Capítulo 47 Capítulo 47

Ethan

Eu deveria esquecer Ruby. Eu deveria aceitar que ela está casada, grávida e vivendo uma nova vida que não me inclui.

Deveria?

Mas toda vez que penso nisso, algo dentro de mim trava e quebra como vidro sendo esmagado na mão. A verdade é simples, eu não sei viver num mundo onde Ruby não existe por perto.

Não importa se ela não me quer mais. Não importa se ela está carregando o filho de outro homem. Não importa se ela me odeia.

O que importa é que ela respira. Que está viva. E que ninguém mais vai tocá-la.

Por isso tornei minha presença invisível. Não para ela, ela não aceitaria, mas para o mundo. Tornei-me uma sombra, um fantasma de terno preto encostado na parede de longe, sempre atento, sempre pronto.

Quem está ao lado dela é Miguel. O único homem que confio sem hesitar. E ela nem imagina.

Miguel anda alguns passos atrás, vestindo uniforme de segurança comum, contratado para reforçar a proteção da mansão Sinclair. O próprio Andrew nem percebeu de onde ele veio, mas pagou a empresa terceirizada e ficou satisfeito.

Andaria satisfeito… se soubesse a verdade?

— “Está tudo sob controle.” — Miguel me envia mensagem enquanto acompanha Ruby pela entrada lateral da clínica.

Respondo curto, do meu carro:

— Sempre esteja a dois passos dela. Não permita aproximação.

Ele manda um “sim, senhor”. Não precisa dizer mais nada.

Encosto a cabeça no banco, sem desgrudar os olhos do vidro escurecido que me permite ver Ruby à distância. A barriga dela está maior. Arredondada. Linda.

E é estranho… porque eu deveria sentir ódio ao olhar. Mas o que sinto é outra coisa. Uma coisa que me destrói por dentro: saudade.

O que me destrói quando olho para ela não são lembranças boas. Porque eu nunca dei isso a ela. São as lembranças do que eu deveria ter feito, e não fiz.

Do jeito como ela me olhava no começo…

esperando alguma coisa que eu nunca dei. Da forma como ela encolhia os ombros quando eu chegava tarde demais, frio demais, calado demais.

De como ela dizia apenas “boa noite”, como se tentasse sorrir mesmo sem receber nada em troca. Do silêncio dela, que era pior do que qualquer grito.

Do toque que ela tentou dar uma vez, e eu recusei, fingindo estar ocupado. E, principalmente… da noite em que ela chorou achando que eu não ouvi.

Chorou baixinho. Como alguém que não queria incomodar o próprio marido. E agora, ver ela sorrindo grávida… para outro homem… é a punição perfeita por tudo que eu destruí.

Agora? Agora ela quer respirar longe de mim. Aperto o volante com força.

— Eu sei que não é certo… — sussurro. — Mas se alguém tocar nela, eu mato.

E é verdade. Cada palavra.

Há dias venho rondando a mansão Sinclair sem que ninguém perceba. Dois dos meus homens se revezam em carros pretos estacionados em pontos estratégicos. Eles têm ordens claras:

— “Não interajam. Não deixem rastros. Protejam a qualquer custo.”

Andrew pensa que está protegendo Ruby com seus seguranças corporativos. Que doce ilusão. Meu trabalho é o que de fato impede que ela vire alvo fácil.

E a prova disso veio naquela manhã, quando a voz do meu subordinado soou no rádio:

— “Senhor, homem desconhecido rondando a entrada da mansão. Tentou filmar. Está agindo estranho.”

Meu sangue gelou.

— Identificação?

— “Sem resposta. Ele não quer falar.”

— Então tratem de resolver. — minha voz saiu firme. — Sem deixar rastros.

Hesitação do outro lado.

— “Resolver como, senhor?”

Olhei para Ruby, que naquele momento caminhava pelo jardim, com a mão apoiada na barriga.

— Elimine.

Dois minutos depois, eles arrastaram o homem para dentro do beco. Eu observei tudo do carro, a poucos metros. Nada que aconteça perto dela passa despercebido por mim.

Mas o que me matou… foi o momento em que Ruby saiu da casa usando um vestido branco. Solto. Leve. Iluminado pelo sol que atravessava as árvores.

Ela apoiou a mão na barriga e sorriu para o motorista que Andrew colocou a disposição dela. Um sorriso pequeno, mas real.

Eu esqueci de respirar. Minha ruiva. Meu amor maldito. Minha ferida aberta.

Um bebê que não é meu crescia ali, e mesmo assim eu a amava como se fosse a primeira vez.

— Você devia ser minha. — sussurrei, a voz tremendo. — Tudo isso… devia ser meu.

Mas eu perdi. Por burrice. Por orgulho. Por não ter entendido a tempo que ela era a única coisa que valia mais do que outra mulher, do que o poder, do que a minha própria vida. Agora pago o preço.

Naquela noite, tive reunião no clube reservado aos chefes de máfia. Um lugar onde o luxo esconde a podridão. Whisky caro, charutos, conversas sussurradas que valem milhões e matam sem usar armas.

E lá estava ela. Astrid. Sempre dramatizando, sempre recebendo atenção de quem não deveria. Ela veio em minha direção como uma tempestade de salto alto.

— Você me deixou apodrecer sozinha na prisão! — gritou, aproximando-se como se fosse me bater.

— Devia ter ficado lá. — falei sem olhar na cara dela. — Talvez aprendesse a ficar longe do que é meu.

— Eu fiz tudo por você! — ela rebateu, a voz cortante. — Fiz porque te amo! Eu quero você de volta. Quero o Ethan que me usava, o Ethan frio, o Ethan que nunca se importava com ninguém!

Acendi um cigarro devagar. O cheiro dela me dava náusea.

— Você nunca me amou. — respondi, calmo. — Só amou a ideia de ser “a mulher do Storm”.

— E essa sua “esposa perfeita”? — ela cuspiu o termo. — Acabou com você. Fez você virar isso aí. Um homem lamentável, seguindo ela como um cachorro abandonado.

A raiva subiu, afiada. Mas eu não demonstro. Nunca demonstro.

— Agradeça ao acordo que tenho com Pierre, seu pai. — digo, baixo. — É a única coisa que te mantém viva. Se machucar Ruby de novo, não haverá acordo no mundo capaz de te salvar.

Ela encarou meus olhos com algo entre medo e loucura. Tentou tocar meu rosto. Eu segurei seu pulso com firmeza, afastando.

— Chega, Astrid.

— Você está jogando sua vida inteira fora por causa dela! — ela gritou. — E ela nem te quer! Está felizinha carregando o filho do Sinclair. Olha o quanto você se humilha.

Fiquei em silêncio por um segundo. E respondi:

— Ruby tem alguém cuidando dela. — puxei o cigarro, soltando a fumaça devagar. — E mesmo que ela não queira… eu sou capaz de tudo para mantê-la segura.

Astrid arregalou os olhos.

— Isso é amor? Porque até onde sei amor não machuca, não humilha, não se implora.

Eu ri sem humor.

— Isso é obsessão, raiva e redenção. — dei um passo para trás. — Eu vou protegê-la mesmo que ela nunca descubra.

Astrid se aproximou de novo, sussurrando:

— Então o mundo inteiro vai queimar junto com ela.

Virei o rosto em direção à porta.

— Tenta, Astrid. — respondi, sem emoção. — Se continuar, vai viver cinquenta tons de vermelho. E não estou falando de romance.

Ela empalideceu. Eu fui embora sem olhar para trás.

Do lado de fora, o ar frio da madrugada bateu no meu rosto. Peguei o celular. Mensagem de Miguel:

— “Tudo certo. Ela está dormindo.”

Olhei para o céu cinzento. As luzes da cidade refletiam no capô do carro. Meu peito apertou com uma dor silenciosa.

Eu nunca vou tê-la de volta. Mas posso garantir que ninguém a machuque. Nem Astrid. Nem os inimigos. Nem o mundo.

E, principalmente, nem eu.

Encostei a cabeça no volante e sussurrei, cansado, derrotado, mas decidido:

— Isso vai ter que ser o suficiente, ruiva. Ser o fantasma que te

protege… porque ser teu homem, eu serei até meu último suspiro.

Mas uma coisa ninguém tira de mim. Eu sempre vou ser quem mantém ela viva. Sempre.

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