Capítulo 53 Capítulo 53

Ethan

Eu nunca gostei de azul claro. Sempre achei uma cor sem graça, coisa de gente que tem vida perfeita demais. Mas agora estou parado dentro do carro, à distância, olhando pela janela do andar de cima da mansão Sinclair e vendo um quarto inteiro sendo decorado com papel de parede azul, branco e verde.

O quarto do meu pesadelo.

Ou o quarto do filho dela.

— Um menino… — repito, com a boca amarga. — Ele está roubando o meu filho… meu com a minha ruiva.

Não sei quanto tempo fico ali, encarando aquela janela. Só saio do transe quando um dos meus homens, sentado no banco da frente, fala:

— Don… o senhor tem certeza que quer ficar aqui?

Desvio o olhar do vidro.

— Cala a boca e faz o seu trabalho.

Ele se encolhe um pouco, mas não insiste. Minutos depois, outro carro da minha equipe para mais atrás. São os homens que vigiam a rua por mim. Se alguma coisa acontecer, eles agem antes de qualquer segurança de Sinclair.

Eu continuo olhando. Vejo o vulto de Ruby passando pelo quarto. Mesmo de longe, reconheço o jeito de andar. A mão dela passa pela barriga grande, protegendo. Uma faca atravessa meu peito.

Aquilo devia ser meu. Devia ser o nosso quarto. A nossa casa. O nosso filho. O outro capanga, Max, que nunca soube a hora de calar a boca, solta:

— Ainda dá tempo de tirar o Sinclair do caminho, Don. Um acidente… um sumiço…

Viro o rosto devagar, cravando os olhos nele.

— Se ele morrer, ela nunca vai me perdoar. — respondo, gelado.

Max engole seco.

— Eu só… estava sugerindo…

— Sugira da próxima vez se quer viver sem os dedos. — corto, frio. — Agora sai do carro.

Ele sai na mesma hora. Eu fico sozinho por alguns minutos, sentindo o sangue ferver. O azul do quarto, o sorriso dela quando soube que é menino, o jeito como ele vai encostar a testa na barriga dela. Faço um sinal para o motorista e saio dali antes que eu escute meus pensamentos intrusivos, invada a mansão e a leve embora.

Tranco-me no escritório assim que chego na mansão Storm. Jogo a arma em cima da mesa, afrouxo a gravata e vou direto para o bar de cristal encostado na parede.

Pego uma garrafa. Depois outra.

— Um menino… — repito, enquanto encho o copo. — Ele está roubando tudo o que devia ser meu.

Bebo de uma vez. O whisky desce queimando, mas a dor dentro de mim é pior.

Me encosto na mesa e deixo a mente voltar para o dia do casamento. Ela estava linda. Vestido simples. Ruby sorriu pra mim no altar, um sorriso pequeno, meio nervoso, mas sincero.

Eu virei o rosto.

Não queria me apegar. Achei que, se não encostasse nela, poderia manter tudo sob controle. Que ela seria só mais um nome numa lista.

Fecho os olhos e outra lembrança vem… ela, de camisola, algum tempo depois do casamento. As mãos tremendo, a voz baixa.

— “...me trata como esposa. Uma vez só. Me toca. Me beija. Me faz sentir que eu existo pra você.”

Fui um covarde, a rejeitei. Como fui idiota. Ela tentou de novo uma segunda vez. Uma terceira. E eu resisti a todas. Idiota. Louco.

Sirvo outro copo, rindo sem humor.

— Eu destruí a única mulher que me amou de verdade. — digo sozinho.

Bebo de novo. O mundo começa a ficar um pouco borrado. Minha mão pega o celular quase sem minha autorização. Abro a conversa que não deveria existir, porque cada mensagem minha vira um novo bloqueio.

Ainda assim, compro chips novos como quem coleciona pecados. Digito:

— “Se eu tivesse você na minha cama hoje, começaria só com a ponta dos dedos, subindo pela tua coxa até ouvir você perder o fôlego. Beijaria tua boca até você esquecer o próprio nome e lembrar só do meu, gemendo do jeito que só eu posso ouvir.”

Fico olhando para a tela por alguns segundos. Depois envio. O visto fica azul rápido. Ela está acordada. A resposta vem logo em seguida:

— “Ethan, por favor. Você precisa me esquecer. Eu estou casada. Grávida. Segue a sua vida em frente. Estou cansada de repetir a mesma coisa.”

Fecho a mão em volta do aparelho. Podia apagar. Podia respeitar. Mas eu perdi a linha há muito tempo. Digito outra vez, o álcool soltando coisas que eu nunca diria sóbrio:

— “Eu não consigo esquecer. Eu vou dormir imaginando você na minha cama. Acordo com a sensação da tua boca na minha. Se eu te tivesse agora, te faria gemer meu nome até o mundo inteiro entender que ninguém toca em você além de mim.”

Ela demora um pouco mais dessa vez. Consigo quase ouvir o suspiro irritado antes de responder.

— “Se você continuar, vai me enlouquecer. Eu preciso seguir em frente, Ethan. Me deixa em paz.”

Sorrio sem alegria. Apoio o celular na testa, respirando fundo.

— “Eu já enlouqueci no dia em que vocês anunciaram essa gravidez. E mesmo assim… ainda seria capaz de atravessar o inferno descalço se você me chamasse.”

Envio. Dessa vez, não vem resposta. Vejo o status da mensagem sumir. Ela bloqueou o número. De novo. Jogo o celular no sofá e rio, sozinho.

— Parabéns, Sinclair. — digo, encarando o teto. — Você conseguiu o que eu recusei… um filho com ela.

Preciso de mais álcool.

Acabo saindo para beber mais. Não sei em que momento decidi que o bar seria melhor do que o chão do meu escritório, mas quando dou por mim estou entrando em um dos poucos lugares da cidade onde ninguém ousa tirar foto minha.

O bar é escuro, música baixa. Peço outra garrafa, sem copo. Sento num canto.

— Olha só quem apareceu. — uma voz feminina corta meu momento.

Reviro os olhos antes mesmo de levantar a cabeça. Astrid.

— Ainda achando que ela te quer? — ela continua, se jogando na cadeira ao meu lado.

— Sai daqui, demônio. — respondo, cansado. — Será que não tem amor próprio?

Ela ri e pega meu whisky sem pedir.

— Ela está feliz com ele. — diz, bebendo. — Te esqueceu. Posso ser um demônio, mas sou seu demônio, Ethan.

— Ninguém esquece o inferno. — respondo. — E sobre demônio… já tenho uma legião dentro de mim, não preciso de você.

Ela faz bico.

— O que você chama de arrependimento eu chamo de vontade mal resolvida. — ela sorri torto. — Você correu pra mim pra esquecer a tua esposa. Pode correr de novo. Eu deixo. E se é filho que te dói tanto… posso resolver isso em nove meses.

A náusea que sinto não vem só da bebida.

— Vou tentar falar de um jeito que você entenda. Eu não estava com você. — digo. — Eu estava fugindo dela. Será que agora consegue me deixar em paz?

Astrid me observa, fria.

— E agora? — pergunta. — Vai fazer o quê? Mergulhar em álcool e rejeitar a única mulher que está literalmente se arrastando no chão por você?

Minha mão aperta o vidro da garrafa. Por um segundo, imagino quebrá-la na cabeça dela. Em vez disso, respiro fundo.

— Não vê que está me levando ao limite? — pergunto, baixo. — Se ultrapassar ele você deixa de respirar.

Ela ri alto.

— Patético, Ethan, medíocre. Não consigo acreditar que virou isso.

— Vou avisar só mais uma vez. — digo, apontando o dedo pra ela. — Se afasta de mim. Só está de pé por causa de uma maldita assinatura, mas eu posso ter um apagão momentâneo por causa da bebida e talvez não seja julgado.

Ela se inclina, tentando me beijar. Eu a empurro antes que qualquer parte do corpo dela encoste no meu.

— Se tentar encostar nela de novo, eu mesmo te levo pro inferno pra torrar no colo de Lúcifer. — falo, calmo demais.

Os olhos dela se estreitam.

— Então vou levar Ruby comigo. — responde. — Que ela queime com ele no meu lugar.

O bar some por um segundo. Tudo o que vejo é a imagem de Ruby chorando dentro de um carro, ou ensanguentada no chão. A raiva atravessa qualquer limite. Levanto e soco a parede ao lado com tanta força que sinto a pele rasgar.

— Você não vai tocar nela. — rosno, sentindo o sangue escorrer pelos nós dos dedos. — Ninguém vai.

Deixo algumas notas em cima do balcão e saio.

Entro no carro. Apoio as mãos machucadas no volante e encosto a testa ali por alguns segundos. A respiração vai e volta, descompassada.

Eu poderia ter tudo com ela. Um filho. Uma casa. Um quarto azul decorado por nós dois. Mas o que eu dei foi distância, humilhação, indiferença.

Agora outro homem está ocupando o lugar que eu joguei fora. Ligo o motor e faço o único juramento que ainda consigo manter.

— Eu não sei se vou ter você de volta, ruiva… — digo, baixo. — Mas juro por tudo que ainda tenho no sangue, se alguém tentar te machucar, vai morrer antes de conseguir encostar em você.

Acelero em direção à escuridão, com o gosto de whisky, sangue e arrependimento misturados na boca. E, mesmo sem mandar outra mensagem, penso nela.

Sempre nela. Ela ainda é toda a minha. Minha doce insanidade.

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