Capítulo 52 Capítulo 52

Andrew

Esse homem, que a fez sofrer, que a tratou como um contrato, que a traiu, que a levou para uma mansão que era mais uma prisão que um lar, agora se acha no direito de rondar a minha casa. A casa dela. O quarto do meu filho.

— O que pretende fazer, senhor? — o segurança pergunta, cauteloso.

Fecho o envelope e respiro fundo, tentando manter a cabeça fria. Minha vontade é arrancar Ethan do carro pelos cabelos e resolver tudo ali mesmo. Mas não posso agir como um amador.

Não posso ser só um homem com raiva. Preciso ser estrategista.

— Por enquanto, nada que chame atenção. — respondo. — Quero que mapeiem tudo. Cada câmera, cada ponto de vigilância, cada homem dele que se aproximar da minha casa. Nada de confronto direto sem minha ordem.

— Entendido, senhor Sinclair.

— E a partir de hoje, qualquer carro desconhecido que estacionar duas vezes no mesmo lugar… eu quero registrado. Placa, foto, dono, histórico, horário.

— Sim, senhor.

— E retirem qualquer dispositivo que não seja nosso. — concluo. — A segurança da minha família não é espaço compartilhado.

Ele assente e sai, deixando a sala carregada de algo que eu não sentia há muito tempo… desejo de guerra.

Quando chego em casa, tento não transparecer. Ruby está na sala, pés sobre a mesinha, uma mão na barriga, a outra segurando um livro sobre maternidade. Ela ergue o olhar assim que me vê.

— Você está com essa cara de “o mundo inteiro me irrita”. — comenta. — O que aconteceu?

Penso por um momento em esconder. Em dizer que foi só um dia difícil na empresa. Mas eu já escondi coisas demais dela sem perceber. Não quero repetir isso.

Sento ao lado dela no sofá, tiro o envelope da pasta e coloco sobre a mesa.

— Precisamos conversar.

O sorriso dela some na hora.

— É sobre o bebê?

— Não. — respondo. — É sobre a nossa segurança.

Ela leva a mão ao envelope, hesita, depois abre. Começa a olhar as fotos uma a uma. A mansão. A rua. A esquina.

E então ela congela. O carro. Ethan dentro dele.

Por um segundo, vejo algo no rosto dela que não sei explicar. É medo, é raiva, é culpa, é algo que dói de olhar. Os dedos apertam o papel com força.

— Ele… — ela sussurra.

— Sim. — confirmo, a voz firme. — Ele tem rondado a casa. Instalou câmeras, colocou homens na sua rotina. Até um dos seguranças foi colocado por ele.

Ruby fecha os olhos, como se aquilo tivesse acabado de pesar cem quilos sobre os ombros.

— Eu sabia do carro. — admite, com dificuldade. — Eu via de vez em quando. Desconfiava que fosse ele. Mas eu… eu não queria trazer mais problema pra você. Eu pensei que…

— Que se ficasse calada, ia ser menos grave? — completo, sem conseguir esconder a frustração.

Ela me encara, os olhos cheios de lágrimas.

— Eu já trouxe tanta confusão pra sua vida, Andrew. — diz. — Eu pensei que, se ignorasse, ele iria embora.

Sinto vontade de puxá-la para um abraço e, ao mesmo tempo, vontade de sair pela porta direto até o carro dele. Estou dividido entre o homem que ama e o homem que quer destruir qualquer ameaça.

Respiro fundo, tentando me acalmar.

— Ruby, você nunca vai ser problema na minha vida. — digo, segurando o rosto dela nas minhas mãos. — Você é a razão dela.

Ela balança a cabeça, chorando.

— Eu não quero que você se machuque por minha causa. Não quero que… que acabe se envolvendo em algo que não tem volta. Ethan não é… um empresário irritado. Ele é perigoso. É cruel.

— E eu não sou fraco. — respondo. — Eu não vou ficar sentado vendo ele rondar a casa onde você dorme. Onde nosso filho vai crescer.

Ela respira fundo, tentando me alcançar pela razão.

— Andrew, por favor… não faça nada que nos coloque em risco. — pede. — Não vai atrás dele, não tente resolver isso no impulso. Você tem muito a perder agora.

Sorrio de lado, sem humor.

— Eu sempre tive muito a perder. Só que, antes, eu não ligava. — confesso. — Agora eu ligo. Justamente por isso não vou agir como um idiota. Mas eu também não vou cruzar os braços.

Aproximo a testa da dela, sentindo o cheiro conhecido, a presença que me acalma e me deixa pronto pra destruir qualquer coisa ao mesmo tempo.

— Eu só vou garantir que ninguém mais se aproxime do que é meu. — digo, firme. — Nem fisicamente. Nem emocionalmente. Nem por lembrança.

Ela fecha os olhos.

— Promete que não vai fazer nada sem pensar? — insiste.

— Eu prometo que vou pensar. — respondo. — Mas não prometo que vou ficar parado.

Ela solta um meio riso fraco, típico de quem sabe que não tem muito como mudar isso.

— Eu me apaixonei por um homem teimoso. — diz.

— Não. — corrijo, com carinho. — Você se apaixonou por um homem que fará o impossível pra te manter viva.

Puxo ela para um abraço, sentindo a barriga dela encostar no meu peito. Coloco a mão ali, como se pudesse segurar os dois de uma vez.

Mais tarde, quando Ruby adormece, volto ao escritório. A casa está quieta, só o som distante dos carros na rua. Acendo o computador, mas, dessa vez, não abro planilhas.

Pego o celular, escolho um número que não uso há muito tempo. Um contato antigo, do tipo que resolve problemas fora da lei.

A chamada é atendida com um simples:

— “Sim?”

— Aqui é Andrew Sinclair. — digo, direto. — Preciso de um mapa completo dos passos de Ethan Storm aqui na cidade, no país, se necessário. Negócios, aliados, inimigos, fraquezas. E quero isso rápido.

— “Storm é homem de sangue, não de papel, Sinclair. Tem certeza que quer entrar nesse jogo?”

Olho pela janela. Lá em cima, o quarto do nosso filho está quase pronto. Lá no quarto, a mulher que eu amo dorme, sabendo que o passado está rondando de novo.

— Ele se aproximou da minha família. — respondo. — Então, sim. Eu quero.

Desligo. Minha mã

o ainda está fechada em punho. Sou pai. Sou marido. Sou empresário. Mas, se for preciso, também sei ser guerra.

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