Capítulo 42 Capítulo 42
Ethan
Eu nunca pensei que chegaria ao ponto de ter uma gaveta cheia de chips de celular. Uma gaveta inteira. O tipo de coisa que só um homem desesperado faria. Ou obcecado. Ou apaixonado. Talvez eu seja os três. Não importa o nome, importa que cada chip é uma tentativa de chegar até ela.
Ruby Sinclair.
Ou melhor… Ruby Storm. Porque é assim que ela deveria se chamar. É assim que ela vai se chamar de novo.
Compro chips em lotes. Dez, vinte, cinquenta de uma vez. Não me importa quantos eu queimo. Não me importa quantas vezes ela bloqueia. O ritual se repete: ela bloqueia, eu insiro um novo. Ela ignora, eu ligo de outro. Ela tenta fugir, eu acho outro jeito.
Eu avisei. Eu disse que não ia parar enquanto ela não voltasse pra mim. Enquanto não estivesse dormindo abraçada ao meu peito, respirando no meu pescoço como deve ser.
Esses dias têm sido insuportáveis. Não durmo direito. Não como direito. Quando fecho os olhos, sonho com ela. Quando abro, estou pensando nela. A ruiva tomou minha vida toda. Tomou minha alma inteira. E eu deixei.
Mas hoje… hoje tudo desmorona.
Estou sentado num café no centro da cidade, um lugar barulhento e comum, escondido no meio da multidão onde ninguém pensa que um homem como eu apareceria. Gosto disso, anonimato. Me dá tempo para pensar.
Pego um jornal qualquer, deixado na mesa anterior, só para distrair a cabeça. E então vejo. A manchete grita comigo em letras enormes:
— “Ruby Sinclair espera um filho de Andrew Sinclair.”
Por um segundo, acho que estou lendo errado. Por outro, sinto algo quente subir pela minha garganta, como ácido. Viro a página e outra manchete pula no meu rosto:
— “Finalmente a Sinclair Tech terá um herdeiro.”
— “O bilionário está radiante e extremamente protetor com sua esposa.”
Protegendo ela. Aproveitando ela. Dormindo com ela todas as noites. Tocando nela da forma que deveria ser minha.
Meu coração bate tão forte que parece uma explosão prestes a acontecer. Minha mão aperta o jornal até rasgar.
— Filho dele… — repito, quase sem voz.
O mundo ao meu redor some. O barulho desaparece. Só ouço aquele eco cruel na minha cabeça:
Filho dele. Filho dele. Filho dele.
Eu levanto tão rápido que a cadeira arrasta no chão. Jogo o jornal no chão também. As pessoas olham, mas não me importo. Não sinto nada além de uma dor que não sabia que existia.
E então, claro, como se alguém tivesse invocado o próprio demônio, Astrid aparece.
Ela surge ao meu lado, sorrindo com aquela cara de quem adora caos. Senta-se na mesa ao lado como se fosse convidada.
— Finalmente ela seguiu em frente de vez. — diz.
Minha visão escurece.
— Cala a boca, Astrid. — respondo.
Ela cruza as pernas como se estivesse no palco de um teatro que só existe na cabeça dela.
— O que foi, Ethan? — pergunta com ironia. — Doeu perceber que ela está carregando o filho de outro homem? Acho que doeu mais ter a certeza de que ela está transando com ele, não é?
Algo dentro de mim parte. Não quebra, parte. Em pedaços afiados. Seguro o copo de café com tanta força que sinto o plástico amassar.
— Ela devia ter esperado. — digo, mais para mim mesmo do que para ela. — Devia ter deixado eu consertar as coisas. Não devia ter deixado ele…
— Você não quis consertar, lembra? — ela me corta. — Você quis me usar para esquecê-la.
Minha mandíbula trava. Ela continua, venenosa:
— Por que não continua assim? Sou gostosa, sei alguns truques,conheço seu corpo e os seus gostos. Pode me engravidar também, se isso é tão importante.
Meu corpo inteiro reage. Um passo à frente. Um impulso de agarrar o pescoço dela. Mas contenho. Não vale a pena. Não aqui, pelo menos.
— Eu só quis esquecer que a amava quando me envolvi com você. — digo, firme, encarando o chão. — Eu quis acreditar que ela era só parte de um negócio… só uma dívida. Mas eu fui um babaca. Um desgraçado.
Astrid olha para mim como se estivesse analisando uma cena de novela.
— E agora? — ela pergunta, com aquele sorriso de cobra. — Vai fazer o quê? Roubar o bebê também para convencer a mamãe a ficar com você?
Essa frase… essa frase faz algo dentro de mim ferver. Mas não é ódio. É desespero. Acendo um cigarro. Trago fundo, tentando organizar o caos na minha cabeça.
— Não. — digo, finalmente. — Mas Andrew vai aprender que não pode tirar nada de mim sem pagar o preço.
Astrid abre um sorriso, satisfeita com a destruição que espalha no ar.
— Patético, Ethan. — diz. — Lutando por alguém que claramente não te quer.
É aí que percebo. Aos poucos. O absurdo. O ridículo. Eu estou ali, no meio do café, conversando com Astrid como se ela fosse alguém. Como se fosse parte da minha vida. Como se ela tivesse algum direito de comentar qualquer coisa sobre Ruby.
Desvio o olhar para ela, finalmente entendendo a raiz da náusea que senti.
— Isso tudo… — digo, quase rindo de raiva — porque você acha que tem voz na minha vida. Só agora percebo que estou perdendo tempo falando com você.
Ela estreita os olhos.
— Você sempre volta pra mim quando está em pedaços.
— É a última vez que te aviso. — falo, sério. — Se afasta de mim.
Ela tenta responder, mas eu não deixo. Olho ao redor, coloco o dinheiro na mesa e sigo em direção à saída sem olhar para trás.
Saio do café com passos firmes, o cigarro ainda queimando entre meus dedos. O vento frio da tarde bate no meu rosto, mas não alivia nada. A dor continua lá, latejando.
Grávida.
Ela está grávida.
De outro homem.
Meu peito aperta. Minha respiração falha. Eu penso no que isso significa para ela. Para mim. Para tudo que ainda sinto. Eu pensei que tinha tempo. Que ela precisava de espaço. Que no momento certo eu a teria de volta.
Mas agora… agora existe um bebê entre nós. Um filho que não é meu. Um herdeiro que vai carregar o sobrenome Sinclair. E eu percebo, com uma clareza brutal.
Esse bebê não me afasta dela. Ele me destrói. E me desperta. Porque, naquele instante, eu entendo. Eu não perdi a Ruby. Eu perdi o direito de ter qualquer hesitação.
Subo a gola do casaco e jogo o cigarro no chão.
Andrew Sinclair acha que é tão poderoso? Acha que pode pegar uma mulher que era minha? Acha que pode formar uma família enquanto eu assisto calado?
Ele vai aprender. Vai aprender rápido. A mãe do filho dele… é o amor da minha vida. E eu nunca, nunca deixo de lutar por aquilo que é meu.
Saio caminhando pela rua, o pulso acelerado, o sangue queimando. Hoje não perdi. Hoje só começou outra guerra.
