Capítulo 48 Capítulo 48
Ruby
Eu já tinha lido em algum lugar que, em determinado momento da gravidez, o bebê começava a “conversar” com a mãe pelos chutes. Até então, eu tinha sentido pequenos toques, como se alguém cutucasse levemente por dentro. Mas naquela noite foi diferente.
Eu estava deitada com Andrew na cama, encostada no peito dele. A TV passava algum programa qualquer, mas nenhum dos dois prestava atenção. Minha mão descansava sobre a barriga já grande quando senti.
Um chute. Forte. Bem no centro.
— Andrew… — virei o rosto, rindo surpresa. — Ele deu outro chute forte!
Ele se ajeitou na hora e colocou a mão aberta sobre meu ventre, com cuidado.
— Deixa eu ver se ele faz de novo. — falou, os olhos brilhando.
Ficamos alguns segundos em silêncio. Eu estava quase dizendo que tinha sido coisa da minha cabeça quando veio de novo. Um empurrão firme contra a pele e a palma da mão dele.
Andrew abriu um sorriso tão grande que parecia outra pessoa.
— Ele chutou, Ruby. — disse, rindo.
Como se o bebê entendesse, veio outro chute. Eu gargalhei, emocionada, e senti as lágrimas subirem aos olhos.
— Ele me ouviu. — Andrew respirou fundo, apertando um pouco a minha barriga.
— Claro que ouviu. — respondi. — Você fala com ele todo dia.
Ele inclinou o corpo e beijou minha barriga com carinho. Passei a mão no cabelo dele, sentindo o coração aquecer.
Por alguns minutos, o resto do mundo sumiu. Não existia Astrid. Não existiam manchetes. Não existia Ethan. Só eu, Andrew e nosso filho.
— Já pensou como vai ser quando ele nascer? — Andrew perguntou, deitando de lado.
— Caótico. — respondi, rindo. — E barulhento.
— E perfeito. — completou.
Ficamos ali imaginando o futuro. O quarto pronto, as noites sem dormir, a casa cheia de brinquedos. Andrew pegou o celular e começou a tirar fotos.
— Não, hoje não, estou com cara de cansada. — reclamei.
— Você está linda. — ele disse. — Quero lembrar desse momento pra sempre.
Acabei cedendo. Ele tirou fotos minhas sorrindo, com o ventre nu e redondo. Em algumas, apareceu também, colado em mim.
Depois das fotos, ele desligou a TV. Ficamos só com o abajur aceso, criando uma meia-luz aconchegante no quarto. Foi aí que a realidade me atingiu de novo.
— Andrew… — chamei, baixinho.
— Hum? — ele respondeu, desenhando círculos com o dedo na minha pele.
— Eu ainda tenho medo de perder tudo. — confessei. — Você, ele… a paz que a gente conseguiu aqui dentro.
Andrew ficou quieto por um instante. Depois virou o corpo para mim e segurou meu rosto entre as mãos.
— Isso nunca vai acontecer. — disse, firme. — Eu prometo.
— Você não pode prometer isso. — respondi, com um sorriso triste. — Não depende só de você.
— Eu sei que não. — ele admitiu. — Mas tudo o que depender de mim, eu vou fazer. Não vou deixar ninguém encostar em você nem nesse bebê. Nem mídia, nem maluco, nem fantasma do passado.
A palavra “fantasma” pesou. Pensei na moto fechando o carro, nos olhos frios de Astrid, no jeito possessivo com que Ethan ainda me olhava.
Engoli o medo e assenti.
Dormimos abraçados, com a mão dele descansando sobre o meu ventre.
No dia seguinte, a mansão estava silenciosa quando desci para tomar café. Os seguranças estavam na porta, nos corredores, no jardim. Eu já tinha me acostumado com a presença deles, mesmo sabendo que uma parte disso era prisão disfarçada de proteção.
Foi só quando entrei na sala que percebi.
Sobre uma mesa de apoio, perto da janela, havia um buquê de flores que eu não tinha visto no dia anterior. Rosas brancas e vermelhas, misturadas num arranjo simples.
— Mary? — chamei a governanta. — Quem mandou essas flores?
Ela apareceu na porta.
— Chegaram cedo, senhora Ruby. O segurança da portaria disse que um motoqueiro entregou e foi embora sem falar o nome. Achei que era do senhor Andrew e coloquei aí.
Meu coração começou a bater mais rápido. Me aproximei devagar. Havia um cartão preso entre as hastes. Peguei com dedos trêmulos e virei.
— “Protegendo você de longe.”
Só isso. Nenhuma assinatura. Nenhum nome. Mas eu não precisava de nome.
— Ethan. — sussurrei.
As letras eram firmes, conhecidas. Eu tinha visto aquela escrita em contratos, recados deixados sobre a mesa.
Agora, a caligrafia dele voltava pra mim como um sussurro atravessando a casa que eu divido com outro homem. Mary me observava.
— Não quer que eu coloque no seu quarto? — perguntou. — São bonitas.
Eu hesitei. A primeira reação foi vontade de jogar tudo no lixo. Rasgar o cartão. Mas eu estava grávida. Cansada. E, no meio da confusão dentro de mim, algo acalmou.
Não pelo homem que Ethan é.
Mas pela sensação estranha de que, de algum jeito torto, alguém lá fora também estava olhando se um carro suspeito não se aproximava demais. Se uma moto não avançava rápido.
— Pode deixar aí, Mary. — respondi por fim. — Só… não comente com ninguém sobre o cartão, por favor.
— Claro, senhora. — ela disse.
Fiquei sozinha na sala, encarando o buquê. Passei o polegar pelo cartão e respirei fundo. Eu deveria sentir ódio. Só ódio.
Ele tinha destruído minha confiança, meu casamento, minha paz. Me traiu, me trocou, me perdeu. E agora tentava agir como se fosse um guardião.
Mas, junto com o rancor, uma coisa nova apareceu. Uma sensação pequena, quase vergonhosa.
Conforto.
Saber que existia mais alguém vigiando a porta da clínica. Que, se um carro estranho se aproximasse, não seriam apenas os seguranças de Andrew prontos pra agir.
Talvez fosse o instinto de sobrevivência. Talvez fosse o bebê, me deixando mais sensível. Talvez fosse só coisa da minha cabeça.
Peguei o cartão de novo, apertei entre os dedos e senti o bebê se mexer, como se estivesse reagindo.
— Calma, pequeno. — falei baixinho, passando a mão na barriga. — A mamãe não vai deixar ninguém encostar em você.
Deixei o cartão sobre a mesa, mas virei ele de cabeça pra baixo.
No resto do dia, tentei seguir a rotina. Dei uma volta breve pelo jardim com um dos seguranças ao lado, respirei o ar frio, sentei na poltrona da varanda. Andrew ligou do escritório para saber como eu estava.
— Cansada. — respondi. — Mas o seu filho está chutando como se fosse atleta.
— “Meu filho é perfeito.” — ele respondeu. — “Volto mais cedo hoje. Não faz nada sozinha.”
— Eu só andei um pouco. — garanti.
Quando desliguei, olhei de novo para dentro da sala pela porta de vidro. As flores continuavam lá. Sentei com as mãos na barriga, sentindo mais um pequeno chute.
Dentro de mim, duas verdades opostas brigavam.
Eu amava Andrew. Amava a forma como ele cuida de mim, como assumiu a guerra por mim, como olha para nossa criança.
Mas, em algum lugar muito fundo, por mais que eu tentasse negar, uma parte de mim reconhecia Ethan como alguém que já fez parte da minha história, por mais doente que tenha sido. Alguém que me feriu, mas que também parecia disposto a virar monstros do avesso se algum perigo se aproximasse.
E isso me confundia.
Naquela noite, quando Andrew chegou, trouxe mais uma sacola com roupinhas de bebê.
— Achei isso a sua cara. — disse, mostrando um macacãozinho com estampa de estrelas.
— Eu vou acabar chorando por qualquer coisa agora. — comentei, rindo entre lágrimas.
Ele me abraçou, olhou em volta e viu as flores.
— De quem são? — perguntou.
Por um instante, as paredes pareciam mais próximas. Respirei fundo.
— Anônimo. — respondi, tentando soar leve. — Talvez algum investidor, alguém da empresa… você sabe como as pessoas são quando descobrem que tem bebê chegando.
Andrew olhou o arranjo, mas não insistiu.
— Seja quem for, teve bom gosto. — comentou.
Sorri e concordei com a cabeça. Mas por dentro, o peso daquele pequeno cartão continuava me puxando para baixo.
Quando me deitei naquela noite, com a mão de Andrew mais uma vez sobre a minha barriga, o bebê se mexeu devagar.
Fechei os olhos e pensei em tudo o que eu tinha. Um marido que me ama. Um bebê que cresce saudável. Uma casa protegida. E um fantasma lá fora, enviando flores e promessas.
— “Por favor…” — pedi em pensamento. — “Que esse bebê não pague pelos erros dos adultos.”
Acariciei minha barriga e respirei fundo. O mundo lá fora podia estar pegando fogo. Mas, por alguns minutos, dentro daquele quarto, eu me permiti sentir só o que havia de bom.
O chute suave. O calor do corpo de Andrew. E a esperança teimosa de que, de algum jeito, a
vida ainda pudesse dar certo pra nós três.
Mesmo sabendo que nada é garantido, naquele instante eu escolhi acreditar que esse amor e esse bebê sobreviveriam até o fim.
