Capítulo 46 Capítulo 46

Andrew

Acordei antes dela de novo. Não sei se é porque meu corpo se acostumou a dormir menos ou porque, sempre que abro os olhos, quero ser o primeiro a ver Ruby respirando tranquila. Ela dorme como se nada pudesse machucá-la, mas eu sei que o mundo tenta, todos os dias, e isso faz meu peito apertar.

Viro devagar, apoiando o cotovelo no colchão. O lençol caiu um pouco durante a noite, revelando a barriga dela. Meu filho. Minha filha. A nossa vida inteira ali, em silêncio, crescendo.

Meu coração bate diferente desde que soube. Às vezes dói, às vezes parece fogo. E, sim… ainda machuca lembrar que ela guardou aquilo de mim por tanto tempo, mas não existe ressentimento que sobreviva quando olho para ela. Não quando lembro do som do coração do bebê que ouvimos antes dela receber alta do hospital. Não quando vejo o corpo dela mudando dia após dia.

Aproximo a mão, deslizo devagar pela curva do ventre.

— Está ainda mais linda, sabia? — sussurro, antes mesmo de ver os olhos dela abrirem.

Ruby desperta devagar, piscando, e sorri com aquele sorriso que sempre acaba comigo.

— Você fala isso todo dia. — ela reclama, mas de um jeito leve.

— Porque é verdade todo dia. — respondo, inclinado para beijar a bochecha dela.

Ela cora. Sempre cora. Mesmo depois de tudo que já vivemos.

Levantamos devagar. O médico pediu para ela evitar esforço e eu sigo isso como lei. Se pudesse, carregaria ela no colo da cama até a mesa. Mas Ruby tem uma força que às vezes me assusta. Uma força silenciosa, o tipo de força que as pessoas tentam quebrar.

Passamos pela cozinha, e o aroma do chá de camomila domina o ar. Ruby está obcecada pela tal camomila gelada que ajuda nos enjoos. Eu preparo sem reclamar, qualquer coisa por ela.

— Já pensou num nome? — pergunto enquanto sirvo o café.

Ela prende o cabelo de qualquer jeito e senta na cadeira.

— Ainda não. Quero esperar pra saber o sexo. Esse bebê não quer que a gente descubra, vive se escondendo.

Sorrio. Eu também vi os ultrassons repetidos, ela me mostrou, embolados, com a mãozinha perto do rosto, como se ele, ou ela, tivesse vergonha da câmera.

— Eu já escolhi um. — digo, baixo.

Ela ergue o olhar, curiosa.

— É mesmo? Qual?

— Se for menina, quero que tenha o teu nome.

Ruby solta uma risada cansada.

— Andrew, você é impossível. Não quero que tenha meu nome. Podemos escolher outro.

— Impossível é amar tanto alguém e ainda achar que é pouco. — falo, sincero. — Eu quero que nossa filha tenha nome de jóia preciosa igual a mãe… que tal Safira? Esmeralda? Pérola? Cristal? Diamond?

Ela arregala os olhos.

— Calma, amor… Safira? — ela ri. — Gostei.

Meu peito aquece. Eu viveria só para ouvir ela rindo assim todos os dias.

Mais tarde, eu preciso ir para o escritório. Mas desde o momento em que deixo a porta da mansão, minha cabeça não acompanha meus passos. Fico pensando nela. No bebê. Em como tudo mudou tão rápido.

Em como, nos últimos meses, eu fiz amor com ela todas as noites sem imaginar que já havia uma vida ali, crescendo devagar. Ela deve ter ficado tão assustada… talvez tenha achado que eu reagiria mal, ou que eu não aceitaria naquele momento. Mas mesmo assim…

Dói.

Ainda dói.

Meu telefone vibra várias vezes no trabalho. Não é Ruby, mas o médico. Mando mensagem pedindo todo tipo de informação: relatórios, vídeos, mais detalhes do ultrassom.

Preciso recuperar o tempo perdido. Preciso saber tudo.

Na hora do almoço, percebo que estou sorrindo sozinho como um idiota. Eu, Andrew Sinclair, o homem que nunca demonstrou nada, agora fico olhando para uma foto borrada do ultrassom como se fosse a chave do universo.

Quando volto para casa, passo na floricultura que Ruby gosta. Escolho flores porque ela merece flores todos os dias. Mas uma caixa pequena me chama atenção na vitrine ao lado. Um sapatinho branco, minúsculo. Quase do tamanho da palma da mão.

Eu compro. Nem penso duas vezes.

Chego em casa ansioso. Ruby está na sala, deitada no sofá, lendo algo sobre maternidade. Quando me vê, endireita o corpo.

— Você chegou cedo hoje. — sorri.

— Tive um motivo muito bom pra voltar cedo. — digo, levantando a caixa.

Ela ergue as sobrancelhas, curiosa. Abre devagar, e quando vê o sapatinho, os olhos se enchem imediatamente.

— Andrew… — ela coloca a mão sobre os lábios.

— Não sei se está cedo pra isso. Eu não aguentei. — admito, rindo. — E eu não quero esperar para ser pai. Já sou.

Ela se aproxima devagar, como se estivesse pisando em vidro, e me abraça. Forte. Forte como nunca.

— Você vai ser um pai incrível. — ela diz, a voz embargada.

Eu a seguro mais ainda.

— Eu vou ser o que for preciso para vocês dois ficarem vivos e felizes. — respondo, e parte da minha própria voz falha.

Ruby ri, encostando a testa na minha.

— Eu amo você.

Meu coração aperta. Cada dia que passa, esse "eu amo você" parece mais pesado, mais importante, mais impossível de viver sem.

Depois que ela adormece no sofá, enrolada numa manta, eu vou até o escritório. Um envelope me espera sobre a mesa. Reconheço o selo antes de abrir.

Documento judicial.

Relatório do investigador.

Eu preparo minha mente para ódio, mas ainda assim não é suficiente.

— “Astrid Laurent: LIBERADA SOB FIANÇA.”

O sorriso que passei o dia inteiro carregando sumiu. Sumiu como se nunca tivesse existido.

Minha mão fecha o papel com força, e eu apoio as duas mãos na mesa, respirando fundo, tentando impedir que o gelo que sobe pela minha espinha me transforme no homem que eu era antes de Ruby.

Astrid está solta. E gente solta faz estragos.

Olho pela porta do escritório, Ruby dormindo tranquila no sofá, abraçada à barriga. E algo dentro de mim decide que nada, absolutamente nada, vai tocar nela. Nada vai tocar no meu bebê.

Eu pego o telefone.

— Quero vigilância dobrada ao redor da casa. — digo, com a voz firme. — A partir de hoje, ninguém se aproxima sem ser revistado.

E desligo. Meu coração está em guerra.

Metade dele ainda machucado porque Ruby me excluiu de algo tão importante. A outra metade… pronta para incendiar o mundo inteiro por ela.

Mas quando volto para a sala, encontro Ruby dormindo, com a mão na barriga, e algo dentro de mim sossega. Me ajoelho ao lado do sofá, coloco a palma sobre o ventre dela e sussurro:

— Vocês dois são tudo pra mim. Não importa quanto sangue eu tenha que derramar pra manter vocês vivos.

E repito, para mim mesmo, para o bebê, para ela e pa

ra qualquer um no universo que queira testar minha paciência:

— Eu sou o pai desse bebê. E ninguém toca na minha família.

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