Capítulo 44 Capítulo 44

Astrid

Eu sempre soube que o mundo era injusto, mas ultimamente estava passando dos limites comigo.

Ethan me ignorando. Andrew me ameaçando. Ruby… viva, grávida e brilhando como se tivesse vencido alguma coisa.

O trio perfeito para destruir qualquer resquício de paciência que eu tinha.

Fiquei parada em frente ao espelho, a luz suave do banheiro batendo no meu rosto. Minha maquiagem estava impecável, pele perfeita, boca vermelha, olhos delineados com precisão de cirurgião. A beleza era uma arma, e eu sabia usá-la melhor do que qualquer um.

— Eles acham que podem me apagar. — murmurei, arrumando um fio do meu cabelo loiro atrás da orelha. — Mal sabem que eu sou o incêndio.

E o incêndio estava prestes a começar. Peguei o telefone. Não pensei duas vezes. Liguei para ele. A ligação durou dois toques.

— “Fala.” — a voz rouca de Cyrus preencheu minha orelha.

Cyrus não era apenas bonito. Era perigoso, bruto, profundamente movido por desejo e dinheiro, bilionário e entediado com a moleza que era sua vida. Uma combinação perfeita para ser o meu braço quando eu não queria sujar as minhas mãos.

— Quero o carro dela sabotado. — disse, caminhando pelo quarto. — Nada que mate. Ela precisa sentir medo, não morrer… ainda.

— “Vai mesmo me pedir outro favor sem pagar o primeiro?” — ele rebateu.

Revirei os olhos.

— Quero você no hotel de luxo que eu amo em cinco minutos. Sou uma mulher de palavra, Cyrus.

Ele riu baixinho. Aquele riso carregado de intenção.

— “Cinco minutos? Só isso?”

— Você está perdendo tempo discutindo, amor. — sorri. — Anda logo.

Desliguei. Me produzi e fui de encontro com o prazer.

Quatro minutos depois, estava na suíte presidencial. Sentei-me na beira da cama king, cruzando as pernas, usando apenas um vestido preto curto e um perfume que fazia homens esquecerem as próprias mães.

A porta bateu. Cyrus entrou sem pedir permissão, como sempre. Alto, tatuado até o pescoço, barba cerrada, olhar de quem já fez coisa pior do que admitir.

— Você me chama assim e eu venho correndo. — ele disse, passando a mão no cabelo. — Isso tem que significar alguma coisa.

— Significa que você vai ganhar o que quer. — respondi, levantando devagar. — Mas só se fizer o que eu mandei.

Ele se aproximou como se eu fosse a última coisa viva no planeta.

— E o que exatamente você quer? — sussurrou, colando o corpo no meu.

Toquei seu rosto, arrastando a unha pelo maxilar dele.

— Pavor. — respondi. — Ela precisa sentir pavor.

O sorriso dele surgiu.

— Eu posso causar pavor… se o pagamento for bom.

A risada saiu de mim sem esforço.

— Cyrus… eu sempre pago bem.

Cyrus me puxou pela cintura antes que eu terminasse de fechar a boca. Sua boca encontrou a minha com fome, aquelas mãos enormes deslizando pela minha coxa enquanto me levantava como se eu não pesasse nada.

— Você sabe exatamente o que faz comigo, loira — ele rosnou contra meu pescoço.

Eu ri, puxando seu cabelo enquanto ele me colocava sobre a bancada de mármore.

— E faz bem, porque eu quero você assim… obediente.

Ele abriu minhas pernas com firmeza, a respiração quente na minha pele.

— Por você, Astrid… eu passo dos meus próprios limites.

O resto da conversa desapareceu entre beijos, mãos, respirações rápidas. Ele perdeu o controle, como sempre. Eu o deixei louco, como sempre. E quando terminou, jogou-se na cama, completamente entregue, olhando para mim como se fosse meu.

— Se esse for o pagamento toda vez… — disse ofegante. — Eu serei o braço da morte pra você. Sem retrucar. Apenas obediência.

Ajoelhei ao lado dele, tocando o peito marcado pelas tatuagens.

— Eu sei. — confirmei. — Por isso te escolhi.

Nos dias seguintes, esperei. Nada de notícias. Nenhuma manchete. Nenhuma sirene. Nenhuma Ruby apavorada gritando por socorro. Comecei a roer a própria paciência.

— Será que ele fez? — perguntei, andando de um lado para outro na sala do meu apartamento. — Ou será que aquela ruiva maldita continua escapando de tudo?

Estava prestes a ligar pra Cyrus quando a campainha tocou. Uma vez. Duas. Três. Forte, urgente.

Meu coração acelerou. Por um instante, achei que fosse ele trazendo novidades quentes. Abri a porta com impaciência. Mas o que encontrei foram duas fardas azuis.

— Astrid Laurent? — o policial perguntou.

— Sim. — respondi sem mudar de expressão.

— Está presa por tentativa de dano à integridade física da senhora Sinclair.

Inclinei a cabeça levemente para o lado, analisando a situação como quem vê uma peça de teatro ruim.

— Demoraram mais do que eu esperava. — sussurrei.

A policial se aproximou para me algemar. Estendi os braços com total tranquilidade. Não ia dar o prazer de me ver espernear. Drama é para quem não controla o roteiro.

Quando eles me conduziram para fora, flashes surgiram como fogos de artifício. Um repórter de tabloide empurrou o microfone quase na minha boca.

— Astrid! É verdade que você tentou matar Ruby Sinclair?

Sorri. Aquele sorriso que sempre faz alguém tremer, de tesão ou de medo.

— Eu só tentei ajudar o mundo a ver quem essa Ruby realmente é. — falei alto, para todas as câmeras ouvirem. — Apenas uma vadia que ilude dois homens bilionários dessa cidade. No final, ela é só uma puta de luxo.

O burburinho explodiu, jornalistas se engalfinhando para registrar minha frase. Delicioso.

Os policiais me colocaram na viatura. O banco era duro, o cheiro era de cigarro, mas a sensação era… confortável. Melhor do que eu imaginaria. Um deles me olhou pelo retrovisor.

— A senhora parece muito calma pra quem foi pega.

Cruzei as pernas com elegância.

— Eu nunca entro em um jogo que não possa continuar jogando de onde eu estiver.

Ele franziu o cenho.

— Não entendi.

Toquei o próprio queixo, inclinando a cabeça.

— Claro que não entendeu. Não é pra entender.

Encostei a cabeça no banco e olhei a cidade através da janela. As sirenes ligaram, ecoando pelo corredor de prédios.

Enquanto a viatura descia a rua, vi alguém parado no canto da calçada. Um homem de moletom escuro, capuz cobrindo metade do rosto.

Ele não olhou para mim diretamente, mas levantou o celular. Uma notificação apareceu discretamente no meu pulso, ligado ao smartwatch escondido sob a manga.

Mensagem recebida. Abri com o mínimo movimento possível.

— “Entrega feita. A ruiva ainda respira.”

Meu sorriso surgiu como uma faca. Não precisei responder. Ele saberia.

— Perfeito. — sussurrei.

Fechei os olhos, sentindo a viatura se afastar. Andrew achava que tinha me vencido. Ruby achava que estava protegida. Ethan achava que estav

a sofrendo sozinho.

Todos errados.

O jogo não termina quando uma peça cai. O jogo termina quando eu decido parar. E eu ainda não decidi.

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