Capítulo 45 Capítulo 45
Ruby
Faz duas semanas desde que Astrid foi presa, mas eu ainda acordo com o coração disparado, como se alguém fosse arrancar a porta do quarto a qualquer momento.
A frase dela continua ecoando na minha cabeça, como um veneno que não passa:
— “Eu só tentei ajudar o mundo a ver quem essa Ruby realmente é. Apenas uma vadia que ilude dois homens bilionários dessa cidade. No final, ela é só uma puta de luxo.”
Eu odiaria lembrar se não doesse tanto. Não foi só meu nome que ela tentou destruir. Foi tudo que estou tentando construir com Andrew. Foi a paz que eu lutei para ter depois de sobreviver ao inferno com Ethan.
— Bom dia, ruivinha. — a voz de Andrew invade o quarto antes que os pensamentos ruins me engulam.
Ele entra com uma bandeja de café da manhã, o cabelo bagunçado, sem a postura impecável de Ceo. Só o homem que acorda mais cedo pra cuidar de mim porque eu vivo enjoada, cansada e assustada.
— Você não precisa fazer isso todos os dias. — digo, tentando sorrir.
— Preciso, sim. — ele se senta na beirada da cama. — É a minha parte favorita da manhã.
Ele me ajuda a sentar, ajeita os travesseiros atrás das minhas costas e, antes de qualquer coisa, abaixa a cabeça e beija a minha barriga.
— Bom dia, pequeno Sinclair. — fala, encostando o nariz na minha pele. — Ou pequena Sinclair, tanto faz. A gente já ama você do mesmo jeito.
Eu rio baixinho, passando a mão no cabelo dele.
— Você está se tornando o homem mais protetor do planeta.
— O homem mais sortudo também. — ele responde, levantando o rosto para me olhar. — Eu nunca imaginei ter isso.
— Isso o quê?
— Uma família. Você. E esse bebê.
Os olhos dele brilham de um jeito que me faz querer esquecer qualquer coisa ruim do mundo. Mas o mundo não esquece da gente. Não quando tem manchete, dinheiro e sangue envolvido.
Depois do café, eu tomo banho com calma, me visto com um vestido confortável e largo, e desço as escadas devagar. Dois homens me aguardam na porta.
Mark, o segurança antigo de Andrew, alto, sério, com cara de quem não sorri nem se alguém contar a piada do século. E o outro, que chegou há pouco tempo, indicado pela empresa de segurança: Miguel.
Ele é mais jovem, mas tem um olhar atento, profissional. Não é invasivo, não puxa assunto, não tenta se aproximar além do necessário. Só observa tudo, como se calculasse cada movimento ao redor.
— Bom dia, senhora Sinclair. — ele diz, abrindo a porta.
— Ruby, por favor. — respondo por reflexo.
Ele concorda com um aceno, sem forçar intimidade. Algo nele transmite um respeito silencioso, como se me conhecesse de outra vida. É uma sensação estranha, mas eu coloco isso na conta da minha paranoia.
Andrew aparece atrás de mim, ajustando o relógio no pulso.
— Hoje você só vai à consulta e depois volta pra casa. — afirma, como se fosse lei.
— Estou grávida, não em prisão domiciliar. — retruco, cruzando os braços.
Ele respira fundo.
— Depois do que aconteceu com o carro, depois de tentarem te cercar de novo, me perdoa, mas eu prefiro exagerar.
Olho para os dois seguranças.
— Você não acha que é demais?
— Eu acho que ainda é pouco. — Andrew responde, sério. — É por precaução.
Ele se aproxima, segura meu rosto com carinho.
— Eu não vou perder você. Nem o nosso bebê. Se eu tiver que ser o homem mais paranóico do planeta, vou ser.
Minha vontade é abraçar ele e pedir desculpas por todas as coisas que ainda escondo, principalmente o medo que Ethan ainda me causa. Mas eu só consigo dizer:
— Eu nunca imaginei ver você assim.
— Eu também não. — ele confessa. — Mas saber que há uma vida nossa crescendo aqui… — passa a mão na minha barriga com cuidado. — Muda tudo.
O bebê tem se mexido com mais frequência. Às vezes, quando estou deitada, sinto pequenos chutes, como se ele estivesse lembrando que está aqui, que precisa de espaço, de ar, de paz.
Andrew comprou livros sobre gestação, fica irritado quando eu esqueço de lanchar na hora certa, aprendeu receitas sem alho porque eu não suporto mais o cheiro. Ele é tudo que eu pedi em oração nas noites em que achei que não ia sobreviver ao meu próprio coração quebrado.
Mas, ainda assim, o medo não me deixa.
No carro, Mark dirige, Miguel fica ao meu lado no banco de trás, olhando pela janela com a atenção de quem espera o pior a qualquer momento.
— Você está bem, senhora S… Ruby? — ele pergunta, sem tirar os olhos da rua.
— Estou. Só cansada desse circo.
— Vai passar. — ele diz, simples.
Olho discretamente o perfil dele. Há algo contido demais naquele homem, um tipo de disciplina que não vem de um emprego comum. Lembro de quando vivi cercada por homens assim, em outra casa, com outro sobrenome que agora me persegue em manchetes.
Eu afasto o pensamento. Não quero ligar pontos que talvez nem existam.
A rotina de consultas, exames e remédios virou parte da minha vida. Os médicos repetem as mesmas frases: evitar estresse, se alimentar bem, descansar.
Como descansar quando sinto o passado respirando na minha nuca?
Na volta pra casa, vejo de novo. O mesmo carro preto parado a certa distância da mansão. Vidros escuros, motor desligado, parado há tempo demais para ser coincidência.
— Aquele carro está sempre ali. — sussurro.
Mark olha pelo retrovisor.
— Já verificamos a placa. Nada irregular.
— E se for só alguém… esperando?
Miguel acompanha meu olhar, sem mudar a expressão.
— Se for alguém esperando, não vai chegar perto de você. — afirma. — Esse é o nosso trabalho.
Quero acreditar. Mas meu estômago se fecha.
À noite, depois do jantar, Andrew insiste para que eu fique na sala, de pernas esticadas no sofá, enquanto ele responde alguns e-mails do trabalho. A televisão está ligada num programa qualquer, mas eu não presto atenção.
Pego o celular e vejo a tela acender com uma nova mensagem de número desconhecido.
— “Eu só quero ter certeza de que você está segura.”
O coração para por um segundo. Não preciso de assinatura. Eu sei quem é.
Ethan.
Olho em volta, como se ele pudesse sair de algum canto da casa, mas a única coisa que vejo são os dois seguranças do lado de fora, andando pelo jardim.
Apago a mensagem sem responder.
Andrew se aproxima com uma manta.
— Está com frio?
— Um pouco.
Ele cobre minhas pernas e senta ao meu lado, beijando minha testa.
— Você está mais quieta hoje.
— Só cansada.
Ele não insiste. Talvez esteja cansado também. Ele carrega o peso de me proteger de algo que nem ele conhece por completo.
Encosto a cabeça no ombro dele e sinto o bebê mexer.
— Ele está ativo hoje. — digo, tentando focar em algo bom.
Andrew sorri, encostando a mão na minha barriga.
— É o jeito dele dizer que está aqui… e que eu tenho que trabalhar dobrado pra manter vocês em segurança.
Eu sorrio, mas não conto que do outro lado da rua alguém me observa como se também achasse que esse fosse o trabalho dele.
Horas depois, já no quarto, enquanto Andrew dorme com o braço pesado sobre minha cintura, o celular vibra de novo na cômoda.
Outro número desconhecido.
— “Eu estou vendo. Eles aumentaram sua guarda. Bom. Menos chances de alguém encostar em você.”
Fecho os olhos e respiro fundo, sentindo a familiar mistura de alívio e pavor.
Alívio porque, em algum lugar distorcido, parte de mim sabe que Ethan nunca deixaria alguém me machucar fácil. Pavor porque é exatamente por causa dele que minha vida virou esse caos.
Na manhã seguinte, acordo com a sensação de que fui observada a noite inteira. Desço para o jardim para tentar respirar melhor e encontro Miguel perto do portão, atento à rua.
— Você não dorme? — pergunto.
Ele ajeita o boné.
— Quando estou em serviço, não. — responde. — É assim que mantenho quem eu protejo vivo.
A frase me arrepia.
— Obrigada por isso. — digo, sincera.
Ele me olha por um segundo, como se quisesse dizer algo e desistisse.
— Só estou cumprindo ordens. — comenta.
— Do Andrew?
— Do meu trabalho. — ele responde, desviando o olhar.
Volto para dentro com a estranha sensação de que tem mais acontecendo do que eu consigo enxergar.
Apago a mensagem mais uma vez, sem responder, e encosto a mão na barriga.
— Eu vou dar um jeito, meu amor
. — sussurro. — Um dia, tudo isso vai ser só uma lembrança distante.
Mas, lá no fundo, uma voz que eu odeio admitir cochicha que o passado ainda não terminou de cobrar a sua dívida.
