Capítulo 38 Capítulo 38
Ruby
Eu não dormi. Nem por um minuto. Cada vez que fechava os olhos, sentia a boca de Ethan encostando na minha. O jeito como ele me segurou pela nuca, como se tivesse direito sobre mim. Como se eu fosse dele.
E o pior? Meu corpo não lutou. Meu corpo cedeu. É isso que mais me destrói.
Fiquei sentada na beira da cama a madrugada inteira, abraçando os próprios braços, tentando entender em que momento da minha vida eu perdi completamente o controle sobre tudo.
Andrew dormia profundamente ao meu lado, exausto por causa das últimas semanas. Eu observava a respiração calma dele e sentia culpa. Culpa por escondê-lo a gravidez. Culpa por esconder o que Ethan faz. Culpa por existir.
Quando o sol começou a nascer, a sensação de sufocamento aumentou. Me levantei devagar e fui ao banheiro lavar o rosto. Me olhei no espelho. O rosto pálido, as olheiras profundas, os olhos vermelhos de tanto segurar o choro.
— “Eu preciso parar com isso” — pensei. — “Preciso acabar com essa guerra antes que destrua todo mundo.”
Respirei fundo e voltei para o quarto. Andrew estava acordado, sentado, e me observava em silêncio.
— Ruby? — ele perguntou, franzindo o cenho. — Você está chorando?
— Não… — respondi rápido. — Só não dormi bem.
Ele se levantou e colocou as mãos nos meus braços, tentando me puxar para perto. Eu recuei antes que pudesse pensar.
Andrew congelou.
— Você acabou de se afastar de mim?
Meu coração disparou. Não era minha intenção. Nada daquilo era uma escolha racional.
— Andrew, eu… eu só estou cansada. É só isso.
Ele tentou me beijar. Virei o rosto no último segundo. Foi instintivo. O beijo de Ethan ainda queimava em mim, e a culpa me engoliu tão forte que achei que fosse vomitar.
Andrew ficou imóvel.
— Ruby. — Ele disse meu nome de um jeito firme, quase duro. — O que está escondendo?
— Nada. — respondi rápido demais.
Ele me analisou como se estivesse tentando decifrar uma equação impossível. Depois soltou meus braços e se afastou, passando a mão pelo cabelo em frustração.
— Eu não sei lidar com você assim. — disse, baixo. — Quando você se fecha desse jeito, eu não sei onde estou pisando.
Me deu vontade de contar tudo. De ajoelhar no chão e confessar que estava grávida. Que Ethan apareceu no ateliê. Que ele me beijou. Que eu deixei. Que minha vida está desmoronando e eu estou tentando segurar tudo com as mãos tremendo.
Mas nada saiu da minha boca.
Andrew foi para o banho. Eu fiquei parada no mesmo lugar, sentindo a culpa rodando como um furacão no meu peito.
Depois que ele saiu para o trabalho, decidi que não podia adiar mais. Peguei minha bolsa e saí pelas portas laterais da mansão, evitando a imprensa que, graças aos capangas de Ethan, recuou nos últimos dias.
Chamei um carro por aplicativo e pedi para ir ao consultório do obstetra que sempre atende a família Sinclair. Eu esperava que ninguém me reconhecesse, mas no caminho inteiro meu estômago revirava de nervoso.
No consultório, sentei na maca enquanto o médico preparava o aparelho de ultrassom. Suas mãos eram calmas, experientes.
— Está tudo bem, senhora Sinclair? — ele perguntou ao notar minha ansiedade.
— Eu… eu só preciso saber se está tudo certo.
Ele assentiu, passou o gel frio na minha barriga, que já começava a mostrar pequenas mudanças, e ligou o aparelho. Eu prendi a respiração.
O som veio primeiro. Um som acelerado, forte, ritmado. O coração do meu bebê. Nosso bebê. O médico sorriu.
— O bebê está saudável. Três meses e meio. Crescendo certinho.
Três meses e meio. Meu coração desabou. Era real. Tão real que doeu.
— Eu ainda nem consegui contar ao pai… — sussurrei sem conseguir impedir as lágrimas.
— Conte quando se sentir segura. — disse ele com gentileza.
Balancei a cabeça, tentando respirar. Peguei as fotos impressas do ultrassom, guardei na bolsa e segui para o estacionamento.
Foi ali que tudo mudou.
Enquanto caminhava até o carro que chamei no aplicativo, senti alguém me observando. Olhei para o lado. Nada. Olhei para trás. Nada. Mas aquela sensação não passava.
Foi então que vi.
Um carro preto, parado na sombra. O mesmo carro de sempre. As janelas escuras. Meu corpo inteiro congelou.
A janela desceu devagar, revelando o rosto que eu mais temia ver naquele momento.
Ethan.
Meu coração foi parar na garganta.
— Sai daqui! — eu gritei, tropeçando para trás. — Vai embora!
Ele apoiou o braço na janela aberta, tranquilo demais.
— Só vim ver se você está bem. — disse. — Por que veio ao médico, ruiva?
Meu sangue gelou. Ele sabia? Ele viu algo? Ou estava tentando descobrir? Sem pensar, entrei no carro e pedi ao motorista para travar as portas, segurei o banco com tanta força que minhas mãos doeram.
— Me deixa em paz! — gritei, mesmo sabendo que ele não escutaria atrás do vidro fechado.
Ele sorriu. Um sorriso lento, perigoso, como se tivesse acabado de ver algo que confirmasse uma suspeita.
O motorista arrancou com o carro e saiu dali o mais rápido possível, e eu com as mãos tremendo.
Quando cheguei em casa, meu corpo ainda estava em alerta. Precisava garantir que ninguém descobriria antes do tempo. Liguei para o médico da família.
— Preciso que mantenha sigilo absoluto. — falei. — Ninguém pode saber. Nem meu marido ainda. Vou contar para ele em breve.
— “Entendido, senhora Sinclair.” — ele respondeu. — “Seu prontuário ficará trancado em arquivo confidencial. Não se preocupe.”
Agradeci e desliguei. Senti as pernas bambas.
A gravidez deveria ser uma notícia feliz. Mas, do jeito que tudo estava acontecendo… parecia um pesadelo prestes a explodir.
Fui para o quarto, deitei na cama e abracei o travesseiro. Meu corpo inteiro tremia.
Quando Andrew chegou aquela noite, me encontrou encolhida na cama. Ele se aproximou e tocou meu rosto.
— Você está pálida de novo, Ruby. — disse preocupado. — Aconteceu alguma coisa?
— Só preciso descansar. — respondi, afastando o olhar para evitar perguntas.
Ele se deitou ao meu lado e passou o braço pela minha cintura. Meu corpo reagiu, rígido, cheio de culpa.
— Ruby… — ele suspirou. — Eu sinto que estou perdendo você.
Fechei os olhos, lutando contra o choro.
— Não está. Eu só estou… cansada.
Ele não insistiu. Apenas me puxou mais perto. E eu deixei. Porque Andrew era o único lugar do mundo onde eu ainda me sentia protegida… mesmo que estivesse mentindo para ele em todos os níveis possíveis.
Fiquei ali, no peito dele, imaginando como seria sua reação quando soubesse da gravidez. Imaginei também a reação de Ethan encarando isso como algo no caminho dele até a mim.
— “Quantas mentiras ainda vou precisar contar até conseguir paz?”
Não tinha resposta. Só sabia que o t
empo estava acabando, e que meus segredos estavam prestes a explodir na minha cara. E talvez… destruíssem todo mundo junto comigo.
