Capítulo 39 Capítulo 39
Astrid
Eu sempre soube que homens como Andrew Sinclair e Ethan Storm precisavam de um lembrete de vez em quando. Um susto. Um golpe bem dado. Algo que mostrasse que não são intocáveis.
Hoje é o dia desse lembrete.
Estou sentada no sofá da minha cobertura, taça de vinho na mão, as manchetes ainda abertas no tablet à minha frente. A retratação sobre Ruby Sinclair continua em destaque. Eles apagaram a matéria antiga, limparam o nome dela, fizeram parecer que tudo não passou de um “equívoco jornalístico”.
Equívoco.
— Hipócritas. — digo, sozinha.
Amplio uma foto dela em um site qualquer. Ruby desce de um carro com olhar assustado, óculos escuros cobrindo metade do rosto. Mesmo assim, dá pra ver o medo ali. O que pra ela é um pesadelo, pra mim é quase arte.
— Se eles querem guerra, vão ter. — falo, erguendo a taça num brinde irônico à imagem congelada da insossa.
Andrew me ameaçou. Ethan me descartou como se eu fosse uma nota velha. Nenhum dos dois percebeu que, quando me jogaram pra fora do jogo, só fizeram eu subir de nível.
Pego o celular e rolo a agenda até chegar no nome que me interessa. Ele ainda está salvo como “Proibido”, porque no fundo sempre foi isso que ele representou pra mim.
Disco o número. Ele atende no terceiro toque.
— “Achei que tivesse me esquecido… de novo.” — a voz dele vem carregada de ironia e saudade.
— Eu nunca esqueço brinquedos úteis. — respondo, cruzando as pernas. — Tenho um trabalho pra você, e dessa vez não é para matar… ainda.
— “Já fiquei interessado.” — ele ri. — “Isso envolve sangue?”
Penso por um segundo. Poderia acabar em sangue, claro. Mas ainda não é a hora.
— Não quero que mate ninguém, como eu disse… por enquanto.
— “Que tipo de trabalho, então?” — ele pergunta, o tom mudando levemente. Ele sabe que quando eu falo “por enquanto”, é porque tenho planos maiores.
Sorrio, mesmo sabendo que ele não pode ver.
— Quero que cause um pequeno susto na esposa do Andrew Sinclair. Algo que a faça pensar que está sendo caçada. Quero medo. Quero pânico. Quero ver o mundo perfeito dela rachar.
Ele fica em silêncio por alguns instantes. Já consigo imaginar o sorriso surgindo do outro lado da linha.
— “Sinclair, hein? Você não cansa de mirar alto, Astrid?”
— Você me conhece. — respondo. — Eu não nasci pra mirar baixo.
— “E o pagamento?” — ele pergunta, direto. — “Porque dinheiro você sabe que eu tenho o meu. O que eu quero… é outra coisa.”
Fecho os olhos por um segundo. Já sei a resposta antes mesmo dele terminar a frase.
— “Você sabe o que eu quero.” — ele repete.
Sim, eu sei. Ele sempre quis a mesma coisa: eu, de volta, inteira, ajoelhada ou de pé, tanto faz. Quer o que acha que perdeu.
— Então vamos ser claros. — digo, apoiando a taça na mesa. — Você vai cercar o carro dela. Vai fazê-la acreditar que vão atingi-la. Mas ninguém encosta nela, ninguém fura pneu, ninguém encosta um dedo. Só o suficiente pra ela acreditar que está sendo caçada.
— “E eu ganho o quê, Astrid? Sabe que meu interesse é real.” — ele insiste.
Olho meu reflexo no vidro da janela. Minha própria expressão devolve a resposta.
— Me terá por inteira… se ela chorar. — digo, calma. — Quero ela em pânico. Quero notícias da voz falhando, do choro, da mão trêmula no volante. Me dá isso, e você me tem… por uma noite, pelo menos.
Ele ri, baixo.
— “Você é doente, Astrid… merda, eu amo isso.”
— Você sempre gostou dessa parte de mim, é o único que gosta. — respondo.
— “Manda o horário e o lugar.” — ele fala, mais sério. — “E, por precaução… se eu achar que ela reagiu de um jeito diferente, posso passar do susto.”
— Não. — corto, firme. — Eu decido quando alguém morre. Até lá, você só obedece.
Ele respira fundo.
— “Como quiser, rainha do caos.”
Desligo a chamada com um meio sorriso. Meus dedos deslizam rápido pela tela, enviando as informações que ele precisa… clínica, horário aproximado, placa do carro, foto recente da ruiva.
— “Ela é delicada” — escrevo no final. — “Não precisa de muito pra quebrar.”
Os dias seguintes são de espera. Eu odeio esperar, mas também sei apreciar a antecipação. Ela amadurece o ódio, deixa a vingança mais saborosa. Enquanto isso, a cidade segue girando, fingindo normalidade.
Eu vejo as fotos de Ruby saindo escondida, entrando em carros secundários, tentando despistar olhares. Vejo as notícias tentando limpar a imagem dela. Vejo Andrew Sinclair cheio de discursos heroicos, fazendo o papel de marido que protege a frágil esposa.
Ninguém mostra a parte em que ele me ameaçou. Em que me encarou em um restaurante e disse que ia “expurgar” meu nome da cidade. Como se eu fosse sujeira. Como se o mundo fosse dele.
Às vezes lembro de Ethan também. Do jeito como ele disse, na minha cara, que eu não tinha mais lugar na vida dele. Que meu beijo “manchava” o gosto da única mulher que ele amava.
Eu. A mulher que ficou. A que conheceu todos os lados dele. Jogada de lado por alguém que sumiu e voltou casada com outro.
— Não, querida. — falo sozinha, enquanto passo batom vermelho diante do espelho. — Você não vai sair disso intacta. Ninguém pisa em mim e continua inteiro.
Dois dias depois, o telefone toca. Vejo o nome dele na tela e atendo na primeira chamada.
— Então? — pergunto, já sorrindo.
— “Feito.” — ele diz, com a voz carregada de adrenalina. — “Saída da clínica particular. Ela saiu distraída, entrou no carro. Quando virou a esquina… cercamos.”
— Detalhes. — peço, sentando na beira do sofá.
Ele ri.
— “Dois carros na frente, um atrás. Não encostamos, como você mandou. Só diminuímos a velocidade, fechando passagem. Ela ficou pálida.” — faz uma pausa. — “Muito pálida.”
Consigo imaginar. A ruiva respirando rápido, as mãos tremendo no volante, o coração batendo no pescoço.
— Ela chorou? — pergunto, calma.
— “Parecia que estava a um passo disso. Vi a boca dela se mexendo, acho que estava falando com alguém ou xingando a gente. Em um dos retornos, abrimos espaço de propósito, ainda devagar, só pra ver se ela acelerava ou travava.”
— E o que ela fez?
— “Acelerou. Como se a vida dependesse disso.”
Me recosto no encosto do sofá, saboreando a imagem mental.
— Perfeito. — digo, satisfeita. — E ninguém viu placa, rosto, nada?
— “Relaxa. Tudo dentro do combinado. Sem câmeras úteis, sem registros diretos. Ela só vai saber que alguém quis assustar. E vai acreditar que podem voltar.”
Fecho os olhos, deixando o silêncio falar por mim por alguns segundos.
— Você fez bem. — digo, por fim.
— “E agora?” — ele pergunta, a voz carregada de sugestão. — “Quando recolho o “pagamento”?”
Sorrio, abrindo outra taça de vinho.
— Ainda não terminou. — respondo. — Isso foi só o primeiro aviso. Quando eu tiver certeza de que ela está se despedaçando por dentro… eu te chamo.
— “Você vai acabar me devendo muito, Astrid.” — ele avisa. — “Lembra da parte de “me ter por inteira”?”
— Eu nunca esqueço promessas. — digo, tranquila. — Mas também nunca as cumpro antes da hora certa.
Ele ri de novo.
— “Você é um perigo… meu vício.”
— E você adora isso. — finalizo, desligando.
Fico alguns instantes apenas olhando para o celular, sentindo a satisfação subir feito uma maré calma. Não é só sobre Ruby. É sobre controlar o tabuleiro que esses homens acham que dominam.
Se Andrew quer me “expurgar”, vai aprender que sujeira não some, ela se espalha.
Se Ethan quer continuar fingindo que eu sou só uma lembrança incômoda, vai ver que lembranças podem virar faca.
À noite, tomo banho demorado, visto um robe de seda e encho a taça de vinho até a borda. Caminho até o espelho grande da sala, o que ocupa quase a parede inteira. Fico ali, me vendo, estudando cada traço.
— Você conseguiu, Astrid. — digo para o próprio reflexo. — Ela vai se despedaçar.
Lembro das notícias, das manchetes, das câmeras, do cerco, da clínica. Ruby deve estar no limite entre o medo e a paranoia. E uma mulher nesse estado não pensa direito. Não fala direito. Não olha direito.
Mulheres quebradas chamam atenção de homens que gostam de consertar. E Ethan Storm sempre teve essa mania ridícula de “cuidar” das coisas que ele mesmo destruiu.
— E quando isso acontecer… — continuo, encarando a mim mesma — o Ethan vai voltar pra mim. Ele vai voltar.
Falo isso mais para transformar em verdade do que por certeza. Mas é assim que começa, repetindo até virar realidade.
Volto para o sofá, pego o celular e vejo uma notificação de mensagem. Número protegido, sem identificação, apenas as mesmas iniciais que combinamos usar quando o assunto é sujo demais pra ser escrito com clareza. Abro a mensagem.
— “Entrega feita. A ruiva ficou em pânico.”
Sinto um arrepio de satisfação percorrer minha coluna. Exatamente o que eu queria. Exatamente como eu planejei.
Por um segundo, penso em guardar a mensagem. Um troféu digital. Uma prova de que eu não sou a peça descartável que eles tentam pintar.
Mas eu não cheguei tão longe sendo amadora. Apago a mensagem sem hesitar, o dedo deslizando pela tela com precisão.
— Jogo limpo, alma suja. — digo, rindo sozinha
. — Vamos ver quanto tempo você aguenta, Ruby Sinclair.
E, enquanto o celular volta à tela inicial, eu sei que a primeira peça já caiu. O resto é questão de tempo.
