Capítulo 50 Capítulo 50

Ruby

Acordei com o coração acelerado antes mesmo de abrir os olhos. Era como se meu corpo inteiro tivesse lembrado primeiro do que minha mente, hoje era o dia. O dia da ultrassonografia em que, finalmente, talvez o nosso bebê decidisse mostrar quem era. O dia em que eu ouviria a frase que vinha esperando há semanas.

Andrew ainda dormia ao meu lado, mas assim que me mexi ele abriu os olhos, como se estivesse apenas esperando um sinal meu.

— Já acordou, meu amor? — perguntou, com a voz rouca da manhã.

Sorri.

— Hoje não tinha como dormir até mais tarde.

Ele levantou rápido, como se a ansiedade empurrasse seu corpo.

— Eu vou pegar sua roupa. — disse, andando até o closet. — Você quer aquela blusa branca que eu gosto? A que deixa a barriga bem marcada…

Revirei os olhos, rindo.

— Andrew, você ama qualquer roupa que deixe minha barriga aparecendo.

Ele voltou com a peça nas mãos, sentou ao meu lado e começou a vesti-la em mim com uma delicadeza que me desmontava por dentro.

— Claro que amo. — respondeu. — Tem um bebê meu aí dentro.

— Nosso. — corrigi, tocando o rosto dele.

Andrew segurou minha mão, beijou devagar e encostou a testa na minha.

— Você acha que é menino ou menina? — perguntou enquanto ajeitava a barra da minha blusa, como se quisesse tudo perfeito para o nosso filho.

Suspirei, sentindo o nervosismo subir.

— Eu só quero que venha saudável. Isso é tudo.

Ele sorriu, aquele sorriso que só apareceu depois que descobriu a gravidez.

— Eu quero que venha com o teu sorriso. — sussurrou, beijando minha testa. — Isso já seria o suficiente pra transformar o mundo.

Meu coração derreteu. A forma como ele falava do bebê sempre me deixava sem ar.

Descemos para o café, mas nenhum dos dois conseguiu comer direito. Andrew quase derrubou a xícara duas vezes, e eu estava com as mãos trêmulas enquanto colocava manteiga no pão.

— Estamos ridículos. — comentei.

— Completamente. — ele concordou. — Mas eu não ligo.

No caminho para a clínica, Andrew segurou minha mão o tempo inteiro. Não disse nada, mas dava pra sentir o nervosismo dele pela forma como o polegar acariciava minha palma.

Quando chegamos, a recepcionista sorriu ao nos ver entrar.

— Senhora Sinclair, o médico já está esperando.

Andrew ficou ainda mais rígido ao ouvir “Senhora Sinclair”. Ele adorava aquilo. Adorava lembrar a ele mesmo, e a todos, que eu era dele agora.

Entramos no consultório. O médico ajeitou o aparelho de ultrassom, pediu que eu deitasse e levantasse a blusa.

Andrew ficou do meu lado, segurando minha mão com força. A tela acendeu. O bebê apareceu. Nosso mundo inteiro em preto e branco.

— Bom… — disse o médico, sorrindo enquanto ajustava a imagem — acho que dessa vez o bebê não está com vontade de fazer mistério.

Meu coração disparou. Andrew prendeu a respiração.

— Já dá pra ver bem… — continuou o médico. — Então… parabéns. É um menino.

Eu levei as mãos à boca, sentindo as lágrimas escorrerem sem controle. Um menino. Um filho. Nosso filho.

Andrew fechou os olhos, como se tivesse levado um soco no peito. Depois riu. Uma risada verdadeira, emocionada, quase infantil.

— Um menino… — repetiu, como se estivesse experimentando a palavra pela primeira vez. — Meu Deus, Ruby… a gente vai ter um menino!

Ele me puxou pela mão, curvou-se sobre mim e me beijou na testa, no rosto, nas mãos. Andrew estava chorando abertamente. E aquilo me destruiu em milhares de pedaços bons.

— Obrigado. — disse ele, a voz embargada. — Obrigado por me dar o melhor presente da vida.

Segurei o rosto dele entre minhas mãos.

— Ei… — sussurrei, com o coração em chamas. — Você também está me dando o melhor presente da minha vida.

O médico continuou explicando medidas, saúde, tamanho, tudo estava perfeito. Nosso filho estava forte, ativo, saudável.

Quando saímos do consultório, Andrew parecia outro homem. Caminhava mais alto, mais firme, como se o mundo tivesse mudado de lugar e agora orbitasse em torno da gente.

— Ele vai se chamar Dustyn. — declarou no estacionamento, como se fosse óbvio.

— Dustyn? — repeti, surpresa.

— Sempre gostei desse nome. É forte. É único. É… ele. — colocou a mão na minha barriga. — O nosso Dustyn.

Eu ri, tocando a mão dele.

— Eu gostei.

— Que bom. Porque eu já mandei trocar o nome na pintura do quarto na minha cabeça. — brincou.

Quando chegamos em casa, Andrew se transformou numa máquina. Ligou para decoradores, arquitetos, lojas de bebê. Em menos de duas horas, três caminhões chegaram com caixas marcadas como “tema florestinha moderna”.

— Andrew… — falei, observando a movimentação. — Você sabe que esse bebê não vai sair andando amanhã, né?

— Mas quando ele andar eu quero que seja num quarto perfeito. — respondeu, abrindo uma das caixas com brilho nos olhos.

Dentro havia um móbile com pequenos ursos, estrelas e árvores em madeira clara. Ele ergueu o objeto como se fosse uma jóia rara.

— Tem uma lua. Ele vai adorar. — disse com convicção.

Eu o observei por alguns segundos. O homem que já foi fechado, inacessível… agora estava ajoelhado no chão, segurando um móbile de ursinhos como se fosse um troféu.

Meu peito apertou, quente, cheio demais de emoção. Passei a mão na barriga, sentindo o bebê mexer como se respondesse aos meus pensamentos.

— Você vai ser tão amado, meu pequeno… — sussurrei.

Andrew olhou para mim, ouviu a frase e derreteu de novo.

— Vai ser o menino mais amado desse mundo inteiro. — garantiu, chegando perto e beijando minha barriga. — Pode anotar.

Mais tarde, quando os decoradores foram embora e a casa voltou ao silêncio habitual, fui até a janela do corredor. O quarto de Dustyn estava quase pronto, e, sinceramente, estava lindo.

Mas minha atenção foi puxada para fora. Para a rua. Para o mesmo carro preto que, há semanas, estacionava na esquina como se fosse apenas coincidência.

Mas eu sabia. Ele estava lá. Sempre esteve. Ethan.

Aquele carro estacionado não era ameaça. Não era risco. Não era invasão. Era… vigilância silenciosa. Era proteção. Era o fantasma de um passado que se recusa a sumir.

E então aconteceu. A porta do carro abriu. Ethan saiu.

Alto. Imponente. Máscara de frieza no rosto… mas os olhos, ah, os olhos… carregavam algo que eu conhecia bem demais: tormento e amor.

Na mão dele havia uma caixinha pequena.

Ele a ergueu devagar na minha direção, como se estivéssemos a poucos metros um do outro e não separados por toda uma vida.

Mesmo daqui, mesmo de tão longe, eu reconheci o que havia ali dentro. Um par de sapatinhos brancos. Idênticos aos que Andrew me deu semanas antes.

Ethan sorriu. Não um sorriso cruel como muitos esperariam. Mas um sorriso triste. Um sorriso quebrado. Um sorriso… amoroso.

Meu coração deu um salto desconfortável dentro do peito. Coloquei a mão sobre o vidro, sem perceber.

Por um segundo, um único segundo, senti medo e conforto ao mesmo tempo. Uma mistura impossível. E perigosamente familiar. Ethan, do lado de fora, fez um gesto suave com a cabeça. Como se dissesse:

— “Eu vi. Eu sei. Parabéns.”

E então voltou para o carro. Entrou. E desapareceu rua abaixo. Eu fiquei ali, com a mão congelada na janela.

Um menino.

Nosso menino.

E, de alguma forma que eu não entendia, e talvez nunca entendesse, três homens agora orbitavam a vida desse bebê.

Um pai apaixonado.

Um ex-marido obsessivo.

E um desconhecido perigoso solto por aí, seguindo ordens de uma mulher disposta a tudo.

Toquei minha barriga.

— Dustyn… — sussurrei. — Eu prometo que vou te proteger. De todos os lados. De todos os m

undos. De todos os amores quebrados que tentarem nos encontrar.

O bebê se mexeu. E, pela primeira vez, eu senti que ele também prometia algo de volta.

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