Capítulo 40 Capítulo 40
Ruby
Acordei mais leve do que nos últimos dias. Não totalmente em paz, acho que isso não existe mais pra mim, mas com uma esperança tranquila dentro do peito. Hoje eu ouviria o coração do meu bebê de novo. Hoje eu veria como ele estava crescendo, mesmo que o mundo lá fora estivesse desmoronando.
Coloquei um vestido soltinho, prendi o cabelo e passei um pouco de brilho nos lábios. Quando desci para tomar café, Andrew estava na cozinha com o celular na mão, mas largou tudo quando me viu.
— Você está mais animada hoje. — Andrew comentou ao me ver descer as escadas.
— Tenho algumas coisas pra resolver na cidade. — respondi, tentando parecer casual.
Ele assentiu, confiante.
— Quer que eu peça para o Dan te levar?
— Já pedi. Vai ser rápido. — sorrio fraco, torcendo para ele não notar minha tensão.
— Precisa de algo?
— Não… só resolver pendências.
— Certo. Me avisa quando estiver voltando.
Andrew pareceu inseguro, mas não insistiu. Talvez porque, nos últimos dias, eu tenha evitado qualquer aproximação que pudesse revelar meu segredo antes do tempo.
Assim que entrei no carro, respirei fundo e fechei os olhos, sentindo o leve enjoo matinal. Meu motorista, Dan, me observou pelo retrovisor.
— Tudo bem, senhora Sinclair?
— Só um pouco cansada. — respondi.
O consultório estava tranquilo. O médico me recebeu com um sorriso gentil, e isso já aliviou metade da minha tensão.
— Como está se sentindo hoje? — ele perguntou.
— Melhor… acho que agora estou aceitando tudo com mais calma.
Ele riu de leve.
— Calma é exatamente o que você precisa daqui pra frente.
Subi na maca e senti o coração acelerar enquanto ele preparava o ultrassom. Assim que o som preencheu a sala, aquele tum, tum, tum forte, firme, vivo, meus olhos encheram de lágrimas.
— Aqui está. — o médico disse. — O bebê está crescendo bem. Já dá pra ouvir o coração com clareza.
Eu não consegui responder. Só chorei, segurando a própria barriga como se pudesse protegê-lo do mundo inteiro.
— Está tudo bem mesmo? — perguntei depois, enxugando o rosto.
— Perfeitamente. — Ele sorriu. — Três meses, três semanas e quatro dias. É um bebê forte.
Meu peito apertou. Eu queria tanto contar ao Andrew hoje. Queria ver a reação dele. Queria parar de mentir.
— Obrigada, doutor. — falei com a voz falha.
Saí da clínica com o relatório na bolsa e o coração aquecido pelo som que ainda ecoava na minha mente. Mas a sensação boa durou pouco.
No caminho de volta pra casa, percebi que um carro estava próximo demais. Não dei importância no começo, e qualquer carro parece perto demais nessa cidade, mas depois notei a repetição.
A moto atrás. Depois um segundo carro. E outro emparelhando. Meu peito travou. Da última vez escondi de Andrew o que aconteceu, fui fechada por dois carros e eles pareciam se divertir com meu desespero.
— Dan… esse carro está muito perto. — avisei, segurando o cinto.
Ele acelerou um pouco, tentando abrir distância.
— Também reparei. Segure-se, senhora.
A moto avançou, quase roçando a porta. O coração disparou tão forte que achei que fosse desmaiar ali mesmo. Outro carro fechou a lateral direita. Dan tentou desviar, mas o espaço diminuiu.
— Meu Deus… — falei, agarrando o assento. — Eles vão bater na gente!
— Segure firme! — ele gritou.
O impacto veio rápido. O carro tremeu, rodou um pouco, e meu corpo jogou para o lado. Senti uma fisgada na barriga tão forte que o ar desapareceu dos meus pulmões.
— Meu Deus, o bebê… — gritei, pressionando o abdômen.
A visão ficou turva. O som da moto se afastando ecoou longe, como num sonho ruim. Dan conseguiu parar no acostamento, pálido, assustado.
— Senhora Sinclair, você está me ouvindo? Ruby?!
Eu tentava falar, mas o medo me bloqueou. O bebê. Meu bebê. Não podia acontecer nada com ele.
As sirenes chegaram distantes, depois próximas. As mãos me tiraram do carro. Vozes me chamavam pelo nome, mas eu só conseguia repetir, sem conseguir controlar:
— Por favor… por favor… não tira ele de mim…
No hospital, colocaram máscara de oxigênio, aferiram pressão, levaram meu sangue, tudo rápido demais. Eu tremia, suando frio, agarrada ao lençol.
O médico entrou, o mesmo que havia me atendido mais cedo.
— Ruby, respire devagar. — pediu. — O bebê está bem.
Eu abri os olhos devagar.
— Está… está mesmo?
— Sim. — ele confirmou com firmeza. — O impacto foi pequeno o suficiente para não atingir o útero. Mas você precisa reduzir muito o estresse. Qualquer tensão forte demais pode complicar as coisas.
Eu soltei o ar em soluços até perder o controle.
— Eu não… eu não posso perder ele. Eu não posso…
Ele tocou meu ombro com cuidado.
— Você não vai. Mas precisa contar ao pai. Você não pode enfrentar isso sozinha.
Engoli seco, sem coragem de responder. A porta abriu de repente. Andrew entrou quase tropeçando, com o rosto pálido.
— Ruby! — ele correu até a cama. — Meu Deus, você está bem? Eu devia ter previsto, eu devia… — ele apertou minha mão como se tivesse medo de me perder naquele instante. — Quem fez isso?
— Eu… eu não sei. — menti, mesmo sabendo exatamente em quem estava pensando.
Ethan. Sempre Ethan.
Andrew respirou fundo, tentou se controlar. O olhar dele estava sombrio. Eu nunca o vi perder o equilíbrio desse jeito.
— Isso foi um aviso, Ruby. — ele disse baixo. — Não foi um acidente. Estão tentando machucar você.
Eu quis responder, mas a porta abriu de novo. Um médico que eu nunca tinha visto antes entrou com uma prancheta.
— Parabéns, senhor Sinclair. — disse, com naturalidade. — Sua esposa e o bebê estão fora de perigo.
O tempo parou. Andrew virou o rosto devagar, como se não tivesse entendido.
— Bebê?
Meu coração congelou. Eu virei para o médico, assustada. Ele parecia perceber tarde demais que eu não tinha contado nada. Andrew se afastou um passo.
— Ruby…?
Eu senti o ar sumir.
— Eu ia te contar hoje… — falei baixinho, a voz trêmula. — Eu estou grávida.
Ele ficou parado por alguns segundos como se o mundo precisasse se reorganizar na cabeça dele. Depois, aproximou-se devagar, os olhos marejando.
— Você está… grávida? — repetiu, sem acreditar. — A gente vai ter um bebê?
Assenti, chorando. Ele segurou meu rosto com as duas mãos, como se quisesse ter certeza de que aquilo era real, e sorriu, um sorriso tão emocionado que fez meu peito arder.
— Você me deu o presente mais importante da minha vida, Ruby.
Um beijo leve encostou na minha testa. Ele encostou a testa dele na minha, respirando devagar, como se estivesse tentando conter a alegria.
— Agora ninguém chega perto de vocês dois. — prometeu. — Eu juro.
Eu não deveria chorar mais, mas chorei.
— Me perdoa. — sussurrei.
Ele franziu a testa.
— Pelo quê? Tem noção do quanto eu queria esse bebê?
Engoli seco, o peso da culpa me esmagando.
— Estou com quase quatro meses.
Andrew congelou.
— O que? — a voz dele não era alta, mas cortante. — Quatro meses? Por que escondeu por tanto tempo, Ruby? Ou… você descobriu agora?
Eu respirei fundo, sentindo o peito apertar.
— Descobri… na ilha. Na nossa lua de mel.
Os olhos dele perderam o brilho, substituídos por um machucado. Um machucado que eu causei.
— Ruby… — ele falou devagar. — Por que fez isso comigo?
Eu não tive resposta imediata. Apenas lágrimas. Muitas. Medo de perder ele. Medo do passado bater na porta. Medo de Ethan. Medo do mundo todo.
Ele me olhava como alguém tentando entender onde errou, mas o erro foi meu. Todo meu.
Andrew está parado ao lado da minha cama, olhando
pra mim com uma mistura de dor, amor e perguntas que ainda não sei responder.
— Ruby… por quê?
A pergunta dele fica no ar, pesando mais do que qualquer acidente lá fora.
