Afastar foi quase doloroso. Parei com a testa encostada na dela, nossas respirações misturadas.

— Esse homem não vai te salvar pra sempre… — falei, a voz fria e rouca. — Eu vou estar te esperando… quando ele falhar.

Os olhos dela se encheram de lágrimas de novo.

— Ele não vai falhar. — respondeu, mas soou mais como um pedido aos céus do que certeza.

Soltei a nuca dela com relutância, dei dois passos para trás e ajeitei o casaco como se aquilo pudesse arrumar o que estava completamente destruído dentro de mim.

Ela não lutou como antes. Não gritou tanto. Não me bateu como no carro, quando a levei pra mansão Storm. Aquela resistência furiosa tinha cedido espaço para alguma outra coisa: cansaço… ou rendição.

E eu senti, com uma segurança quase doentia, que estava começando a avançar na direção certa nessa guerra.

Saí pela porta antes que Elise voltasse, descendo as escadas com o coração acelerado e a mente cheia de planos. Por fora, eu ainda era o Don. Por dentro, eu estava no limite entre a loucura e o amor.

Uma coisa, porém, eu sabia. Enquanto Andrew Sinclair brinca de herói… eu continuo sendo o vilão disposto a destruir o mundo inteiro, se for o preço pra ter Ruby nos meus braços de novo.

Voltei para a mansão Storm com a cabeça pegando fogo. O cheiro dela ainda estava na minha mão. O gosto dela ainda estava na minha boca.

Eu deveria estar satisfeito porque consegui tocá-la, beijá-la, sentir ela tremendo nas minhas mãos. Mas não estava. Queria mais. Muito mais.

Atravessei a sala ignorando todos os funcionários que desviaram o olhar, como se já soubessem que eu estava prestes a explodir. Fui direto para o bar da sala inferior, meu refúgio quando perco a razão.

Peguei duas garrafas de whisky, as mais fortes. Subi devagar as escadas, cada passo ecoando pelas paredes como um aviso de que eu ia fazer besteira.

Abri a porta do quarto que foi dela. Aquele quarto… eu não entrava ali desde o dia em que ela foi embora sem eu saber. As roupas dela já não estavam lá. Os perfumes também não. Mas bastou fechar a porta para que tudo voltasse.

A risada dela escapando para o corredor. A voz dizendo meu nome com medo, e com desejo. As brigas. A noite em que ela tentou me seduzir pela primeira vez e eu quase cedendo. Minha mente parecia um filme.

Joguei o casaco no chão, abri a primeira garrafa e bebi no gargalo. Ardeu. Mas não o suficiente para apagar Ruby. Bebi a segunda. Depois a primeira de novo. Até que as garrafas ficaram vazias, jogadas no tapete como testemunhas da minha fraqueza.

Cai na cama e fiquei olhando para o teto, sem piscar. E então apaguei. E quando apago, ela sempre volta para mim.

No sonho, Ruby está naquele mesmo quarto, mas do jeito que eu sempre quis vê-la. Cabelos soltos, pele iluminada pela luz baixa, vestido curto demais para ser inocente. Ela entra devagar, fecha a porta e me encara como se tivesse atravessado o mundo inteiro só para chegar até ali.

— Eu tentei fugir… — ela diz, voz suave e quente. — Mas sempre volto pra você.

Eu me aproximo, seguro a cintura dela e puxo com força. Sinto o corpo dela colar no meu. Sinto o calor. Sinto tudo que eu perdi. Ela passa os dedos pelo meu pescoço, arranha levemente, e aquilo me destrói.

— Me beija… — ela pede, e não tem medo nenhum nos olhos dela dessa vez. — Me beija como se eu fosse só tua.

Eu beijo.

O beijo é urgente, faminto, cheio de tudo que eu guardo há meses. Ela geme contra minha boca e sobe nas minhas coxas, me envolvendo com as pernas. Levo ela até a parede, pressiono seu corpo no meu e ela arqueia, grudando os quadris no meus como se fosse implorar por mais.

Minhas mãos deslizam por baixo do vestido. Ela não usa nada por baixo. Ruby solta um suspiro que me faz perder a cabeça.

— Eu quero você — ela sussurra no meu ouvido. — Sempre quis. Sempre foi você.

Eu a seguro pela coxa, erguendo-a, e ela me beija como se tentasse marcar minha alma. Minha outra mão sobe pela costela dela, devagar, sentindo cada tremor. Ela aperta meus ombros, mordendo meu lábio, puxando, exigindo.

— Me possui… — ela pede, com a voz quebrada de desejo. — Me mostra que ainda sou tua.

Eu a seguro firme, guio meu corpo contra o dela, sinto o calor, sinto o encaixe perfeito, e Ruby joga a cabeça para trás, gemendo meu nome como se fosse a única verdade que existe no mundo.

Quando eu a penetro no sonho, ela segura meu rosto com as duas mãos e diz:

— Eu nunca amei outro homem. Nunca. É você. Sempre foi você.

E eu acredito. No sonho, eu acredito.

Acordo num pulo, o corpo suado, a respiração desordenada, a boca seca, a cabeça latejando. O quarto está escuro. As garrafas estão vazias. Meus dedos estão tremendo.

Olho para o lado da cama. Não tem ninguém. E é aí que eu percebo, o que mais dói não é a ausência dela. É saber que, mesmo dormindo, eu não consigo deixá-la em

paz. E que, consciente ou não, Ruby ainda é o único veneno capaz de me manter vivo.

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