Capítulo 51 Capítulo 51

Andrew

Eu sempre gostei de controlar cada detalhe da minha vida. Era assim com a empresa, com os contratos, com os números, com o mercado. Sempre que algo saía da linha, eu ajeitava. Frio, calculado, objetivo.

Mas nada disso me preparou para o que é organizar o quarto de um filho.

— Quero que ele veja o mundo perfeito quando nascer. — digo ao arquiteto, andando pelo cômodo como se estivesse em uma reunião importante.

As paredes já estão em um tom suave entre azul e verde. Um lado com desenhos de montanhas e árvores, o outro com pequenas nuvens e estrelas. No centro, o espaço para o berço. Eu já consigo ver Dustyn ali, mesmo sem tê-lo nos braços ainda.

— Senhor Sinclair, já está quase tudo como o senhor pediu. — o arquiteto comenta. — Berço com as bordas acolchoadas, cadeira de amamentação reforçada, prateleiras altas, nada ao alcance do bebê…

— E a câmera que pedi? — pergunto. — Quero visão completa do quarto.

— Será instalada amanhã.

Assinto, ainda analisando cada linha, cada canto.

— Não quero nada solto. Nada que possa cair. Nada pontudo. — reforço. — Se precisar trocar tudo, a gente troca.

Ele sorri, um pouco nervoso.

— Sim, senhor.

Ouço passos atrás de mim. Quando me viro, vejo Ruby parada na porta, as mãos apoiadas na barriga grande, o cabelo preso de qualquer jeito, o que a deixa ainda mais linda.

— Você já deu descanso pra ele hoje? — ela pergunta, divertida, apontando para o arquiteto.

— Ele ainda está de pé, então acho que sim. — respondo.

Ela entra devagar, os olhos passeando pelo quarto.

— Está ficando lindo, Andrew. — diz, emocionada. — Mas você precisa descansar também. Ficar mandando trocar tapete três vezes no mesmo dia não é muito saudável.

Dou de ombros.

— Se o tapete for pequeno demais, ele cai. Se for áspero demais, arranha o joelho. Se for escuro demais, qualquer coisa que cair a gente não vê. — explico, sério. — Ele vai engatinhar aqui. Vai dar os primeiros passos aqui.

Ruby ri baixo.

— Você virou o homem mais exagerado e perfeito que eu conheço.

Ela se aproxima, passa a mão pelo meu rosto e beija minha boca com carinho. Eu sinto o mundo diminuir até sobrar só aquilo.

— Vem deitar um pouco. — pede. — Ele ficou o dia todo chutando, você precisa conversar com ele antes que ele ache que o pai só trabalha.

À noite, estamos na cama. Ela deitada de lado, eu com a cabeça apoiada na barriga dela. Gosto de ficar assim, ouvindo o que não dá pra ouvir, sentindo o que não dá pra ver. Às vezes acho que ele me reconhece, porque sempre se mexe quando encosto o rosto.

— Dustyn… — começo, em voz baixa. — Aqui é o seu pai.

Ruby passa os dedos pelo meu cabelo, devagar.

— Ele sabe. — diz. — Ele sempre fica mais agitado com você.

Fico em silêncio por um tempo, pensando no que dizer. Sempre fui bom com discursos, mas ali… parece que nenhuma palavra é suficiente.

— Eu queria te ensinar a andar de bicicleta. — falo, finalmente. — A desenhar… mesmo que eu desenhe pessimamente. A cuidar de quem você ama. A não deixar ninguém pisar em você. Mas aí eu fico me perguntando se consigo.

— Por quê? — Ruby pergunta, a voz embargada.

Suspiro.

— Porque eu não tive isso. — admito. — Meu pai me ensinou a comandar, não a cuidar. Me ensinou a vencer, não a sentir. E às vezes eu tenho medo de repetir isso sem perceber.

Ruby aperta de leve a minha cabeça contra a barriga. Se ela soubesse…

— Você já é o pai que ele precisa, Andrew. — diz, com firmeza. — Ele vai ter tudo o que você não teve. Vai ter colo, vai ter abraço, vai ter risadas, vai ter bronca quando precisar também, mas nunca vai duvidar que é amado.

Fecho os olhos, tentando segurar a emoção, mas ela vem mesmo assim. Não choro, mas sinto aquele aperto no peito que quase transborda.

— Tudo que eu quero é que ele olhe pra mim e não tenha medo. — confesso. — Que veja um pai… não um Ceo.

Ela sorri, mesmo com os olhos úmidos.

— Ele já tem isso. Você não percebe, mas mudou muito. — diz. — E eu… eu sou muito grata por isso.

Beijo a barriga dela, uma, duas, três vezes, como um tipo de promessa ao nosso filho.

No dia seguinte, volto ao escritório tentando me concentrar no trabalho. Reuniões, contratos, mensagens, números. Mas, agora, tudo é medido por outra régua, a régua do que é seguro para Ruby e Dustyn.

No final da manhã, o chefe de segurança da mansão bate na porta.

— Senhor Sinclair, posso entrar?

— Entre. — respondo, fechando o arquivo no computador.

Ele se aproxima, deixa um envelope pardo sobre a mesa.

— Encontramos algo que o senhor precisa ver.

Minha atenção se volta totalmente para aquele envelope. Pego, abro devagar. Lá dentro, uma série de fotos impressas e relatórios curtos.

As primeiras imagens são da frente da mansão. Veículos identificados, placas registradas, rotas. Nada que eu já não soubesse. Mas, a partir da terceira foto, meu maxilar trava.

— Isso aqui não é do nosso sistema. — digo.

— Não, senhor. — ele confirma. — Nossos homens detectaram vigilância paralela. Câmeras externas em postes próximos e sensores em pontos que não foram instalados pela nossa equipe. Também identificamos movimentação de dois grupos diferentes de seguranças monitorando a mesma área mais uma vez.

Viro outra foto. Nela, está a mansão. E, no canto, um carro preto parado na esquina. Zoom. Outro zoom.

A imagem seguinte mostra o interior do carro, captado de outro ponto. Um perfil que eu não vou esquecer nem se viver cem anos.

Ethan Storm.

De óculos escuros, mandíbula dura, ombros relaxados demais para alguém que está apenas “passando por ali”. O olhar dele, mesmo atrás das lentes, está claramente voltado para a nossa casa.

Para ela.

Sinto o sangue sumir da cabeça e voltar com força, quente, agressivo.

— Há quanto tempo isso está acontecendo? — pergunto, a voz grave.

— Pelo menos algumas semanas. — responde o segurança. — Identificamos dois carros diferentes, mas o motorista principal é esse. — aponta a foto de Ethan. — E estes… — vira mais duas fotos — são homens que não fazem parte da nossa empresa, mas foram vistos em turnos diurnos e noturnos próximos da residência. Um deles se apresentou como Miguel e foi contratado entre os seguranças recomendados. O currículo era impecável. Mas…

— Mas está ligado a ele. — completo, com ódio. — Storm.

O chefe de segurança engole seco.

— Acreditamos que sim, senhor.

Apoio as mãos na mesa, tentando não derrubar tudo.

— Ele passou dos limites. — solto, entre os dentes.

Pego

outra foto. Ruby na varanda, a barriga à mostra sob um vestido leve. De longe, o carro dele. De perto, o olhar obsessivo.

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