Capítulo 43 Capítulo 43
Ruby
Eu achei que depois do susto com o acidente, o pior já tinha passado.
O médico recomendou calma, repouso, o mínimo de estresse possível. Andrew levou isso tão a sério que encheu a casa de seguranças, câmeras e regras novas. Nada de sair sozinha, nada de andar a pé, nada de “me expor sem necessidade”.
Eu entendo. De verdade. Mas também tem horas em que parece que estou vivendo numa bolha de vidro, vigiada o tempo todo.
Naquela manhã, depois de muita insistência, consegui uma pequena vitória.
— Eu só quero ver roupinhas, Andrew. — pedi, sentada na cama, com a mão na barriga. — Não vou atravessar a cidade correndo uma maratona.
Ele suspirou, cansado.
— Ruby, você quase perdeu o bebê. — lembrou, como se eu tivesse esquecido.
— Eu sei. É justamente por isso que quero viver as coisas boas também. — respondi. — Escolher uma peça de roupa, ver aquelas coisas minúsculas… eu preciso disso.
Ele me observou em silêncio, como se lutasse com ele mesmo.
— O Dan vai com você. — decidiu. — E você não demora.
Assenti, aliviada.
— Prometo.
Minutos depois, eu estava no banco de trás do carro, vendo a cidade passar pela janela. Parecia estranho estar na rua depois de tantos dias enfiada dentro de casa, mas ao mesmo tempo era… bom. Assustador, mas bom.
A loja ficava numa rua tranquila, especializada em coisas de bebê. Fachada branquinha, ursinhos de pelúcia na vitrine, um letreiro delicado com letras douradas. Dan desceu primeiro, olhou ao redor, depois abriu a porta para mim.
— Qualquer coisa, estou aqui fora. — avisou.
— Eu sei. — sorri de leve. — Vou só olhar um pouco.
Quando entrei, o cheiro de talco e tecido novo me abraçou. Minúsculos macacões pendurados, sapatinhos ridículos de tão pequenos, mantas fofas. Meus olhos encheram de lágrimas na mesma hora.
Pousei a mão na barriga sem perceber.
— “Oi, pequenino…” — pensei. — “Essa confusão toda é por você, sabe?”
Peguei um macacãozinho amarelo com desenhinhos de nuvens. Aquilo parecia tão fora da realidade que estou vivendo que quase ri. Enquanto eu escolhia se pegava RN, P ou M, senti um arrepio estranho na nuca. A sensação clara de estar sendo observada.
Ignorei. Podia ser só alguém curioso, reconhecendo meu rosto de alguma matéria idiota da televisão. Respirei fundo e segui pela arara seguinte.
Mas a sensação não passou. Larguei o macacão de volta no cabide e me virei, devagar. Ele estava lá.
Encostado na parede perto da sessão de mantas, mãos nos bolsos, camisa escura, barba por fazer, olhar que eu conhecia bem demais. O coração disparou tanto que doeu.
Ethan.
Meu corpo inteiro reagiu antes da minha cabeça. Minhas mãos suaram, meu estômago embrulhou, um medo conhecido misturado com algo que eu odeio admitir.
— O que está fazendo aqui? — perguntei, a voz mais firme do que eu esperava.
Ele desviou o olhar rapidamente para o corredor e depois voltou para mim, como se estivesse avaliando cada detalhe.
— Precisava ver você. — respondeu.
Pisquei algumas vezes, tentando organizar o caos dentro da minha cabeça.
— Você devia me esquecer. — falei. — Segue sua vida em frente.
Um riso sem humor passou pelo canto da boca dele, mas não durou.
— Eu não consigo. — disse, mais baixo. — Saber que está esperando um filho dele… me destrói.
Meu peito apertou. Não só pela culpa, mas pela raiva também.
— Você não tem esse direito. — rebati. — Acabou faz meses, supera isso, Ethan.
Ele deu um passo à frente. Só um. Mas o suficiente pra me fazer recuar.
— Eu tinha planos pra nós, Ruby. — ele jogou, como se isso significasse alguma coisa.
Ri nervosa.
— Planos que nunca existiram quando eu era casada com você. — respondi, sentindo as palavras queimarem na garganta. — Você me deixou sozinha enquanto dormia com outra.
A mandíbula dele travou. Um músculo saltou perto da têmpora. Ele avançou mais um pouco e sua mão fechou no meu braço, com força suficiente para me obrigar a parar.
— Eu te amei do meu jeito. — disse.
Olhei para os dedos dele apertando minha pele, para o rosto próximo demais, para os olhos escuros cheios de algo que eu não sabia se era dor ou posse.
— Então aprende outro, porque esse só machuca. — respondi.
Soltei meu braço com um puxão. Quase chorei ali mesmo, mas me segurei.
— Se me amou de verdade, me deixa viver em paz.
Por um segundo, pensei que ele fosse recuar. Que talvez, pela primeira vez, entendesse que passou dos limites. Mas Ethan não sabe o que é limite. Não sabe o que é recuar.
Ele ficou me encarando como se tentasse gravar meu rosto de novo. Quando falou, a voz veio mais baixa, carregada de algo escuro.
— Eu ainda vou te fazer lembrar quem te ensinou o que é o inferno.
Minha respiração falhou. Uma lembrança rápida atravessou minha mente… noites em claro, discussões, frieza cortante, eu chorando sozinha no banheiro enquanto ele fingia dormir em outro quarto.
— Eu lembro sozinha. — respondi.
A tensão entre nós ficou quase palpável. Um casal de idosos entrou na loja e passou por nós, sem imaginar que aquele pequeno corredor era um campo minado.
Ethan deu mais um passo. Eu recuei, até minhas costas encostarem na prateleira. Ele ergueu a mão, prendendo-se na madeira ao lado do meu rosto. O corpo dele se inclinou na minha direção.
— Ethan, não. — avisei.
Ele ignorou. Foi se aproximando, os olhos presos na minha boca. Eu já sabia o que vinha. Já tinha passado por aquilo vezes demais. Aquele homem confundia desejo com direito.
— Ethan, eu estou falando sério, para. — repeti, sentindo a raiva crescer junto com o medo.
Ele inclinou o rosto. Quando senti o hálito dele tão perto que dava pra contar a distância em milímetros, alguma coisa em mim simplesmente acordou.
Não pensei. Não avaliei. Não pesei consequências. Só levantei o joelho levemente e acertei ele exatamente onde ia doer mais.
O som de dor escapou forte. Ele se curvou na mesma hora, as mãos indo entre as pernas, o rosto contraído. A prateleira atrás de mim chacoalhou com o movimento.
— Ruby… — ele arfou, tentando recuperar o ar.
Eu dei um passo para o lado, com o coração disparado, as mãos trêmulas.
— Eu avisei. — soltei, a voz falhando. — Se encostar em mim outra vez, eu mesma te mando pro inferno que você gosta tanto de falar.
Uma funcionária apareceu no início do corredor, assustada.
— Está tudo bem aqui?
— Está sim. — respondi rápido, sem olhar para trás. — Eu já estava indo embora.
Apertei a bolsa contra o peito, respirei fundo e saí quase correndo da loja. Senti o olhar de Ethan queimando minhas costas, mas não virei.
Quando empurrei a porta de vidro, o ar da rua bateu no meu rosto como um balde de água fria. Dan correu até mim.
— Senhora Ruby, aconteceu alguma coisa? A senhora está pálida.
— Eu só… enjoei um pouco. — menti. — Vamos pra casa.
Entrei no carro e fechei os olhos com força. A imagem de Ethan curvado de dor insistia em voltar, misturada com a expressão dele quando falou da gravidez.
“Me destrói.”
Algo em mim sussurrou que eu estava destruída há muito mais tempo do que ele imaginava. Só que agora eu não estava sozinha. Havia um coração batendo dentro de mim, dependendo das minhas escolhas.
— Eu não vou deixar ele chegar perto de você. — prometi, acariciando a barriga.
O carro arrancou devagar. Do lado de fora, pela janela, achei ver uma silhueta encostada na parede da loja, observando. Não sei se era real ou se era só coisa da minha cabeça.
De qualquer forma, uma coisa estava clara. Enquanto Ethan continuar vivendo no meu passado, ele vai tentar invadir o meu presente. E eu não posso mais deixar.
Chegamos na mansão e eu me sentia exausta. Dan abriu a porta do carro e eu desci. Andrew já estava na entrada.
— Chegou rápido. — disse. — Está tudo bem?
— Só cansei um pouco. — respondi.
Ele me puxou para um abraço e, quando se afastou, franziu a testa.
— Você chorou?
— Hormônios. — tentei brincar. — Ver roupa de bebê mexe comigo.
Meia verdade. A outra metade tinha olhos escuros e um passado que eu queria esquecer. Andrew passou o braço pela minha cintura e me levou até a sala.
— Se algo te assustar, você me conta. — falou. — Não quero ficar no escuro, Ruby.
Olhei para ele, para o homem que faria qualquer coisa por mim e pelo nosso filho.
— Conto. — prometi.
Mas eu sabia que
ainda não conseguia. Se contasse sobre Ethan, Andrew iria atrás dele. E, se os dois se enfrentassem, não seria só o passado em jogo. Talvez fosse o nosso futuro também.
