Capítulo 49 Capítulo 49

Andrew

Eu nunca gostei de interferências. Nunca tolerei brechas. Segurança para mim sempre foi questão de matemática: previsibilidade, controle e execução impecável. Por isso, quando os relatórios da semana começaram a mostrar um padrão estranho, meu estômago travou.

— Senhor Sinclair… — meu chefe de segurança chamou minha atenção enquanto analisava as câmeras. — Temos uma movimentação duplicada na vigilância. Dois grupos monitorando a mesma área.

Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.

— O que quer dizer com “duplicada”?

— Em alguns horários, alguém externo está fazendo o mesmo trajeto que os nossos homens. Segue pelos mesmos pontos… como se estivesse cobrindo o que falta.

Meu maxilar travou.

— Não são seus homens? — perguntei, esperançoso por um erro simples.

— Não, senhor. Nós já confirmamos. Não são nossos.

Engoli seco, sentindo a irritação subir como um fogo lento no peito.

— Então de quem são?

Ele hesitou. Eu reconhecia aquela expressão, suspeita, mas receio de falar o nome. E só havia um nome capaz de provocar hesitação em homens treinados.

Ethan Storm.

A possibilidade me corroía por dentro desde que descobri o cerco ao carro da Ruby. Desde que percebi que nada na vida dela acontece sem que esse desgraçado esteja por perto, rondando como sombra. Mas a raiva só me atingiu de verdade naquele instante, porque significava que Ruby estava sendo protegida duplamente, sim… mas também vigiada.

— Continue monitorando. — ordenei. — Mas não interfiram ainda.

O segurança assentiu e saiu. Fiquei sozinho no escritório, encarando a tela, imaginando até onde Storm seria capaz de ir.

Provavelmente até o fim do mundo. Ele já provou isso. Respirei fundo, tentando afastar aquela sensação crescente de invasão e impotência. Eu precisava ver Ruby. Precisava lembrar por que valia a pena manter a calma.

Subi para o terraço.

Ela estava lá, sentada na poltrona de balanço que mandei colocar para ela. O vento leve balançava seu cabelo, iluminado pela luz morna das lanternas. A barriga estava redonda, perfeitamente desenhada sob o vestido claro. A visão dela assim sempre me desmontava.

— Pensei que estivesse dormindo. — falei, ao me aproximar.

Ruby abriu um sorriso tímido, mas real.

— O bebê não deixou. — Ela pegou minha mão e colocou sobre o ventre. — Está sentindo?

Fiquei imóvel, aguardando. Então veio, um chute firme, decidido, como se o pequeno estivesse tentando chamar meu nome.

Meu peito se encheu de algo que nunca senti antes… orgulho, alegria, amor bruto e limpo.

— Ele está agitado hoje. — disse, sorrindo.

— Está se mexendo assim desde mais cedo. — Ruby riu. — Acho que gosta quando você chega.

Me abaixei até ficar de joelhos e encostei a testa na barriga dela.

— Nosso pequeno milagre.

Ruby suspirou, passando a mão no meu cabelo.

— Eu nunca pensei que você fosse esse tipo de homem.

Ergui o rosto, confuso.

— Qual tipo?

— O tipo que sorri por causa de um chute. — ela respondeu, com a voz suave.

Soltei uma risada curta e sincera.

— É que eu nunca tive nada tão meu antes.

Ela piscou devagar, emocionada. Eu puxei seu rosto para perto e beijei sua testa. Ruby deitou a cabeça no meu ombro, e ficamos ali, só nós três, como se nada no mundo pudesse atravessar aquele momento.

Mas paz sempre dura pouco.

Quando Ruby entrou pra dormir e foi para o quarto, eu continuei no terraço. Não queria estragar o humor dela. Ela estava radiante, e eu queria guardar aquela imagem, Ruby com a mão na barriga, conversando com o bebê como se ele já entendesse tudo.

Depois de alguns minutos, desci para o escritório. A tela do computador acendeu com uma notificação nova. Sem nome. Sem remetente. Só uma frase.

— “A mulher que você ama não está sendo protegida só por você.”

O sangue dentro de mim gelou. Abri a mensagem inteira. Nada além da frase. Mas era suficiente. Cerrei o punho com tanta força que senti a pele esticar.

— Storm… — sussurrei. — Eu devia saber.

A interferência na vigilância não era coincidência, nem falha de sistema. Era ele. De novo. Sempre ele.

Aquele mafioso desgraçado seguia Ruby como um fantasma. Fazia segurança paralela. Mandava homens vigiarem a mansão, a clínica, os arredores. Ruby nunca estaria sozinha enquanto Ethan respirasse.

E eu sabia exatamente o tipo de homem que ele era.

Obsessivo.

Violento.

Capaz de tudo.

E acima de tudo… apaixonado pela mulher que agora carregava o meu filho.

Respirei fundo, esfregando o rosto com força. Parte de mim entendia, Ruby passou dois anos ao lado dele. Apesar do caos, Ethan a considerava “dele”. E homens como ele não lidam bem com perda. Muito menos quando a perda se chama Ruby Sinclair.

Mas isso não muda o fato de que ela agora é minha família. Minha esposa. A mãe do meu filho. A mulher que me fez sentir vivo de um jeito que eu nem sabia que existia.

Fechei o computador.

Eu não permitiria que Storm continuasse se aproximando. Não permitiria que um segundo sequer da segurança dela dependesse de alguém que não fosse eu.

Subi novamente para o quarto.

Ruby dormia de lado, uma mão sobre a barriga, respirando devagar. A luz fraca do abajur deixava tudo mais suave, mais íntimo. Eu caminhei até ela em silêncio e toquei o ventre, devagar, como se pudesse falar com nosso filho pela palma da minha mão.

— Eu prometo… — sussurrei. — Você vai nascer num mundo onde ninguém vai te tocar. Ninguém.

Olhei então para o rosto dela, tão tranquilo. Tão diferente da agonia que sentia por dentro.

— Ruby… — falei baixinho. — Eu não vou dividir a segurança dela com ninguém. Nem com você, Storm.

Me afastei devagar, caminhando até a janela.

Lá fora, além do muro da mansão, na rua escura, um carro preto estava estacionado. Os faróis apagados. Mas eu sabia que havia alguém lá dentro. Eu senti.

Storm estava observando.

Storm estava esperando.

E eu? Eu estava cansado de reagir. Era hora de agir. Peguei o telefone e liguei para meu chefe de segurança pessoal.

— Quero reunião às seis da manhã. — ordenei. — E quero identificação completa dos homens que estão interferindo nos nossos perímetros.

— “Senhor, isso pode gerar conflito direto com…”

— Ótimo. — interrompi. — Estou pronto para conflito.

Desliguei e permaneci olhando para a rua. Eu nunca fui um homem que perde batalhas. E nunca vou perder Ruby. Nem para Astrid. Nem para o mundo. E, principalmente… nem para Ethan Storm.

Porque agora eu tenho algo que ele nunca vai ter de novo. A confiança dela. O futuro dela. O filho dela. E eu vou proteger isso até o fim.

Ruby se mexeu na cama e murmurou meu nome baixinho, como se sentisse minha ausência. Voltei e me deitei ao lado dela, puxando-a com cuidado para dentro dos meus braços.

Ela se acomodou no meu peito, dormindo outra vez. Beijei o topo da cabe

ça dela e fechei os olhos por um instante. Um instante apenas. Porque a guerra começava na manhã seguinte. E eu não pretendia perder.

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